Apostas online elevam inadimplência e reduzem crédito, aponta estudo

Pesquisa da StoneCo Economic Research e do Insper indica aumento do risco financeiro após a primeira aposta e mostra relação de mão dupla com o endividamento

Da
Redação
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Estudo relaciona o início das apostas online ao aumento da inadimplência e à redução do crédito disponível.South_agency / Getty Images
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Apostas online aumentam o risco de inadimplência e reduzem a capacidade de acesso ao crédito, segundo estudo realizado por economistas da StoneCo Economic Research e do Insper. A pesquisa analisou clientes que começaram a apostar a partir de janeiro de 2025, quando entrou em vigor o novo regime de regulamentação das bets no Brasil.

Após a primeira transferência para uma plataforma de apostas, a probabilidade de inadimplência cresceu 19,7% em relação ao período anterior. Considerando apenas dívidas de cartão de crédito, a alta chegou a 38,7%. O estudo também identificou queda na liquidez das contas e no limite total de crédito concedido pelas instituições financeiras.

O estudo mede o impacto das apostas

Os pesquisadores cruzaram dados de transações de clientes de uma instituição financeira com informações do Sistema de Informações de Crédito (SCR), do Banco Central. Dessa forma, conseguiram acompanhar a evolução dos indicadores financeiros antes e depois do início das apostas.

A análise identificou o momento em que cada cliente fez a primeira transferência para uma plataforma. Em seguida, observou os fluxos de recursos enviados, os saldos das contas e o comportamento relacionado ao crédito.

Para reduzir diferenças entre os grupos, os economistas compararam novos apostadores com clientes que não apostaram, considerando características financeiras anteriores. Entre os critérios avaliados estavam volume de crédito, limite disponível, uso de linhas mais caras, número de operações e relacionamento com instituições financeiras.

A inadimplência cresce após a primeira aposta

O início das apostas foi associado a um aumento de 19,7% na probabilidade de inadimplência geral. No cartão de crédito, o avanço estimado foi maior, de 38,7%.

Os resultados indicam que o efeito não se limita ao atraso de pagamentos. A pesquisa também encontrou redução de pelo menos 43% na variação mensal do saldo em conta depois que o cliente começou a apostar.

Esse indicador sugere diminuição da liquidez disponível para o consumidor. Além disso, nos seis primeiros meses de apostas, 90,8% dos participantes analisados depositaram nas plataformas mais dinheiro do que retiraram.

O crédito disponível diminui

O limite total de crédito concedido pelo sistema financeiro caiu cerca de 16% depois do início das apostas. A redução foi 2,6 vezes maior entre pessoas que já tinham menor disponibilidade de crédito antes da primeira transferência.

As bets têm provocado um efeito deletério sobre o endividamento”

Rômullo Carvalho, economista-chefe da Stone

Segundo a interpretação dos autores, o início das apostas pode passar a ser considerado uma nova informação na avaliação de risco feita pelos credores. Assim, a reação não ocorre apenas no comportamento do consumidor.

As instituições financeiras também ajustam a oferta de crédito diante do risco percebido. Por isso, a queda do limite pode dificultar o acesso a recursos justamente para pessoas que já tinham menor margem financeira.

A dívida também estimula as apostas

O estudo identificou uma relação de mão dupla entre apostas e dificuldades financeiras. Parte dos consumidores já apresentava sinais de fragilidade antes de fazer a primeira aposta.

Em uma análise complementar, os pesquisadores observaram o que acontecia depois que uma pessoa entrava na inadimplência. A probabilidade acumulada de começar a apostar aumentou 2,6 pontos percentuais após esse evento.

Mesmo depois de descontar estatisticamente a fragilidade financeira anterior, os efeitos permaneceram. A estimativa de alta da inadimplência geral ficou em cerca de 14%, enquanto o aumento no cartão de crédito permaneceu próximo de 35%.

O endividamento forma um ciclo

Os resultados apontam para um ciclo de deterioração financeira. A dificuldade para pagar contas pode aumentar a propensão a apostar, enquanto os recursos enviados às plataformas reduzem o dinheiro disponível para despesas e dívidas.

Com o avanço da inadimplência, as instituições financeiras podem restringir limites e novas operações de crédito. Dessa forma, o consumidor enfrenta simultaneamente menor liquidez, mais atrasos e menor capacidade de financiamento.

O estudo não trata apenas da comparação entre quem aposta e quem não aposta. Ao acompanhar a mudança depois da primeira transferência e controlar características anteriores, os pesquisadores procuraram separar o efeito associado à entrada nas apostas da fragilidade que já existia.

O mercado brasileiro ganha escala

O fenômeno ocorre em um mercado que alcançou grande dimensão no país. Cerca de 25 milhões de pessoas apostaram em plataformas autorizadas em 2025, segundo dados citados no estudo.

Nas empresas autorizadas, a receita bruta dos jogos chegou a aproximadamente R$ 37 bilhões no mesmo ano. O valor corresponde à diferença entre o total apostado e o montante que retornou aos jogadores.

Para Rômullo Carvalho, economista-chefe da Stone, os resultados mostram efeitos negativos das bets sobre o endividamento. A pesquisa, portanto, relaciona a expansão das apostas online a mudanças simultâneas no comportamento financeiro dos consumidores e na avaliação de risco feita pelos credores.

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