Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam indícios de que ele teria utilizado empresas parceiras e intermediários para custear despesas de uma viagem do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Nova York. Os diálogos, obtidos no âmbito de investigações da Polícia Federal, apontam orientações para que passagens aéreas e hospedagem do magistrado fossem tratadas por meio de Antonio Camarotti, CEO da revista Forbes no Brasil.
As conversas, ocorridas entre março e maio de 2024, mostram que o dono do Banco Master negociou detalhes logísticos e patrocínios com funcionários. Em um dos trechos, um colaborador questiona Vorcaro se a equipe poderia emitir passagens e hospedagem para o ministro e sua esposa, obtendo como resposta que a operação precisava ser feita obrigatoriamente através da revista para evitar emissões diretas pelo banco.
O episódio detalha ainda que um almoço em homenagem a Fux foi organizado pela publicação com o patrocínio da BeFly, empresa do setor de turismo que teve o banco de Vorcaro como parceiro financeiro. Os diálogos indicam que o ex-banqueiro apoiou os eventos da Forbes por meio dessa agência, enquanto o convite formal ao magistrado foi enviado pela própria revista sem citar a participação direta de Vorcaro.
Investigação aponta articulação
A apuração policial detalha que o telefone de Daniel Vorcaro foi apreendido e passou a ser analisado pelos investigadores, revelando uma série de tratativas corporativas. Nas mensagens recuperadas, o executivo da Forbes conversa sobre valores de patrocínio para uma festa realizada na mesma ocasião, citando cifras elevadas para garantir a inserção de marcas ligadas ao esquema investigado.
A documentação levantada pela Polícia Federal indica que o financiamento de eventos em Nova York servia como contrapartida para a exposição de empresas parceiras. A BeFly aparece tanto em registros de conversas quanto em materiais de divulgação do encontro conhecido como Forbes Power Lunch, que reuniu dezenas de convidados no exterior.
Apesar dos indícios encontrados nos celulares apreendidos, as assessorias das empresas envolvidas sustentam que as transações seguiram normas comerciais de mercado. Tanto a revista quanto a agência de turismo declararam que os patrocínios formalizados naquele período integravam o calendário regular de negócios das respectivas marcas.
Defesa nega qualquer relação
Em nota oficial enviada pela assessoria de imprensa do STF, o ministro Luiz Fux afirmou veementemente que nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro e que jamais foi convidado por ele para eventos. O magistrado esclareceu que participou de uma palestra a convite direto da Forbes para debater segurança jurídica e o cenário econômico nacional.
Fux reiterou que esteve presente apenas no almoço realizado em sua homenagem em maio de 2024, negando ter tido qualquer tipo de contato com o ex-banqueiro durante a viagem internacional. A assessoria do tribunal também pontuou que o ministro não compareceu a outras atividades ocorridas na mesma semana em Nova York.
Durante uma sessão recente da Suprema Corte, o tema voltou a gerar debates públicos quando o ministro Flávio Dino mencionou a existência de registros telefônicos e pontuou que os fatos deverão ser esclarecidos. Na ocasião, Fux reforçou publicamente a negativa de qualquer proximidade com o investigado.
Patrocínios e notas oficiais
A Forbes Brasil declarou formalmente que a BeFly patrocinou um almoço em homenagem a Fux e que o Banco Master apoiou outra celebração da revista em Nova York. A publicação defendeu a lisura dos contratos, afirmando que se tratam de relações comerciais transparentes celebradas no curso ordinário das atividades e que não havia conhecimento prévio sobre as investigações contra o ex-banqueiro.
Por sua vez, a BeFly informou que mantém parcerias pontuais com a publicação desde 2021, baseadas em estratégias comerciais para apoio a eventos idealizados pela mídia. A agência destacou que o suporte financeiro segue diretrizes corporativas padronizadas e desvinculadas de interesses ilícitos apontados pela polícia.
As justificativas apresentadas pelas companhias buscam afastar a pecha de financiamento oculto, enquanto os investigadores continuam a esmiuçar os diálogos para compreender a extensão das conexões entre o mercado corporativo e autoridades públicas.
Desdobramentos no Supremo
A repercussão das mensagens alcançou o plenário do STF, onde o avanço das apurações da Polícia Federal sobre figuras ligadas ao Banco Master tem dominado os bastidores políticos e jurídicos. O escrutínio sobre viagens internacionais e o trânsito de autoridades em eventos patrocinados por corporações privadas ganhou prioridade no debate institucional.
Enquanto os ministros avaliam os impactos das revelações sobre a imagem da Corte, novos trechos de conversas continuam a vir a público, ampliando a pressão por transparência. A relação de familiares de magistrados com investigados também passou a integrar o escopo das análises conduzidas pelos órgãos competentes.
A continuidade das diligências deve esclarecer se houve violação de normas éticas ou se os patrocínios corporativos configuram repasses ilegais para beneficiar agentes públicos em agendas oficiais no exterior.


