Violência de gangues força milhares a deixar casas no Equador

Ameaças, extorsão e disputas por território impulsionam deslocamentos internos em Guayaquil e em outras regiões do país.

Da
Redação
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Ameaças e extorsão ligadas a gangues levam famílias a deixar bairros em diferentes regiões do Equador.Reprodução/Reuters
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A violência de gangues no Equador levou mais de 300 mil pessoas a deixar suas casas nos últimos três anos, segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e da Defensoria Pública. Famílias relatam ameaças de morte, extorsão, recrutamento de jovens por grupos criminosos e assassinatos de parentes como motivos para fugir.

O deslocamento atinge bairros de Guayaquil, a maior cidade costeira do país, e se estende a áreas próximas à fronteira com a Colômbia, à província de Los Ríos e à região amazônica. Enquanto isso, moradores que conseguem sair enfrentam dificuldades para receber assistência e recomeçar em outros bairros ou cidades.

Deslocamento cresce com a violência

Acnur e Defensoria Pública apontam que centenas de milhares de equatorianos deixaram seus lares em um período de três anos por causa da violência. Organizações de defesa dos direitos humanos afirmam, porém, que o total efetivo pode ser maior.

O Conselho Norueguês para Refugiados coloca o Equador como o terceiro país latino-americano com maior nível de deslocamento interno, atrás de Haiti e Colômbia. A avaliação associa o movimento a um avanço persistente da violência em diferentes partes do território equatoriano.

Moradores abandonam imóveis que, segundo relatos de residentes e policiais, podem ser saqueados por criminosos ou usados para esconder vítimas de sequestro. Dessa forma, a saída de casa não encerra necessariamente as perdas materiais impostas às famílias.

Nueva Prosperina concentra confrontos

Nueva Prosperina, distrito de Guayaquil, figura entre as áreas mais afetadas pelos confrontos entre facções criminosas. Uma disputa interna ligada à gangue Los Tiguerones deixou 22 mortos no distrito no ano passado.

Na região, a violência interfere diretamente na permanência das famílias. Um comerciante de 45 anos relatou que deixou Nueva Prosperina depois de seus filhos receberem ameaças de morte de gangues que tentavam recrutá-los.

O comerciante também relatou intimidações de pessoas que identificou como policiais. O caso ilustra a combinação de ameaças que leva moradores a buscar abrigo fora de seus bairros.

Extorsão amplia o controle das gangues

Polícia e Defensoria Pública descrevem a extorsão como uma ferramenta sistemática de controle exercida por grupos criminosos em bairros de todo o país. Em Nueva Prosperina, projeções da polícia local indicam que metade das famílias sofreu algum tipo de extorsão.

Francesco Volpi, do Conselho Norueguês para Refugiados, avaliou que as mensagens enviadas por aplicativos podem produzir medo imediato e atingir indiscriminadamente os moradores. A pressão, portanto, não depende apenas de confrontos armados para alterar a rotina das comunidades.

Gino Pillajo, chefe da polícia de Nueva Prosperina, afirmou à Reuters que muitas vítimas não denunciam os crimes por medo. Segundo ele, esse silêncio limita as investigações e reduz as informações disponíveis para a polícia identificar os responsáveis.

A corporação passou a trabalhar com líderes comunitários para receber dados sobre extorsões e instalou códigos QR em comércios locais para denúncias anônimas. Policiais também acompanham moradores que deixam suas casas e registram os imóveis sem proprietários.

Violência alcança outras províncias

O deslocamento não se restringe a Guayaquil. Comunidades indígenas Chachi situadas perto da fronteira colombiana deixaram temporariamente seus territórios após ameaças de mineradores ilegais, de acordo com a Defensoria Pública.

Em Babahoyo, na província de Los Ríos, comerciantes passaram a fechar seus estabelecimentos mais cedo como forma de autoproteção. A mudança mostra como a violência também afeta a atividade econômica e a circulação cotidiana nas cidades.

Já em Sucumbíos, na Amazônia equatoriana, famílias abandonam suas terras para evitar que grupos criminosos atraiam jovens para suas fileiras. O Conselho Norueguês para Refugiados registrou casos desse tipo na província.

Governo defende estratégia de segurança

O presidente Daniel Noboa assumiu o cargo em 2023 com a promessa de combater a violência. O crescimento do crime organizado ocorre em meio ao papel cada vez mais relevante do Equador como rota de trânsito de drogas.

O país registrou 9.216 mortes violentas no ano passado, com taxa de homicídios de 51 por 100 mil habitantes. O índice foi cerca de oito vezes maior que o registrado uma década antes e superou as taxas de 21,4 no México e 25,8 na Colômbia no mesmo período, segundo as autoridades desses países.

O governo afirma que sua política de segurança reduz sistematicamente os grupos criminosos. Também informou queda de 8% nas mortes entre janeiro e julho, na comparação com o mesmo intervalo de 2025, e declarou que a maioria dos mortos tinha vínculo com gangues.

Por outro lado, o Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos de Guayaquil sustenta que a estratégia não conteve a violência e pode ter agravado a fragmentação dos grupos. Na avaliação da entidade, mortes e prisões de líderes abriram espaço para facções rivais disputarem territórios.

Falta reconhecimento para as vítimas

Funcionários do governo ouvidos pela Reuters reconheceram a existência do problema, mas disseram não saber qual órgão deveria responder pelo deslocamento forçado. O gabinete de imprensa de Noboa não respondeu a um pedido de comentário da agência.

Billy Navarrete, presidente do Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos de Guayaquil, afirma que o país não reconhece legalmente o deslocamento interno provocado pela violência. Para ele, essa ausência impede a criação de mecanismos de proteção, acompanhamento e assistência às comunidades atingidas.

Sem uma resposta institucional definida, parte das pessoas deslocadas passa a viver com parentes em outros bairros ou se muda para outras cidades. Ao mesmo tempo, famílias sem recursos, rede de apoio ou condições de abandonar seus pertences permanecem próximas a grupos criminosos.

Em Nueva Prosperina, moradores relatam que o risco impõe silêncio. A situação revela que a violência não se limita aos homicídios: ela reorganiza bairros, interrompe atividades e restringe a capacidade de famílias decidirem onde viver.

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