Israel anunciou na terça-feira (8) o fechamento do consulado britânico em Jerusalém Oriental, em uma resposta aos planos do Reino Unido, da França e do Canadá de bloquear importações procedentes de assentamentos israelenses na Cisjordânia. O posto britânico é acreditado junto à Autoridade Palestina no território ocupado.
O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, disse que coordenou a reação com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Além do consulado, Israel informou que o Reino Unido deixará de participar da missão de coordenação para Gaza liderada pelos Estados Unidos e que alguns cidadãos britânicos serão impedidos de entrar no país.
Israel fecha consulado britânico
A decisão atinge a representação britânica em Jerusalém Oriental, que mantém credenciamento perante a Autoridade Palestina na Cisjordânia. Israel apresentou o fechamento como parte de uma reação diplomática às iniciativas anunciadas por Londres, Paris e Ottawa.
Saar vinculou a medida à proposta de restrições comerciais sobre bens vindos dos assentamentos israelenses. Ele também acusou o Reino Unido de interferir no processo eleitoral israelense, cujas eleições estão previstas para o fim de outubro.
Segundo o ministro israelense, a proibição de entrada alcançará alguns funcionários britânicos, além de Jeremy Corbyn e outros cidadãos do Reino Unido. O anúncio não detalhou, no material disponível, a lista completa das pessoas afetadas.
O chanceler israelense criticou ainda declarações do ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Miliband, sobre palestinos na Cisjordânia. Saar classificou as acusações feitas pelo britânico como falsas e afirmou que a posição de Londres representa interferência nos assuntos de Israel.
Três países propõem restrições comerciais
Reino Unido, França e Canadá anunciaram planos para bloquear importações provenientes dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. A iniciativa se soma a outras ações de aliados tradicionais de Israel que buscam pressionar contra a política de assentamentos.
Em declaração conjunta, o primeiro-ministro britânico Andy Burnham, o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro canadense Mark Carney relacionaram as medidas à defesa da solução de dois Estados. Os três afirmaram que levarão o tema à Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro.
Uma manifestação separada de ministros das Relações Exteriores de outros nove países reiterou o apoio a uma saída negociada. Entre os países citados estão Dinamarca, Noruega, Polônia, Espanha e Suécia.
Hoje, recusamo-nos a ser espectadores de mais sofrimento e da destruição da solução de dois Estados”
Ed Miliband, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros
Para esses governos, a criação de um Estado palestino convivendo pacificamente com Israel continua sendo a via para uma paz duradoura. Israel, por outro lado, se opõe a esse modelo, segundo o material que acompanha o anúncio.
Londres mira expansão de assentamentos
Miliband afirmou que o Reino Unido adotaria medidas diante da expansão dos assentamentos israelenses e do sofrimento dos palestinos. Ele disse que a nova legislação britânica deveria entrar em vigor em prazo de seis a nove meses.
Ao mesmo tempo, o ministro britânico anunciou a intenção de sancionar imediatamente vários colonos que classificou como extremistas. Londres já havia aplicado sanções relacionadas aos assentamentos da Cisjordânia em junho.
O Reino Unido reconheceu um Estado palestino em 2025, junto de outros países, como parte de sua defesa da solução de dois Estados. A relação bilateral com Israel vinha se deteriorando em meio às críticas britânicas à guerra em Gaza, aos assentamentos e a ataques de colonos contra palestinos.
Miliband também mencionou medidas contra a instituição financeira Al-Qard Al-Hassan, administrada pelo Hezbollah, e a reimposição de sanções econômicas ao Irã em alinhamento com a União Europeia e os Estados Unidos. Essas medidas foram apresentadas no mesmo contexto do anúncio britânico.
Assentamentos concentram disputa territorial
Os assentamentos israelenses na Cisjordânia estão no centro das novas medidas. Nações Unidas, palestinos e a maioria dos países os consideram ilegais à luz do direito internacional, interpretação contestada por Israel.
A produção desses assentamentos é sobretudo agrícola, com itens como tâmaras, frutas cítricas, ervas e vinho. Ela representa apenas uma pequena parcela das exportações totais de Israel.
Por isso, as restrições comerciais tendem a ter efeito limitado sobre o fluxo bilateral de comércio, embora carreguem peso político e diplomático. França e Canadá relacionaram suas posições à preservação das condições para uma solução negociada.
O governo francês citou a expansão acelerada dos assentamentos e o aumento da violência como razões para agir. Já a proibição francesa surge enquanto parte dos países da União Europeia defende uma resposta comum, sem alcançar até agora a maioria qualificada necessária no bloco.
Essas medidas só conseguirão fortalecer o próprio extremismo que buscam combater”
Ephraim Mirvis, rabino-chefe do Reino Unido
Projeto E1 amplia tensões na Cisjordânia
As preocupações recentes também se concentram no projeto de assentamentos E1, próximo de Jerusalém. A área atravessa terras reivindicadas pelos palestinos para a formação de um futuro Estado independente.
O anúncio das restrições ocorreu no mesmo dia em que Israel informou planos de construir mil novas moradias na Cisjordânia. A ampliação dos assentamentos é vista pelos governos que apoiam as medidas como um obstáculo à solução de dois Estados.
O Canadá afirmou que defende há décadas esse modelo como caminho para a paz no Oriente Médio e para atender às preocupações de segurança de Israel. A ministra das Relações Exteriores canadense, Anita Anand, associou os assentamentos aos riscos para esses objetivos.
Enquanto isso, uma reportagem da Reuters citada no material informou que o governo israelense financia alguns dos colonos mais radicais na Cisjordânia. Segundo a reportagem, eles usariam fazendas ilegais para expulsar palestinos.
Washington critica sanções propostas
Os Estados Unidos não acompanharão o bloqueio a importações oriundas dos assentamentos israelenses, segundo o secretário de Estado Marco Rubio. Ele avaliou que as sanções podem desestabilizar a Cisjordânia.
A posição americana expõe uma divergência entre Washington e os três países que propuseram as restrições. Ainda assim, os anúncios reforçam o isolamento diplomático de Israel entre parte de seus parceiros tradicionais.
No Reino Unido, o rabino-chefe Ephraim Mirvis reagiu aos planos de sanções e afirmou que eles podem fortalecer o extremismo que pretendem combater. Ele classificou a iniciativa do governo como uma política de gestos.
O fechamento do consulado britânico, portanto, amplia uma crise que combina diplomacia, comércio e a disputa territorial na Cisjordânia. Os próximos movimentos dependerão da implementação das medidas anunciadas pelos governos envolvidos e da resposta israelense.


