A CIA divulgou em 11 de setembro de 2026 mais de 100 páginas de relatórios diários de inteligência presidencial entregues aos governos de Bill Clinton e George W. Bush antes e depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Os documentos detalham alertas sucessivos sobre a Al-Qaeda e Osama bin Laden.
Os registros incluem um aviso enviado a Clinton em 10 de setembro de 1998, segundo o qual um grupo ligado a Bin Laden poderia lançar um avião carregado de explosivos contra uma cidade dos Estados Unidos. O material também menciona suspeitas sobre sequestros, ataques químicos, bombas nucleares e alvos dentro do país.
CIA revela alertas recebidos pela Casa Branca
Os relatórios agora divulgados apresentam uma sequência de informações sobre a ameaça representada por Bin Laden ao longo dos anos anteriores ao 11 de Setembro. Parte dos dados indicava que o líder da Al-Qaeda pretendia atacar os Estados Unidos ou interesses americanos no exterior.
Entre os fragmentos registrados aparecem referências a um possível ataque contra um shopping center em Washington, à busca por materiais para produzir armas nucleares e ao uso de armas químicas. Também há menção a um plano para sequestrar um cidadão americano, cujo nome foi omitido.
Os documentos não apontam que os governos tenham recebido uma descrição completa do atentado executado em 2001. No entanto, mostram que diferentes alertas sobre a organização terrorista chegaram à estrutura de inteligência e à Presidência em momentos distintos.
Relatório de 1998 antecipa ameaça com aviões
Um dos avisos mais antigos citados no material aparece no fim de um relatório presidencial entregue a Bill Clinton em 10 de setembro de 1998. O texto dizia que um grupo associado a Bin Laden poderia usar um avião carregado de explosivos contra uma cidade americana.
O ataque que ocorreu três anos depois teve outra configuração. Em 11 de setembro de 2001, integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais: dois atingiram o World Trade Center, em Nova York, e um atingiu o Pentágono, em Washington.
O quarto avião caiu em um campo na Pensilvânia depois que passageiros reagiram contra os sequestradores. O alvo previsto era o Capitólio dos Estados Unidos, conforme o material divulgado.
Aviso de agosto de 2001 reúne sinais de risco
Um relatório de 6 de agosto de 2001 recebeu a manchete “Bin Laden Determinado a Atacar nos EUA”. O documento afirmava que integrantes da Al-Qaeda haviam morado ou viajado para os Estados Unidos durante anos.
O texto também indicava que a organização aparentemente mantinha uma estrutura de apoio capaz de facilitar ataques no país. Além disso, citava informações do FBI sobre padrões de atividade suspeita compatíveis com preparativos para sequestros de aeronaves ou outros atentados.
Mesmo que um setor da agência esteja alertando insistentemente sobre uma ameaça, ela continua sendo uma organização muito grande”
Jeffrey Rogg, historiador da comunidade de inteligência da Universidade do Texas em Austin
Entre os sinais mencionados estava a vigilância recente de prédios federais em Nova York. O relatório registrava ainda a existência de 70 investigações completas nos Estados Unidos relacionadas a Bin Laden.
Ao mesmo tempo, o documento reconhecia que alguns relatos considerados mais sensacionalistas não haviam sido confirmados. Entre eles estavam informações de 1998 segundo as quais Bin Laden desejaria sequestrar uma aeronave americana.
Falhas de inteligência limitaram a resposta
A divulgação não muda fundamentalmente a interpretação dos historiadores sobre o que o governo americano sabia antes dos ataques. Ela, porém, oferece um conjunto mais amplo de registros internos produzidos para os presidentes.
Um relatório da Comissão Nacional sobre os Ataques Terroristas aos Estados Unidos, publicado em 2004, concluiu que a comunidade de inteligência havia alertado duas administrações sucessivas sobre a Al-Qaeda. Ainda assim, não conseguiu prever ou comunicar adequadamente a dimensão e a urgência da ameaça.
A comissão também apontou que a estrutura compartimentada das agências dificultava a combinação de informações. Dessa forma, analistas de diferentes órgãos não conseguiram reunir sinais dispersos em uma avaliação capaz de orientar uma resposta proporcional ao risco.
CIA enfrentava mudança após fim da União Soviética
Os relatórios foram produzidos em um período de incerteza para a CIA. Com o fim da União Soviética, a principal referência estratégica da agência desapareceu, e o órgão ainda buscava definir como reorganizar suas prioridades.
Nesse ambiente, a unidade dedicada a acompanhar Bin Laden, conhecida como Alec Station, era pequena. A estrutura acompanhava uma ameaça crescente, mas tinha de atuar dentro de uma organização ampla e voltada a diferentes frentes de inteligência.
Jeffrey Rogg, historiador da comunidade de inteligência da Universidade do Texas em Austin, observou que um setor pode alertar repetidamente sobre uma ameaça sem que toda a organização consiga reagir com a mesma intensidade.
Documentos avançam até o dia seguinte aos ataques
A série divulgada pela CIA não termina antes do 11 de Setembro. O último documento tem data de 12 de setembro de 2001, às 4h da manhã, e registra informações obtidas depois dos ataques.
O relatório menciona um árabe radicado em Kandahar que afirmou que os atentados haviam resultado de dois anos de planejamento. Segundo o relato incluído no documento, os ataques seriam o “início da ira”.
Por isso, a publicação reúne registros de períodos diferentes: os primeiros alertas sobre a intenção de Bin Laden, o aviso de agosto de 2001 e as informações produzidas imediatamente após a destruição do World Trade Center, o ataque ao Pentágono e a queda do avião na Pensilvânia.
Os relatórios diários presidenciais estão entre os materiais mais sensíveis mantidos em sigilo pela CIA. A desclassificação permite acompanhar como a ameaça apareceu nos documentos oficiais e como informações fragmentadas circularam antes do atentado que matou milhares de pessoas nos Estados Unidos.


