As doenças ligadas ao 11 de Setembro continuam afetando socorristas, moradores, trabalhadores e estudantes expostos à poeira e a outras toxinas na área do World Trade Center, em Nova York. Vinte e cinco anos depois dos atentados, cerca de 150 mil pessoas recebem tratamento e acompanhamento pelo Programa de Saúde do World Trade Center, segundo o CDC.
Os ataques de 11 de setembro de 2001 mataram quase 3 mil pessoas em Nova York, Washington e Shanksville, na Pensilvânia. Desde então, cânceres, doenças respiratórias e outros problemas de saúde passaram a integrar as consequências de longo prazo para quem atuou na recuperação ou viveu e trabalhou próximo ao Ground Zero.
Ataques deixaram exposição duradoura
O CDC estima que quase 400 mil pessoas tenham sido expostas a toxinas liberadas no dia dos ataques e durante a etapa de recuperação e limpeza dos escombros. Esse grupo abrange profissionais mobilizados no local e pessoas que frequentavam ou viviam nos arredores.
Entre os expostos estavam bombeiros, paramédicos, policiais, equipes de limpeza e trabalhadores de serviços públicos. Ao mesmo tempo, a contaminação alcançou sobreviventes que não participaram diretamente das operações, mas mantinham rotina na região sul de Manhattan.
A certificação de uma doença como relacionada ao 11 de Setembro exige comprovar determinado período de exposição e apresentar sintomas ou diagnósticos previstos pelo programa. As condições reconhecidas incluem diferentes tipos de câncer e problemas respiratórios.
Poeira alimentou alerta sobre riscos
Michael Crane, diretor médico do Programa de Saúde do World Trade Center no Mount Sinai, trabalhou no Ground Zero em setembro de 2001 com a empresa de serviços públicos Con Edison. Segundo ele, a poeira continha material em combustão e gerava um odor intenso.
Crane relatou que os filtros de respiradores usados pelas equipes ficavam obstruídos rapidamente nos primeiros dias de trabalho nos escombros. Ainda assim, a urgência das buscas fez com que muitos profissionais continuassem as atividades.
Naquele período, autoridades municipais e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, afirmavam que o ar era seguro. No entanto, ambientalistas e outros especialistas contestavam essa avaliação e apontavam riscos à saúde.
Controvérsia cercou a qualidade do ar
Posteriormente, o inspetor-geral apontou que a declaração da EPA sobre a segurança do ar, divulgada uma semana após os ataques, ocorreu antes de a agência ter todos os dados sobre diversas toxinas. O órgão também sofreu influência da Casa Branca para emitir mensagens tranquilizadoras, segundo essa apuração.
Meus filhos continuarão sendo afetados por isso, porque precisam ver o pai sofrer duas vezes por causa disso.”
Gail Matos, esposa de Conrad Matos
A discussão permanece aberta entre sobreviventes e ativistas. Nesta semana, a cidade de Nova York lançou um portal com registros inéditos sobre a qualidade do ar e os riscos à saúde depois do 11 de Setembro.
A iniciativa atende a uma demanda antiga por transparência sobre as condições enfrentadas no Ground Zero e em seu entorno. Dessa forma, os documentos passam a integrar o debate sobre informação pública, prevenção e assistência às pessoas expostas.
Programa acompanha milhares de pacientes
Do total de cerca de 150 mil inscritos no Programa de Saúde do World Trade Center, aproximadamente dois terços são profissionais que trabalharam no local. Os demais são sobreviventes, categoria que reúne, entre outros, moradores e trabalhadores da área afetada.
O programa monitora doenças e oferece acompanhamento médico aos participantes. Segundo informação do CDC repassada à Reuters, mais de 9 mil inscritos já morreram, embora a agência não tenha confirmado que todas essas mortes decorreram de enfermidades relacionadas aos ataques.
Não há uma lista oficial consolidada de mortes atribuídas às doenças ligadas ao 11 de Setembro, segundo a Reuters. Já o Museu e Memorial Nacional do 11 de Setembro estima que esse número esteja na casa dos milhares.
Tratamento busca reduzir impactos
Conrad Matos, tenente e paramédico do Corpo de Bombeiros de Nova York, trabalhou por seis meses no Ground Zero. Depois de quase três décadas no FDNY, ele se aposentou após receber, em 2021, um diagnóstico de câncer que foi relacionado à sua atuação na área.
Matos passou por cirurgia cerebral e quimioterapia e acreditou ter superado a doença. Neste ano, porém, o câncer retornou, e sua esposa, Gail Matos, enfermeira, passou a ajudá-lo em praticamente todas as tarefas.
Crane afirmou que percebe, no Mount Sinai, sinais de que as intervenções médicas ajudam os pacientes. Dados divulgados pelo FDNY neste mês também apontam redução de sintomas, maior sobrevida e mortalidade abaixo da prevista entre integrantes de seu programa de saúde, embora fatores como envelhecimento também precisem ser considerados.
Famílias enfrentam efeitos prolongados
O impacto das doenças não se limita aos pacientes. Famílias, amigos e cuidadores também convivem com a perda de autonomia, os tratamentos e a insegurança provocada por diagnósticos que podem surgir anos depois da exposição.
No caso de Matos, o retorno do câncer alterou novamente a rotina familiar. Gail relacionou o sofrimento do marido às marcas emocionais que a situação deixa nos filhos do casal.
Para os participantes do programa e seus familiares, a resposta aos atentados continua além da memória do dia 11 de setembro de 2001. Ela envolve vigilância médica contínua, acesso a tratamento e o reconhecimento dos efeitos de longo prazo da exposição no Ground Zero.


