A crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF) voltou a se intensificar e deve se prolongar sem uma solução consensual no curto prazo, conforme a avaliação reservada de integrantes da própria Corte. O clima de desentendimento interno se aprofundou após o início do julgamento sobre a possível abertura de apuração em relação ao ministro Alexandre de Moraes, decorrente de dados extraídos da investigação do chamado Caso Master.
O desdobramento recente das divergências já começa a afetar a rotina de trabalhos e os planos institucionais do tribunal. A proposta de elaboração de um Código de Ética para os ministros do STF corre o risco de ser congelada diante das resistências geradas pelo racha interno.
A crise ultrapassou as discussões jurídicas nos plenários e passou a atingir os relacionamentos pessoais no tribunal. Em meio aos debates sobre o relatório da Polícia Federal, o ministro Kassio Nunes Marques chegou a bloquear o número telefônico do ministro Gilmar Mendes após um atrito entre ambos.
Pedido de vista interrompe julgamento no plenário
O plenário do Supremo realizou uma sessão extraordinária no dia 15 de setembro de 2026 para analisar o relatório elaborado pela Polícia Federal. O documento reuniu registros de trocas de mensagens entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao extinto Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes.
A análise do mérito, no entanto, acabou interrompida antes de uma definição final. O julgamento foi suspenso após o ministro Flávio Dino apresentar um pedido de vista, o que concede a ele o prazo regimental de até 90 dias para devolver o processo ao plenário do STF.
Antes da interrupção solicitada por Dino, o plenário chegou a formar maioria de 4 votos a 3 em um ponto preliminar. O colegiado definiu que as análises sobre a conduta de Alexandre de Moraes e sobre a atuação do ministro André Mendonça devem correr de forma separada na Corte.
Disputa sobre o sigilo acirra ânimos entre ministros
A tensão entre os magistrados ganhou força após o ministro André Mendonça, relator inicial das apurações do Caso Master, retirar o sigilo de relatórios produzidos pela Polícia Federal. Os documentos revelaram 52 mensagens trocadas entre o banqueiro e Alexandre de Moraes, além de registros de reuniões presenciais.
O relatório também apontou a existência de um contrato de R$ 130 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. A divulgação dos dados provocou contestação pública por parte de Moraes, que acusou o relator de realizar uma liberação seletiva de informações.
Em resposta às acusações, André Mendonça afirmou que manteve sob sigilo apenas os trechos estritamente necessários para proteger apurações em andamento e dados relativos a terceiros. O conflito levou o presidente da Corte, Edson Fachin, a separar as apurações para amenizar a crise.
Paralelamente, os ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes solicitaram acesso integral às mídias digitais apreendidas com Daniel Vorcaro. A Polícia Federal confirmou ter entregue cópias do acervo aos gabinetes após determinação de Zanin, medida que contou com o aval da Procuradoria-Geral da República.
Presidente do STF separa processos para conter desgaste
Diante do impasse direto entre os integrantes do tribunal, a presidência do STF definiu um cronograma específico para tramitação das petições e questionamentos cruzados apresentados pelos ministros envolvidos.
A parte do processo focada nas mensagens e contatos entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes ficou designada para julgamento direto no plenário da Corte, cuja análise inicial foi aberta antes da vista de Flávio Dino.
Por outro lado, as representações e acusações formalizadas por Moraes em relação à conduta do ministro André Mendonça na relatoria do processo tiveram julgamento agendado para o dia 23 de setembro de 2026.
Dúvida sobre impedimento afeta forças na Segunda Turma
A crise institucional também levanta incertezas sobre a composição e os votos da Segunda Turma do STF quando as apurações do Caso Master retornarem ao colegiado. O relator André Mendonça tem contado com os posicionamentos dos ministros Kassio Nunes Marques e Luiz Fux para sustentar as principais decisões da apuração no grupo.
Contudo, Nunes Marques declarou impedimento no julgamento relacionado a Alexandre de Moraes após a divulgação de mensagens que citavam seu filho. Tanto o ministro quanto o familiar negam qualquer irregularidade no episódio.
Sendo também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques sinalizou a interlocutores que a declaração de impedimento restringia-se aos debates com potenciais desdobramentos eleitorais do caso. Com isso, remanesce a dúvida sobre sua participação em futuras votações do processo na Segunda Turma.


