Drones ampliam poder do crime organizado na América Latina

Relatórios e especialistas descrevem avanço do uso de aeronaves não tripuladas para vigilância, contrabando e ataques no Brasil, México e Colômbia.

Da
Redação
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Drones passaram a ser usados por grupos criminosos para vigilância, contrabando e ataques em países da América Latina.Divulgação/DJI
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Os drones ampliam as capacidades do crime organizado na América Latina, segundo dados reunidos pela organização ACLED e análises de especialistas ouvidos pela CNN. No Brasil, México e Colômbia, grupos criminosos usam esses equipamentos para vigiar territórios, transportar cargas, coordenar ações e, em alguns casos, lançar explosivos.

O fenômeno importa porque aparelhos comerciais, acessíveis no mercado, passaram a cumprir funções antes mais difíceis de executar à distância. Ao mesmo tempo, governos da região tentam reforçar a detecção e a defesa contra drones, enquanto organizações de direitos humanos alertam para os riscos à população civil em operações de segurança.

Dados mostram avanço dos drones armados

A ACLED registrou cerca de 670 incidentes com drones armados na América Latina desde 2018. Desse total, mais de 72% ocorreram entre 1º de janeiro de 2025 e 21 de agosto de 2026, de acordo com o relatório citado pela CNN.

Para Paddy Ginn, especialista sênior da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, os grupos deixaram a fase de testes pontuais. Eles passaram a aplicar os equipamentos em operações organizadas e que podem ser repetidas em diferentes áreas.

Ginn classifica os usos em cinco frentes: vigilância, logística, ataque, sinalização e coordenação. Assim, os drones podem ajudar criminosos a observar patrulhas, movimentar mercadorias, orientar integrantes em campo e atingir adversários ou agentes de segurança.

O especialista aponta Brasil, México e Colômbia como os países onde a mudança aparece de forma mais evidente. A Guatemala teria um uso emergente associado a conflitos transfronteiriços entre cartéis, enquanto a Venezuela apresenta indícios iniciais em apreensões e casos de posse.

Brasil levou drones dos presídios às operações

Os primeiros registros de uso criminoso de drones na região ocorreram sobretudo em presídios brasileiros. Casos de tentativas de levar itens proibidos por via aérea para unidades prisionais são relatados desde 2014.

Segundo a InSight Crime, os aparelhos substituíram métodos anteriores de comunicação e entrega, como o emprego de pombos. Armas, drogas, alimentos, bebidas, celulares e outros itens de contrabando passaram a ter uma rota aérea para entrar nas prisões.

Posteriormente, grupos criminosos também passaram a utilizar drones para observar deslocamentos policiais e lançar explosivos. A reportagem cita a Operação Contenção, nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, como um episódio em que uma bomba dirigida às forças de segurança foi vista caindo do céu.

A ação reuniu cerca de 2.500 policiais, soldados e atiradores de elite e colocou agentes contra redes ligadas ao Comando Vermelho. A operação deixou dezenas de mortos, conforme o relato, e evidenciou a presença dos drones em confrontos urbanos.

México registra ataques e vigilância territorial

No México, cartéis utilizam drones para ataques há pelo menos cinco ou seis anos, segundo Ginn. O especialista relata que os grupos monitoram patrulhas, lançam artefatos explosivos improvisados e apoiam operações ligadas ao contrabando de migrantes perto da fronteira com os Estados Unidos.

David Mora, analista sênior do Crisis Group especializado no México, afirma que houve aumento no emprego desses aparelhos no país. O uso vai de drones pequenos para vigilância a modelos maiores, com capacidade de transportar explosivos.

Sinaloa e Michoacán concentram muitos relatos, segundo Mora. Nessas áreas, os equipamentos aparecem principalmente em disputas entre grupos e na tentativa de impor controle territorial; em Tamaulipas, por outro lado, a vigilância teria maior peso por causa da localização fronteiriça.

A InSight Crime também apontou crescimento de operações com drones em Chihuahua e Guanajuato. A organização informou ainda que grupos mexicanos buscam conhecimento de ex-militares colombianos para aperfeiçoar o acoplamento de explosivos aos equipamentos.

Colômbia concentra registros na região

A Colômbia se tornou o principal foco regional da guerra com drones, de acordo com a ACLED. Dos 182 municípios latino-americanos nos quais a entidade registra eventos com drones armados, 97 ficam no país.

Cauca concentra boa parte dos casos, mas a disseminação também alcança Norte de Santander, Antioquia, Chocó, Nariño e Bolívar. A ACLED relaciona a maioria dos eventos a zonas rurais próximas de áreas de cultivo de coca ou de rotas do tráfico de drogas.

Grupos dissidentes das FARC adotaram o uso desses equipamentos, enquanto unidades guerrilheiras do ELN em Catatumbo empregam drones com sensores de imagem térmica para reforçar a vigilância, segundo a InSight Crime. Dessa forma, a tecnologia amplia a capacidade de acompanhamento contínuo das áreas disputadas.

A ACLED também relata ataques coordenados em enxame e voos sobre comunidades como instrumentos de intimidação psicológica. Além de pressionar moradores, essas ações podem enfraquecer a confiança nas forças de segurança estatais, segundo a organização.

Governos adotam defesa e monitoramento

As respostas governamentais combinam drones para inteligência, sistemas de defesa e cooperação internacional. No Rio de Janeiro, a Polícia Civil criou a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas, a COANT, para apoiar mapeamento em tempo real e monitoramento de operações.

No México, a Marinha e o Ministério da Defesa confirmaram à CNN aumento nas apreensões de drones no último ano. O secretário de Defesa Nacional mexicano, Ricardo Trevilla Trejo, informou em coletiva que o país implantou 165 sistemas de defesa contra drones na fronteira norte.

Os Estados Unidos também anunciaram o uso de um sistema a laser para derrubar três drones que teriam ligação com cartéis mexicanos perto da fronteira entre Texas e México. Antes disso, o embaixador americano Ronald D. Johnson havia divulgado um acordo para ampliar a capacidade mexicana de defesa e de aquisição de sistemas aéreos não tripulados.

Na Colômbia, o governo acertou com os Estados Unidos o empréstimo de três drones MQ-9A Reaper, segundo uma fonte do Ministério da Defesa colombiano ouvida pela CNN. Os equipamentos devem monitorar corredores do tráfico de drogas e podem ser usados em ataques de precisão, mediante autorizações.

Civis enfrentam riscos nas operações

O emprego de drones por forças de segurança também traz riscos para civis, sobretudo onde grupos armados atuam em meio à população. No Haiti, a Human Rights Watch contabilizou ao menos 1.243 mortos em ataques de drones realizados por forças de segurança, em 141 operações entre 1º de março de 2025 e 21 de janeiro de 2026.

Segundo a entidade, entre as vítimas estavam pelo menos 43 adultos que não integrariam grupos criminosos e 17 crianças. O Haiti enfrenta uma crise humanitária e de segurança, com gangues atuando inclusive em áreas da capital, Porto Príncipe.

Na Colômbia, um relatório de 2025 do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais afirmou que ataques com drones atingem desproporcionalmente a população civil. O estudo associou o medo e a confusão provocados por esse cenário ao deslocamento de mais de 54 mil pessoas de suas casas em Catatumbo.

Ginn defende que a reação não pode se limitar a uma solução técnica. Para o especialista, regulamentação, detecção, interdição, inteligência e cooperação precisam atuar juntas, pois a inovação criminosa costuma avançar mais rapidamente do que a adaptação regulatória.

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