A Polícia Federal apura uma suposta campanha de influenciadores contra o Banco Central (BC), iniciada após a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada em novembro de 2025. O inquérito, sob relatoria do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF), investiga a possível contratação de perfis para questionar a decisão da autoridade monetária e defender o banqueiro Daniel Vorcaro.
Documentos tornados públicos após a retirada do sigilo dos autos apontam que a PF reuniu mensagens registradas em cartório, relatos de pessoas abordadas e depoimentos. Para os investigadores, a iniciativa, chamada de “Projeto DV”, teria buscado influenciar o debate público num período de disputas sobre a liquidação do banco.
PF abre inquérito sobre campanha contra o Banco Central
A PF instaurou o inquérito em 28 de janeiro de 2026. Na portaria, a delegada responsável registrou a suspeita de que Vorcaro teria contratado uma empresa de marketing para promover propaganda negativa ou difamação do Banco Central perante a sociedade.
Segundo a corporação, a estratégia sob apuração poderia buscar dificultar investigações e influenciar decisões em curso no STF e no Tribunal de Contas da União (TCU). A polícia mencionou, ainda, a possível prática de embaraço a investigação envolvendo organização criminosa.
O procedimento passou a tramitar como inquérito próprio no STF, sob a relatoria de Mendonça. No fim de março, o ministro prorrogou as investigações.
A apuração também apareceu no pedido que resultou em nova prisão de Vorcaro, em março. Na representação, a PF sustentou que o banqueiro continuaria a usar o ambiente digital para influenciar e atacar instituições públicas, mesmo depois de preso.
Contatos começaram após saída de Vorcaro da prisão
Em pedido encaminhado ao STF em fevereiro, a PF afirmou que as contratações teriam começado em dezembro de 2025. O período veio poucas semanas após a liquidação do Banco Master e depois de Vorcaro deixar a prisão pela primeira vez, no fim de novembro, por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
Para os investigadores, o momento das abordagens é central. A PF afirmou que os contatos ocorreram enquanto o TCU emitia sinais de que poderia desfazer a liquidação extrajudicial do banco.
A corporação atribuiu à suposta estratégia a intenção de desgastar a imagem do Banco Central. Dessa forma, as postagens sob investigação não são tratadas pela PF apenas como manifestações isoladas nas redes sociais.
Relatos divulgados por Rony Gabriel, vereador de Erechim (RS), e pela jornalista Juliana Moreira Leite no início de janeiro levaram a polícia a reunir dados sobre as abordagens. Ambos disseram que recusaram as propostas recebidas.
Varredura identifica perfis que criticaram o BC
Um relatório preliminar concluído em 12 de janeiro compilou relatos que circulavam publicamente sobre a oferta de trabalho a influenciadores. No dia seguinte, a área de contrainteligência da PF realizou uma varredura descrita no documento como parcial e não exaustiva.
Nessa busca, os investigadores localizaram 22 perfis no Instagram que publicaram críticas ao Banco Central no fim de dezembro. Alguns deles reuniam mais de 20 milhões de seguidores.
Segundo a PF, grande parte das publicações já havia sido apagada quando a análise ocorreu. A investigação passou, então, a examinar os vínculos entre os conteúdos, as abordagens relatadas e a defesa da posição de Vorcaro.
Os documentos apontam que a polícia preservou informações e procurou reconstituir a sequência dos contatos. A retirada do sigilo dos autos permitiu a divulgação dos elementos reunidos no inquérito.
Contrato previa sigilo e multa de R$ 800 mil
Rony Gabriel prestou depoimento como testemunha em 12 de fevereiro. Ele disse à PF que recebeu uma proposta em 20 de dezembro de 2025, encaminhada por um assessor, para um trabalho de gerenciamento de reputação e gestão de crise de um grande executivo.
De acordo com o vereador, detalhes adicionais dependeriam da assinatura de um acordo de confidencialidade. O documento anexado ao inquérito menciona o “PROJETO DV”, restringe manifestações públicas sobre o trabalho sem autorização e prevê multa de R$ 800 mil por violação de sigilo.
Após assinar o termo, Rony participou de uma videochamada em 29 de dezembro. Segundo seu relato, foi nesse encontro que o nome de Daniel Vorcaro surgiu pela primeira vez.
O vereador afirmou que não houve definição de valores na conversa. Ainda assim, ele relatou aos investigadores que entendeu que a contratação envolveria quantias milionárias.
Relato descreve roteiro e viagem a São Paulo
Segundo Rony Gabriel, a orientação recebida era divulgar a avaliação de que o Banco Central havia errado e de que o TCU deveria intervir. Ao pedir exemplos do conteúdo esperado, ele recebeu links de postagens de outros perfis.
Os materiais seriam referências para a produção das manifestações, conforme o depoimento. O vereador afirmou que havia um roteiro, embora cada contratado pudesse adaptar a mensagem ao próprio estilo.
A proposta também incluía custear uma viagem a São Paulo para um encontro presencial com o interessado. Rony disse que recusou a oferta no mesmo dia.
Depois, ele decidiu tornar o episódio público ao identificar semelhanças entre a narrativa apresentada na abordagem e os questionamentos que passaram a surgir no TCU sobre a liquidação do Banco Master.
Depoimentos levam investigação até agência de publicidade
Juliana Moreira Leite relatou que recebeu contato em 21 de dezembro pelo Instagram, feito por um homem que se apresentou como representante de uma agência. Em áudios preservados em cartório, ele mencionava um cliente interessado na divulgação de materiais de âmbito político e financeiro.
A proposta previa contrato de ao menos três meses e oito vídeos mensais, também condicionados à assinatura de um termo de confidencialidade. A jornalista encerrou a conversa após receber como referência um texto que questionava a liquidação do Banco Master.
Ela ressaltou à PF que não poderia afirmar que a oferta partira de Vorcaro, pois recusou o trabalho antes de saber quem seria o cliente. Paralelamente, os investigadores buscaram ouvir o publicitário Thiago Miranda, proprietário da agência MiThi.
Em maio, Miranda confirmou à PF que contratou influenciadores e apresentou o plano a Vorcaro, segundo os autos. Dois meses depois, ele foi alvo de busca e apreensão em nova fase da Operação Compliance Zero. Em nota divulgada em julho, sua defesa afirmou que ele sempre atuou dentro da legalidade e não cometeu crimes; a defesa de Vorcaro havia optado por não se manifestar sobre o inquérito.


