Morre Zélia Amador de Deus, referência da luta antirracista no Pará

Professora emérita da UFPA morreu aos 74 anos, em Belém; pesquisadora ajudou a fundar o Cedenpa e defendeu direitos quilombolas

Da
Redação
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Zélia Amador de Deus foi professora emérita da UFPA e uma das referências da luta antirracista no Pará.
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Zélia Amador de Deus, professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), morreu aos 74 anos nesta terça-feira (8), em Belém. Pesquisadora em ciências sociais e ativista, ela se tornou uma das principais referências da luta antirracista e do movimento negro na Amazônia.

Uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), Zélia também atuou pela ampliação do acesso e da permanência de grupos historicamente excluídos do ensino superior. Sua trajetória incluiu a defesa dos direitos de comunidades quilombolas e dos saberes tradicionais.

Zélia construiu uma trajetória antirracista

Zélia nasceu em 1951, em uma fazenda de gado de Soure, na Ilha do Marajó. Era filha de uma mulher que tinha 15 anos quando se tornou mãe. Mais tarde, a família se mudou para a periferia de Belém.

A mãe trabalhava como empregada doméstica. O avô, que era vaqueiro no Marajó, tornou-se operário da construção civil. A avó lavava roupas para outras pessoas.

Segundo a UFPA, Zélia estudou em escolas públicas e enfrentou racismo por causa da cor da pele e do cabelo crespo. Ela dizia ter aprendido com a avó a não baixar a cabeça e a afirmar sua presença em qualquer espaço.

A pesquisadora ampliou o acesso à universidade

Na UFPA, Zélia defendeu políticas voltadas a grupos historicamente excluídos do ensino superior. Sua atuação esteve ligada tanto ao ingresso quanto à permanência desses estudantes na universidade.

O professor e pesquisador da área de educação Jonas Pinheiro atribuiu a ela papel decisivo na luta pelas cotas raciais e pela criação de um processo seletivo especial para quilombolas.

Ele também relacionou o legado da professora ao reconhecimento dos saberes tradicionais. Além disso, afirmou que a atuação de Zélia abriu espaço para quilombolas, negros, indígenas e outros povos tradicionais na UFPA.

A UFPA reconheceu seu legado acadêmico

Zélia ocupou o cargo de vice-reitora da UFPA entre 1993 e 1997. Em 2019, recebeu da instituição o título de professora emérita de Antropologia e Ciências Sociais, entre outros saberes ancestrais e acadêmicos.

A universidade também destacou sua contribuição para a construção de uma instituição mais plural, inclusiva e comprometida com a igualdade racial.

Em 18 de agosto, poucos dias antes da morte, Zélia foi homenageada no campus com o plantio de um baobá. A árvore foi escolhida por seu significado simbólico para diferentes povos africanos.

O baobá marcou uma homenagem recente

Durante a homenagem, Zélia associou o baobá à ancestralidade, à memória e às gerações que vieram antes. A cerimônia reuniu integrantes da comunidade acadêmica e marcou o reconhecimento público de sua trajetória.

O reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, afirmou que a professora representava uma referência para a universidade, mas também preservava relações de amizade, cuidado e proximidade com as pessoas.

A homenagem ocorreu em um momento em que a universidade ressaltava a contribuição de Zélia para uma educação superior mais inclusiva. Dessa forma, o plantio tornou-se também um registro simbólico de sua presença na instituição.

O movimento negro lamentou a perda

Após a notícia da morte, a historiadora Janira Sodré, fundadora do Instituto Pretas e secretária executiva da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), destacou a atuação de Zélia como uma presença insurgente no debate sobre o país.

Janira também ressaltou o protagonismo que Zélia atribuía às mulheres da chamada Amazônia Negra. Segundo a historiadora, a professora será lembrada pela tenacidade e pela alegria.

A cantora e compositora Gaby Amarantos também se manifestou sobre a morte da pesquisadora e agradeceu pelos ensinamentos deixados por ela.

O legado permanece entre povos tradicionais

A atuação de Zélia conectou universidade, movimento negro e comunidades tradicionais. Como fundadora do Cedenpa, ela participou da organização da defesa dos direitos da população negra no Pará.

Ao longo da carreira, sua trajetória também se relacionou à defesa de comunidades quilombolas e à valorização de conhecimentos que historicamente ficaram fora dos espaços acadêmicos.

Por isso, sua morte repercute entre estudantes, pesquisadores, ativistas e integrantes de povos tradicionais. O legado associado a Zélia está presente nas disputas por acesso, permanência e reconhecimento dentro da universidade e na luta antirracista na Amazônia.

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