O avanço russo no leste da Ucrânia aumentou a pressão sobre Kramatorsk e outras cidades que integram uma linha defensiva decisiva para Kiev na região de Donetsk. Segundo relatos de militares, autoridades locais e analistas ouvidos pela CNN, bombardeios, drones e infiltrações russas tornaram mais difícil a circulação, a evacuação de civis e o abastecimento das forças ucranianas.
O chamado “cinturão fortaleza” reúne Sloviansk, Kramatorsk, Druzhkivka e Kostyantynivka. Essas cidades formam uma barreira urbana e logística antes de áreas mais abertas a oeste, e sua perda poderia ampliar a capacidade russa de avançar pelo leste e pelo centro do país.
Rússia pressiona cidades da linha defensiva
A Rússia vem realizando operações de infiltração e avanços graduais rumo a Sloviansk e Kramatorsk, além de progredir em Kostyantynivka, segundo Jennie Olmsted, analista do Institute for the Study of War (ISW). A avaliação é que o ritmo permanece lento, mas favorece Moscou no atual momento da guerra.
Dados do ISW citados pela CNN indicam que as forças russas avançaram ou se infiltraram em cerca de 124 quilômetros quadrados de território ucraniano em agosto. O número corresponde a aproximadamente um quarto da área conquistada no mesmo mês do ano anterior.
Mesmo com o avanço reduzido, o custo humano para a Rússia é elevado. Serviços de inteligência ocidentais estimam perdas de cerca de 40 mil soldados russos por mês, o equivalente, pela relação apresentada na reportagem, a cerca de 340 baixas por quilômetro quadrado obtido.
Cinturão defensivo protege o restante de Donetsk
O cinturão defensivo é considerado essencial para as posições da Ucrânia que ainda restam em Donetsk. Além disso, a linha tem importância para a proteção de áreas mais amplas do leste e do centro ucraniano.
A geografia reforça esse papel. Os centros urbanos, suas estradas e ferrovias criam uma faixa de defesa antes de planícies menos povoadas a oeste, onde a sustentação de posições militares tende a ser mais difícil.
Por isso, a Ucrânia investiu durante anos em fortificações nas quatro cidades do cinturão. A preocupação é que uma ruptura nessa sequência urbana permita às forças russas avançar com maior velocidade para regiões situadas além da atual linha de frente.
Kostyantynivka perde função de bastião
Kostyantynivka, a cidade mais ao sul do cinturão, perdeu de forma efetiva sua utilidade como bastião ucraniano, segundo a análise apresentada na reportagem. Ainda há pontos de resistência no norte urbano, mas o valor operacional da cidade para Kiev já havia diminuído.
Eles estão realmente tentando degradar a logística e as defesas ucranianas na área”
Jennie Olmsted, analista do Institute for the Study of War (ISW)
As forças russas passaram quase um ano combatendo para tomar Kostyantynivka. O padrão se repete em outras frentes: Moscou tem dificuldade para conquistar rapidamente centros urbanos preservando infraestrutura, e os confrontos prolongados deixam as localidades devastadas.
Bakhmut foi tomada após nove meses de combates, enquanto Pokrovsk caiu depois de quase dois anos, de acordo com o relato. Quando as forças russas assumiram o controle total dessas cidades, grande parte da infraestrutura estava destruída, o que também reduziu seu valor estratégico para a Ucrânia.
Ataques atingem Kramatorsk diariamente
Em Kramatorsk, a oficial de imprensa Iryna Rybakova, da 93ª Brigada Mecanizada da Ucrânia, descreveu uma rotina marcada por bombas guiadas e drones. Quase todas as pontes da cidade foram destruídas, e ataques atingiram veículos, imóveis residenciais, instalações administrativas e garagens.
A cidade funcionava havia muito tempo como retaguarda para unidades ucranianas no leste. Também recebia tropas que deixavam temporariamente a linha de frente para descansar, mas os bombardeios diários reduziram essa possibilidade.
Rybakova afirmou que civis ainda vivem em Kramatorsk e que as autoridades não haviam imposto toque de recolher. Ela espera, porém, que a situação mude, enquanto a aproximação da frente de combate afeta negócios e a circulação de moradores.
Evacuação enfrenta minas e drones
A administração militar regional de Donetsk, controlada pela Ucrânia, informou que quase 93 mil pessoas, entre elas mais de 4,8 mil crianças, continuavam em áreas sob controle de Kiev. Ao mesmo tempo, a aproximação dos confrontos torna a retirada de moradores mais arriscada.
Hennadiy Yudin, policial da unidade especial conhecida como Anjos Brancos, disse que seus agentes já não conseguem entrar em Dobropillya e nos vilarejos próximos. Segundo ele, militares evacuam pessoas a pé e os policiais as buscam a cerca de 10 quilômetros da cidade.
Yudin atribuiu as restrições à presença de minas e ao grande número de drones na área. Dessa forma, a pressão militar não se limita às posições de combate: ela também compromete rotas usadas por civis que tentam deixar localidades próximas à frente.
Moscou busca degradar logística ucraniana
Para Olmsted, as ações russas procuram criar condições para futuras ofensivas contra Sloviansk. O objetivo seria enfraquecer as defesas e dificultar a chegada de suprimentos ucranianos às posições avançadas e aos centros urbanos da região.
O presidente russo, Vladimir Putin, mantém como objetivo a tomada integral de Donetsk e Luhansk. A Rússia já ocupa cerca de 81% de Donetsk e quase toda Luhansk, segundo os dados citados na reportagem; Moscou declarou em abril controlar todo o segundo território, enquanto Kiev afirma manter alguns bolsões.
Yury Ushakov, assessor e negociador do Kremlin, disse que Putin informou a emissários dos Estados Unidos que as tropas russas obtinham avanços no campo de batalha. Ainda assim, o cenário descrito por analistas aponta para uma ofensiva de desgaste, na qual ganhos territoriais graduais convivem com destruição urbana e custos elevados para os dois lados.


