O biometano pode reduzir entre 45% e 75% as emissões de gases de efeito estufa do transporte pesado em comparação com o diesel, segundo o estudo internacional Biomethane for Transport Decarbonization, encomendado pelo Instituto MBCBrasil. O combustível é produzido pela biodigestão de resíduos orgânicos, como vinhaça, dejetos animais, resíduos urbanos e esgoto.
O levantamento indica que o Brasil está entre os países com maior potencial de expansão, especialmente pela disponibilidade de resíduos da agroindústria. Além de substituir combustíveis fósseis, o biometano pode gerar receitas com tratamento de resíduos, biofertilizantes e créditos de carbono.
O estudo mede o impacto climático
A análise considera as emissões ao longo do ciclo de vida do combustível. Nesse cálculo, o biometano apresenta uma redução de 45% a 75% em relação ao diesel usado no transporte pesado e de longa distância.
Em determinadas condições, o resultado pode ser ainda mais expressivo. Projetos baseados em resíduos e dejetos podem alcançar balanço negativo de emissões quando o cálculo inclui a captura do metano que seria liberado diretamente na atmosfera.
Segundo o estudo, essa conta pode representar uma redução de até 246% nas emissões em comparação com o diesel. O resultado depende, porém, da origem do resíduo e das condições de produção consideradas.
Além dos gases de efeito estufa, o combustível pode reduzir em até dez vezes as emissões de material particulado e fuligem diante de combustíveis fósseis líquidos. Por isso, o levantamento associa o biometano tanto à descarbonização quanto à melhoria da qualidade do ar.
A produção avança em vários países
A produção de biometano já ocorre em cerca de 40 países, enquanto o combustível é utilizado no transporte em quase 30 mercados. O estudo reúne dados de regiões das Américas, Europa, Ásia e África.
O potencial sustentável global de produção de biogás e biometano é estimado em aproximadamente 1 trilhão de metros cúbicos por ano. O volume equivale a cerca de 25% da demanda mundial de gás natural.
Na União Europeia, o plano REPowerEU estabeleceu a meta de produzir 35 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano até 2030. Os investimentos estimados para alcançar esse objetivo chegam a € 37 bilhões.
Nos Estados Unidos, o levantamento contabiliza cerca de 470 projetos de gás natural renovável. Na Índia, mais de 7,7 milhões de veículos movidos a gás estão em circulação, segundo os dados reunidos pelos pesquisadores.
O Brasil concentra grande potencial
O Brasil aparece no estudo como um dos países com maior capacidade de ampliar a produção. A principal vantagem está na oferta de resíduos gerados pela agroindústria, sobretudo pelo setor sucroenergético.
Somente as usinas de açúcar e etanol teriam capacidade para produzir 41,4 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano. Esse volume equivale a mais de 41 bilhões de litros de diesel, conforme a estimativa apresentada no levantamento.
Apesar desse potencial, menos de 2% da capacidade estimada do setor sucroenergético seria aproveitada atualmente. A diferença entre o potencial e o uso efetivo indica espaço para expansão de plantas, redes de distribuição e veículos compatíveis.
O país também desenvolveu tecnologias para biodigestão, purificação do gás, transporte de biometano líquido e integração da produção com fertilizantes de baixo carbono. Dessa forma, a cadeia pode envolver combustível, tratamento de resíduos e insumos agrícolas.
Os projetos brasileiros ganham escala
O estudo cita unidades em operação de empresas como Cocal, Raízen, São Martinho e Adecoagro. A produção brasileira combina resíduos da cana-de-açúcar com fontes urbanas, ampliando as possibilidades de oferta.
Na Usina Cocal, em Narandiba, no interior de São Paulo, uma planta em funcionamento desde 2020 produz cerca de 50 mil Nm³ de biometano por dia. A unidade utiliza vinhaça e torta de filtro como matérias-primas.
A empresa também mantém uma segunda unidade em Paraguaçu Paulista, igualmente em São Paulo, com produção estimada entre 30 mil e 40 mil Nm³ por dia. Os projetos integram o aproveitamento de resíduos à atividade sucroenergética.
Na área de resíduos urbanos, uma unidade inaugurada em Paulínia, em São Paulo, tem capacidade nominal de até 225 mil Nm³ por dia. Em Goiânia, a prefeitura anunciou a conversão da frota de ônibus urbanos para o combustível produzido a partir de resíduos.
O setor sucroenergético processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2024/25. Segundo o estudo, essa atividade gerou aproximadamente 380 bilhões de litros de vinhaça.
O custo depende do cenário
Além da redução de emissões, o biometano pode alterar o custo do transporte pesado. Simulações de Custo Total de Propriedade, que incluem aquisição, manutenção e operação dos veículos, apontam resultados diferentes conforme as condições analisadas.
No Brasil, o custo por quilômetro rodado com biometano pode ficar até 30% abaixo do diesel. Em outros cenários, porém, pode chegar a 25% acima do combustível fóssil.
Essa variação está relacionada a fatores como preço do combustível, investimento nos veículos, distância até a planta de produção e estrutura de abastecimento. Por isso, a viabilidade econômica não depende apenas do valor pago na bomba.
O estudo também aponta que as plantas podem diversificar suas receitas. Em mercados mais maduros, entre 20% e 60% da receita total de uma unidade pode vir do tratamento de resíduos, da venda de digestato como biofertilizante e dos créditos de carbono.
A regulação define os próximos passos
A Lei do Combustível do Futuro, de número 14.993/2024, criou o Certificado de Garantia de Origem de Biometano. O mecanismo permite separar a molécula física do atributo ambiental associado ao combustível.
O marco regulatório também estabeleceu uma meta compulsória de redução de emissões no gás natural. A exigência começa em 0,5% em 2026 e aumenta gradualmente até 10%.
Esse ambiente pode favorecer projetos ligados à agroindústria, ao saneamento e ao transporte. Ao mesmo tempo, a expansão dependerá da implantação de infraestrutura, da oferta de veículos e da conexão entre produtores e consumidores.
O estudo foi elaborado por pesquisadores da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal de Itajubá, do Instituto Agronômico de Campinas e do Instituto Mauá de Tecnologia. A avaliação também sustenta que o Brasil pode exportar equipamentos, engenharia e serviços para países da América Latina, da Ásia e da África.
Para os autores e representantes do Instituto MBCBrasil, a oportunidade brasileira não se limita à venda do combustível. O país também pode fornecer soluções tecnológicas para mercados agrícolas que buscam reduzir emissões, mas ainda têm infraestrutura limitada de biodigestão.


