Um relatório da Polícia Federal citado pela revista Piauí aponta elementos que, na avaliação dos investigadores, indicariam a possibilidade de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli ter sido beneficiário final ou proprietário de fato do Fundo de Investimento em Participações (FIP) Arleen. O documento relaciona o fundo ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no Paraná.
Segundo a reportagem, o relatório foi encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin, no contexto das investigações sobre o Banco Master. A PF afirma que a apuração sobre eventual influência em decisão judicial ainda exigia aprofundamento e que os elementos reunidos não permitiam conclusões definitivas.
PF associa Toffoli ao Fundo Arleen
De acordo com o relatório, o Fundo Arleen recebeu ao menos R$ 35 milhões de Vorcaro. Os investigadores analisaram a estrutura do fundo e apontaram a hipótese de que Toffoli poderia ser seu beneficiário final ou proprietário de fato, a partir de elementos avaliados em conjunto.
O Arleen era sócio do Tayayá, resort vinculado a Toffoli e a familiares do ministro em Ribeirão Claro. A PF identificou que o fundo pertencia a Vorcaro e que, em fevereiro de 2025, passou para o empresário Alberto Leite, dono da FS Security e descrito como amigo de Toffoli.
Leite declarou anteriormente à Folha de S.Paulo que a compra do Arleen foi uma operação imobiliária regular e lucrativa feita por seu braço de investimentos. Na ocasião, ele também negou vínculo societário, comercial ou favorecimento envolvendo Toffoli.
Recursos seguem para empresa no exterior
Conforme o documento policial, no mês seguinte à aquisição do Arleen por Leite, foi registrada nas Ilhas Virgens Britânicas a empresa Egide I. O regulamento do fundo também mudou para autorizar investimentos no exterior.
Em novembro, o Arleen começou a vender suas cotas. No mês seguinte, transferiu aproximadamente R$ 34 milhões para a empresa estrangeira, segundo a PF. Para os investigadores, a liquidação do fundo levou à transferência de todo o seu ativo para a Egide I Holding.
A PF citou a hipótese de uso de interpostas pessoas e de estruturas no exterior nas movimentações examinadas. As Ilhas Virgens Britânicas são descritas no relatório como território conhecido por operar como paraíso fiscal no Caribe.
Mensagens tratam de pagamentos e da venda
O relatório também registra que Vorcaro acompanhava pagamentos destinados ao Arleen. Em agosto de 2024, segundo os investigadores, ele demonstrou preocupação com atrasos nas transferências e procurou pessoas próximas, entre elas o cunhado Fabiano Zettel e o ex-ministro Fábio Faria.
Ainda segundo a PF, Vorcaro enviou uma mensagem diretamente a Toffoli para justificar o atraso dos pagamentos. O conteúdo analisado integra o conjunto de indícios descrito pelos investigadores sobre a relação entre o banqueiro, o fundo e pessoas ligadas ao ministro.
Em novembro de 2025, após uma decisão no caso da usina Alcídia, Vorcaro discutiu sua saída do Tayayá e o desligamento do Arleen. Nas conversas com Zettel, ele informou que o fundo deveria ser transferido a uma pessoa identificada apenas pelo primeiro nome Alberto; para a PF, a referência era a Alberto Leite.
Leite aparece em outros pontos do relatório. Um plano de negócios encontrado no celular de Vorcaro, datado de abril de 2024, listava Leite, Fábio Faria e o próprio Vorcaro como diretores da Skylink, empresa criada para representar a Starlink, de Elon Musk, no Brasil.
PF examina julgamento sobre precatórios
A PF também levantou a hipótese de que Vorcaro possa ter tentado influenciar uma decisão de Toffoli no processo da destilaria Alcídia, do grupo Atvos. A empresa buscava reparação da União por prejuízos da década de 1980, e uma decisão favorável poderia afetar a carteira de precatórios do setor mantida pelo Banco Master.
Segundo o relatório, essa carteira ultrapassava R$ 10 bilhões. Antes do julgamento, o diretor jurídico do Master, André Kruschewsky, escreveu a Vorcaro que a definição poderia servir de referência para casos do banco.
Os investigadores registraram que Toffoli tinha histórico de posições favoráveis às usinas em ações sobre os precatórios. Dias antes do julgamento da Alcídia, porém, ele teria votado em sentido favorável à União em outro processo semelhante, o que gerou preocupação entre pessoas próximas a Vorcaro.
O julgamento ocorreu em outubro de 2024. Toffoli votou a favor da Alcídia, e a tese da usina venceu por 3 votos a 2. O gabinete do ministro negou à Piauí qualquer alteração de voto. Para a PF, mensagens trocadas às vésperas da sessão mereciam análise por estarem ligadas a conversas sobre acompanhar e agir em relação ao processo.
Relatoria deixa caso Master
O relatório cita ao menos 12 registros de encontros presenciais entre Toffoli e Vorcaro em situações que a PF classificou como não estritamente profissionais. Os investigadores também apontaram mensagens que, em sua avaliação, indicariam vínculo pessoal entre os dois.
A apuração registrou ainda a relação profissional entre Vorcaro e Roberta Rangel, então esposa de Toffoli. Segundo a PF, ela atuou como advogada do banqueiro entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025.
Dez meses após o último registro dessa relação profissional identificado pelos investigadores, um sorteio designou Toffoli como relator do caso Master no STF. Posteriormente, o ministro deixou a relatoria. Com isso, o pedido de suspeição apresentado pela PF perdeu objeto, e o relatório encaminhado à Corte foi arquivado.
Em fevereiro, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria do caso Master. Na noite de quinta-feira (10), ele retirou o sigilo de parte das investigações, mas a medida não incluiu o relatório que mencionava Toffoli, pois o documento já havia sido arquivado.


