A Polícia Federal registrou suspeita de que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro tenha tentado influenciar o voto do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), em um julgamento sobre precatórios do setor sucroalcooleiro. As informações constam de relatório sobre o caso Banco Master, revelado pela revista Piauí em reportagem publicada na quinta-feira (10).
O documento analisou mensagens encontradas no celular de Vorcaro e relacionou o interesse do empresário a uma ação da destilaria Alcídia, do grupo Atvos, contra a União. O resultado poderia afetar uma carteira superior a R$ 10 bilhões em precatórios registrada no balanço do Banco Master.
PF relaciona mensagens ao julgamento
Segundo o relato atribuído à PF, gestores do Banco Master demonstraram preocupação dias antes da análise do caso Alcídia no STF. Toffoli havia votado, em ação semelhante, a favor da União, apesar de o relatório apontar um histórico de decisões do ministro favoráveis a usinas em processos desse tipo.
Em conversa com o diretor jurídico do banco, André Kruschewsky, Vorcaro indicou que acompanhava o processo de perto e que atuava sobre o assunto. A troca de mensagens foi considerada relevante pela Polícia Federal na apuração.
Kruschewsky também teria se oferecido para ajudar a retirar o caso da pauta de julgamento. Na avaliação registrada pela PF, a conversa indicava que o diretor jurídico aparentava ter acesso ao STF, inclusive para buscar a retirada do processo.
Caso Alcídia afeta carteira de precatórios
O STF examinou a cobrança de indenização feita pela destilaria Alcídia à União por prejuízos atribuídos à década de 1980. A empresa integra o grupo Atvos, e a tese discutida no processo tinha potencial impacto sobre os ativos em precatórios do Banco Master.
O primeiro julgamento foi adiado após pedido de vista do ministro Nunes Marques. Posteriormente, o caso voltou à pauta em outubro de 2024.
Na retomada, Toffoli votou a favor da Alcídia. A posição vencedora recebeu três votos, contra dois, e integrantes do Banco Master comemoraram o resultado, conforme o relatório citado na reportagem.
Toffoli nega mudança de posição
Após a decisão favorável à destilaria, um operador do Banco Master informou Vorcaro sobre o desfecho do caso, segundo a PF. O ex-banqueiro respondeu com um emoji de aprovação, de acordo com o relato.
O gabinete de Dias Toffoli disse à revista Piauí que não houve qualquer alteração de voto do ministro. A negativa responde à suspeita levantada a partir das mensagens analisadas pela Polícia Federal.
A PF afirmou que as conversas anteriores ao julgamento tinham especial relevância para a apuração. Ao mesmo tempo, o relatório classificou o tema como dependente de aprofundamento analítico e sem conclusões definitivas naquele momento.
Relatoria do caso mudou no STF
O relatório foi produzido com base em dados obtidos no celular de Vorcaro quando ocorreu sua primeira prisão, em novembro do ano passado. O documento também menciona contatos diretos e indiretos entre o empresário e Toffoli.
As informações foram encaminhadas havia cerca de sete meses ao presidente do STF, Edson Fachin, para as providências cabíveis. A Polícia Federal também pediu a suspeição de Toffoli, que então era relator do caso Banco Master.
Depois de críticas à sua atuação, Toffoli deixou a relatoria. Com isso, o pedido de suspeição perdeu objeto e foi arquivado; em fevereiro, o ministro André Mendonça assumiu a condução do caso. Na quinta-feira (10), Mendonça retirou o sigilo de parte das investigações, mas o relatório que citava Toffoli não foi incluído por já estar arquivado.
Entre as frentes de apuração mencionadas está a venda da participação de Toffoli no resort Tayaya. O ministro é sócio da Maridt Participações S.A., empresa que vendeu essa participação ao Fundo Arllen, ligado a Vorcaro. A revista Piauí também informou haver suspeitas sobre um fundo que recebeu R$ 35 milhões repassados por Vorcaro; Toffoli nega ter recebido valores do ex-banqueiro.


