UFRJ entrega diplomas póstumos a 23 estudantes mortos pela ditadura

Cerimônia realizada no Rio também homenageou dois professores vítimas da repressão e destacou memória, verdade e defesa da democracia

Da
Redação
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Cerimônia da UFRJ homenageou estudantes e professores mortos ou desaparecidos durante a ditadura militar.© Rovena Rosa/Agência Brasil
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A UFRJ entregou, em 9 de setembro de 2026, diplomas póstumos a 23 estudantes mortos ou desaparecidos durante a ditadura militar. A cerimônia ocorreu no Rio de Janeiro e também reconheceu dois professores ligados à universidade que foram vítimas da repressão.

Entre os homenageados estava Fernando Augusto da Fonseca, estudante de Economia levado para uma dependência do Exército no Recife há 53 anos. O filho dele, André Luiz Araújo da Fonseca, recebeu o diploma em nome do pai, cuja trajetória acadêmica foi interrompida pela perseguição política.

A UFRJ reconhece trajetórias interrompidas

Fernando deixou o Rio de Janeiro para fugir da repressão. Por causa da militância estudantil, havia sido expulso da UFRJ, abandonado o emprego e interrompido a vida que mantinha na capital.

Segundo o relato apresentado na cerimônia, ele permaneceu 20 dias sob tortura em uma instalação do Exército no Recife. Durante esse período, a mulher grávida e o filho de 3 anos ficaram presos em um hotel.

A família foi libertada depois do assassinato de Fernando e da entrega do corpo. Décadas mais tarde, o diploma póstumo reconheceu formalmente o vínculo do estudante com a universidade e sua graduação interrompida pelo autoritarismo.

O filho recebe o diploma em nome do pai

André Luiz Araújo da Fonseca, administrador de 56 anos, recebeu o documento durante a solenidade. Ele também é professor da UFRJ, instituição onde o pai havia estudado Economia.

Para André, a homenagem tem um peso especial porque recupera a identidade acadêmica de Fernando e conclui simbolicamente um projeto interrompido. A cerimônia, assim, aproximou a memória familiar da história institucional da universidade.

O diploma será colocado por André ao lado do próprio documento, segundo o relato feito por ele. A decisão transforma a homenagem pública em um registro permanente dentro da família.

A cerimônia defende memória e democracia

O reitor da UFRJ, Roberto de Andrade Medronho, apresentou a entrega dos diplomas como um compromisso da universidade com memória, verdade e justiça.

Em sua fala, Medronho relacionou o conhecimento do passado à defesa cotidiana da democracia. Para ele, lembrar a repressão ajuda a impedir que as violações sejam esquecidas.

O diploma encerra um ciclo, é como se ele estivesse atingindo aquele objetivo lá do passado.”

André Luiz Araújo da Fonseca, filho de Fernando Augusto da Fonseca

A cerimônia também reuniu referências ao papel de estudantes, professores e organizações universitárias na resistência à ditadura. O movimento estudantil apareceu como parte central da memória preservada pela instituição.

O movimento estudantil relembra a resistência

Franklin Martins, jornalista e presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFRJ em 1968, destacou a atuação de jovens e professores contra a repressão estatal.

Ele mencionou ataques de cavalaria, invasões de universidades, tiros e agressões como parte do ambiente enfrentado por aqueles grupos. A recordação desses episódios foi associada às lutas sociais do presente.

Martins também defendeu que outras universidades promovam iniciativas semelhantes. A expectativa apresentada por ele é que os nomes dos homenageados permaneçam associados à defesa da democracia em todo o país.

A universidade amplia a reparação às famílias

Malu Cerqueira, coordenadora-geral do DCE Mário Prata da UFRJ, afirmou que a diplomação tem dois sentidos: reparar as famílias dos desaparecidos e marcar uma posição política no presente.

Na avaliação dela, a universidade deve preservar a memória dos estudantes e professores que enfrentaram o regime autoritário. A fala também contrapôs essa lembrança à valorização de agentes da repressão.

O reconhecimento alcançou 23 estudantes. A lista inclui Adriano Fonseca Fernandes Filho, Ana Maria Nacinovic, Antônio de Pádua Costa, Antônio Teodoro de Castro, Antônio Sérgio de Matos, Arildo Airton Valadão, Áurea Eliza Pereira Valadão, Ciro Flávio Salazar e Oliveira, Fernando Augusto da Fonseca, Flávio Carvalho Molina, Frederico Eduardo Mayr, Guilherme Gomes Lund, Hélio Luiz Navarro, Jana Moroni Barroso, José Roberto Spigner, Kleber Lemos da Silva, Luiz Alberto Andrade de Sá e Benevides, Maria Célia Corrêa, Maria Regina Lobo Leite Figueiredo, Mário de Souza Prata, Paulo Costa Ribeiro Bastos, Solange Lourenço Gomes e Sonia Maria Lopes de Moraes.

A UFRJ mantém uma sequência de homenagens

Além dos estudantes, a solenidade reconheceu Lincoln Bicalho Roque, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, e Raul Amaro Nin, pesquisador da Faculdade de Engenharia.

Os dois já eram formados ou atuavam como docentes quando morreram. Por isso, receberam o reconhecimento de seus vínculos e legados institucionais, em uma homenagem diferente da diplomação dos estudantes.

A cerimônia deu continuidade a uma iniciativa iniciada em julho de 2026, quando a UFRJ entregou diploma póstumo a Stuart Angel Jones. O estudante de Economia foi torturado e assassinado pelo regime em 1971; o documento foi recebido por sua irmã, a jornalista Hildegard Angel.

O levantamento dos nomes foi realizado pela Comissão da Memória e da Verdade da UFRJ com base em relatórios oficiais do país. Dessa forma, a universidade relacionou a homenagem a um trabalho institucional de recuperação da memória da ditadura.

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