O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, deve participar nesta sexta-feira (11) da cerimônia que marca os 25 anos dos ataques de 11 de setembro, no Marco Zero. A presença do primeiro prefeito muçulmano da cidade provocou críticas de adversários republicanos, que pedem que ele mantenha distância do evento.
Rudy Giuliani, prefeito de Nova York na época dos atentados, afirmou que se sente ofendido com a participação de Mamdani. George Pataki, governador do estado em 2001, também disse que o atual prefeito não deveria comparecer. Bruce Blakeman, candidato a governador, declarou que viraria as costas caso Mamdani estivesse presente.
Adversários criticam a presença de Mamdani
A pressão aumentou depois que uma petição pediu o cancelamento do convite ao prefeito. O documento foi lançado por Cheri Sparacio, cujo marido, Tom Sparacio, morreu nos ataques enquanto trabalhava no 84º andar da Torre Sul do World Trade Center.
Segundo a organizadora, o pedido pretende preservar o foco do aniversário na memória das vítimas, na união e na rejeição à violência e ao extremismo. A petição foi entregue na Prefeitura na terça-feira (8), com mais de 100 mil assinaturas, de acordo com o material divulgado.
Sparacio afirmou que sua oposição não está relacionada à religião ou à origem de Mamdani, mas às posições políticas que ele defende atualmente. Ela citou a associação do prefeito com Hasan Piker, streamer e ativista de esquerda que já afirmou que os Estados Unidos “mereceram o 11 de Setembro”.
Piker posteriormente classificou a declaração como inadequada e disse que tentava apresentar uma avaliação mais complexa da política externa americana. Mamdani, por sua vez, chamou os comentários de inaceitáveis e condenáveis.
Mamdani mantém compromisso com a homenagem
Mamdani assumiu a Prefeitura de Nova York em janeiro e declarou que compareceria à cerimônia para homenagear as vítimas. Ele tinha 9 anos quando os ataques ocorreram e afirmou que o período posterior ao 11 de Setembro influenciou sua formação na cidade.
Nas semanas que antecederam o aniversário, o prefeito visitou quartéis de bombeiros que perderam integrantes nos atentados. Também participou da inauguração de homenagens às quase 3 mil pessoas mortas naquele dia e às milhares que desenvolveram doenças relacionadas ao desastre.
Além disso, Mamdani criou o primeiro “Dia de Memória e Serviço” oficial de Nova York. Durante uma ação voluntária, ele usou uma touca de proteção e ajudou a preparar refeições para moradores da cidade que enfrentavam insegurança alimentar.
Ao falar com jornalistas na segunda-feira (7), o prefeito disse que queria concentrar a semana nas famílias que perderam parentes no que classificou como o dia mais sombrio da história de Nova York.
Documentos reabrem debate sobre o ar tóxico
A cerimônia ocorrerá três dias depois de a administração de Mamdani divulgar mais de 170 mil documentos sobre a qualidade do ar após o desabamento das torres gêmeas.
O conjunto de documentos aborda decisões tomadas por autoridades desde a gestão de Giuliani, incluindo governos republicanos, democratas e independentes. A administração afirma que os registros mostram que o público foi enganado repetidamente sobre a segurança do ar respirado na região.
É possível obter grande repercussão ao politizar o terrorismo”
Scott Hibbard, professor associado e chefe do departamento de Ciência Política da Universidade DePaul
Durante o anúncio da primeira leva de arquivos, na terça-feira (8), Mamdani afirmou que pessoas adoeceram porque líderes em quem confiavam disseram que era seguro respirar o ar contaminado.
Apesar da crítica, o prefeito evitou mencionar autoridades específicas. Ele declarou que caberia ao público avaliar a responsabilidade de antigos governantes municipais, estaduais e federais.
Apoio muçulmano reage às críticas
A vereadora Shahana Hanif, primeira mulher muçulmana eleita para a Câmara Municipal de Nova York, criticou o tratamento dado ao prefeito. Para ela, a exigência de que Mamdani se afaste da cerimônia o diferencia por causa de sua religião.
Hanif também lembrou que muçulmanos de Nova York perderam familiares e socorristas nos ataques. Segundo a vereadora, a comunidade ainda convive com os efeitos da onda de islamofobia que se seguiu ao 11 de Setembro.
Ela relatou que algumas de suas primeiras lembranças de infância envolvem agressões contra integrantes de sua comunidade que trabalhavam como taxistas. Por isso, questionou a autoridade de Giuliani para dizer aos muçulmanos onde eles deveriam estar durante a homenagem.
O professor Scott Hibbard, da Universidade DePaul, avaliou que a retórica atual se aproxima da islamofobia registrada após os atentados. Segundo ele, politizar o terrorismo pode gerar grande repercussão, especialmente entre republicanos que enfrentam dificuldades antes das eleições de meio de mandato.
Autoridades confirmam participação no evento
A cerimônia reunirá autoridades sob uma tenda instalada na praça do Marco Zero. Como ocorre há 25 anos, os nomes dos mortos serão lidos e os participantes observarão minutos de silêncio nos horários associados aos ataques.
O presidente Donald Trump não é esperado em Nova York para a solenidade. Já a presença do vice-presidente JD Vance foi confirmada.
Vance afirmou que Mamdani não demonstrou gratidão suficiente pelos Estados Unidos. A declaração ampliou o embate político em torno da participação do prefeito.
Alguns sobreviventes e familiares disseram anteriormente que poderiam deixar de comparecer ao evento deste ano. Ainda assim, políticos e representantes públicos estarão presentes na cerimônia.
Cerimônia expõe disputa sobre memória
O conflito transformou a participação de Mamdani em uma disputa sobre quem pode representar Nova York na principal cerimônia pública de memória do 11 de Setembro.
Para os críticos, o foco está nas posições políticas do prefeito e em sua relação com figuras da esquerda americana. Para seus apoiadores, entretanto, a tentativa de afastá-lo reproduz um padrão de exclusão dirigido a muçulmanos após os ataques.
Giuliani, que já foi celebrado como uma liderança unificadora depois dos atentados, tornou-se uma figura controversa para muitos muçulmanos da cidade. Eles o acusam de ter contribuído para o sentimento antimuçulmano que se consolidou naquele período.
Enquanto os nomes das vítimas forem lidos e os sinos marcarem os momentos de silêncio, a presença do prefeito deverá manter a disputa política no centro das atenções da cerimônia.


