O diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente do Senado Federal, Marcus Pestana, avaliou que a informação divulgada pela equipe econômica sobre uma suposta folga nas despesas com a Previdência é contraditória com o anúncio de que a fila de espera do INSS foi zerada, patamar que havia superado 3 milhões de pedidos em fevereiro.
Segundo a avaliação do dirigente, o cenário fiscal brasileiro continua exigindo cautela, independentemente de ajustes pontuais no orçamento divulgados recentemente pelo governo federal. A discussão ocorre após o Ministério do Planejamento e Orçamento identificar um espaço fiscal de R$ 19,6 bilhões no orçamento, o que abriu margem para o reajuste no programa Bolsa Família.
A IFI estima que o superávit primário necessário para estabilizar a dívida pública e criar o ambiente para a queda dos juros teria que ser de 2% do PIB, o equivalente a cerca de R$ 260 bilhões. Para a instituição, o resultado efetivo ainda permanece distante desse patamar necessário.
Governo aponta queda nas despesas
De acordo com o governo federal, a queda mais substancial nas projeções de gastos ocorreu justamente nos benefícios previdenciários, com redução de R$ 11,5 bilhões na projeção de crescimento. Também foram registrados recuos nos repasses para o Benefício de Prestação Continuada, despesas de pessoal e subsídios.
O Ministério do Planejamento destacou que a receita ligada ao setor petrolífero, em meio ao conflito no Irã, também ajudou a criar um espaço adicional no caixa. A equipe da IFI reforça que o país permanece preso a dinâmicas de curto prazo e descontos na apuração de metas.
O relatório oficial de avaliação de receitas e despesas primárias, com os dados consolidados da execução orçamentária, deve ser divulgado ainda esta semana pelo governo federal para detalhar a situação das contas públicas.
Analistas questionam critérios da fila
O Ministério da Previdência Social tem sustentado que a fila de espera está controlada com base em dois indicadores principais: o tempo médio de concessão, que ficou em 34 dias em agosto, e o equilíbrio entre a capacidade operacional de análise e o volume de entrada de novos pedidos.
Temos que aguardar o relatório de avaliação de receitas e despesas primárias que sai esta semana.”
Marcus Pestana
Apesar da melhora administrativa na gestão dos processos, analistas do setor questionam a eficácia real da medida e alertam para o crescimento expressivo no volume de pedidos indeferidos nos últimos meses. O aumento nas negativas de benefícios pode fazer com que a pressão sobre o sistema retorne em breve.
A gestão da pasta passou por mudanças recentes após a saída do ex-ministro Carlos Lupi, mas o fluxo de novas solicitações continua sendo monitorado de perto por especialistas em contas públicas.
Especialistas criticam dados oficiais
Para os especialistas que acompanham a execução orçamentária, o anúncio de que a fila foi extinta não reflete a totalidade da demanda reprimida que ainda bate à porta do sistema previdenciário. O volume de contestações administrativas tende a crescer caso o rigor nos indeferimentos continue gerando novos recursos.
A apuração da IFI reforça que medidas isoladas de contenção de despesas não substituem uma reforma estrutural capaz de garantir o equilíbrio fiscal a médio e longo prazo. O debate sobre a sustentabilidade das contas públicas segue no centro das negociações em Brasília.
Enquanto o governo defende a eficácia de sua gestão administrativa, órgãos de controle e consultorias independentes cobram maior transparência na consolidação das estatísticas oficiais apresentadas ao Congresso Nacional.
Mercado aguarda novo relatório
O mercado financeiro e os analistas econômicos aguardam a publicação do relatório bimestral de receitas e despesas para mensurar o impacto real das medidas anunciadas pela equipe econômica. A verificação dos números servirá para calibrar as projeções de inflação e juros para o encerramento do exercício.
As discussões em torno do cumprimento do arcabouço fiscal dependem diretamente da consistência entre a arrecadação projetada e o controle efetivo dos gastos obrigatórios, como previdência e assistência social.
A expectativa é que o debate sobre a qualidade do gasto público ganhe ainda mais tração com a divulgação dos próximos indicadores oficiais pelo Ministério da Fazenda e pelo Planejamento.


