Mulheres indígenas cobram protagonismo na defesa da Amazônia no Equador

Participantes do TEDxAmazônia defenderam direitos da natureza, acesso direto ao financiamento climático e proteção a defensoras ambientais.

Da
Redação
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Mulheres indígenas de diferentes povos amazônicos defenderam protagonismo na proteção da floresta durante o TEDxAmazônia, realizado pela primeira vez fora do Brasil, nas cidades equatorianas de Baños e Puyo. O encontro reuniu manifestações por proteção territorial, reconhecimento dos direitos da natureza e participação direta das comunidades nas decisões sobre recursos para conservação.

O encerramento teve um manifesto de 13 mulheres indígenas, conduzido pela anciã shuar Catalina Chumpi. Ao longo da programação, lideranças também relacionaram a preservação amazônica à segurança de defensoras e defensores ambientais, à governança de fundos climáticos e a alternativas econômicas baseadas em produtos nativos.

Mulheres indígenas encerram encontro com manifesto

O grupo de 13 mulheres levou ao palco uma mensagem de resistência em defesa dos corpos e dos territórios indígenas. Catalina Chumpi, do povo Shuar, pediu às águas das cachoeiras força para que as gerações mais jovens protejam seus territórios.

Na abertura do evento, o líder shuar Domingos Peas propôs um minuto de silêncio por pessoas assassinadas em represália ao trabalho de defesa da natureza. A iniciativa situou o debate sobre conservação também no campo da violência contra lideranças ambientais.

Segundo o relato apresentado no encontro, a América Latina concentra os assassinatos de defensores ambientais, e os povos indígenas estão entre os mais atingidos. A informação foi atribuída ao relatório mais recente divulgado pela Global Witness.

Lideranças defendem direitos da natureza

Patricia Gualinga, liderança kichwa e integrante do Fórum Permanente das Nações Unidas para Questões Indígenas, afirmou que a visão indígena entende a natureza como sujeito de direitos, e não como fonte passiva de recursos. Para ela, essa compreensão ajuda a explicar a conservação nos territórios indígenas.

“Para nós, a natureza sempre teve direitos. Por isso, os lugares mais bem cuidados estão nos territórios indígenas, porque nós entendemos que não somos os únicos habitantes do planeta”

Para nós, a natureza sempre teve direitos. Por isso, os lugares mais bem cuidados estão nos territórios indígenas, porque nós entendemos que não somos os únicos habitantes do planeta”

Patricia Gualinga, liderança kichwa

Gualinga citou a Constituição do Equador, que em 2008 reconheceu direitos da natureza, como uma mudança de paradigma. Ela também mencionou a proibição da mineração na Floresta Los Cedros, em 2024, por violação desses direitos.

A liderança lembrou reconhecimentos semelhantes para o rio Atrato, na Colômbia, e para o rio Maranhão, no Peru. No entanto, sustentou que decisões ou normas não bastam sem políticas públicas, instituições sólidas e mudanças na economia global.

Financiamento climático concentra decisões fora das comunidades

Diana Chavez, diretora de Comunas, Povos e Nacionalidades do Fundo do Biocorredor Amazônico, defendeu que povos indígenas tenham acesso a recursos e participem efetivamente da gestão dos fundos voltados à conservação.

Ela relatou que um fundo equatoriano abastecido por recursos da mineração e do petróleo existe há seis anos, mas não garante acesso direto aos povos indígenas. Conforme Chavez, burocracia, exigências excessivas e alterações administrativas e normativas dificultam esse caminho.

Chavez afirmou ainda que menos de 1% do financiamento climático global chega diretamente aos povos indígenas. Por isso, propôs mecanismos de acesso facilitado construídos junto das comunidades, em vez de formatos definidos sem sua participação.

“Quando falamos da participação indígena no financiamento climático, normalmente se fala de consulta, de reunião. Mas isso não é suficiente. A consulta te coloca na sala de espera, a governança te coloca na mesa de decisão”

Guayusa cria alternativa em Sucumbíos

A administradora kichwa Esthela Noteno apresentou uma experiência comunitária no distrito de Sucumbíos. Segundo ela, a contaminação associada sobretudo à atividade petroleira reduziu a abundância de sua comunidade e, diante da pobreza e da falta de serviços básicos, moradores arrendaram terras para monocultura de taro.

Quando falamos da participação indígena no financiamento climático, normalmente se fala de consulta, de reunião. Mas isso não é suficiente. A consulta te coloca na sala de espera, a governança te coloca na mesa de decisão”

Diana Chavez, diretora de Comunas, Povos e Nacionalidades do Fundo do Biocorredor Amazônico

Noteno disse que essa escolha estava ligada à necessidade de obter renda para alimentar as famílias. Ao mesmo tempo, ela avaliou que o modelo agravou a pressão sobre a biodiversidade local.

Durante a pandemia de covid-19, a família retomou conhecimentos sobre a guayusa, planta amazônica consumida como chá em regiões do Equador. Dessa forma, nasceu uma agroindústria comunitária de extrato da planta, que hoje reúne 12 famílias, segundo a apresentação.

A produção passou de 150 garrafas no início para entre 3 mil e 5 mil garrafas por mês, conforme Noteno. As folhas vêm de mulheres indígenas que cultivam guayusa em sistemas agroflorestais com mais de 150 espécies nativas, de acordo com ela.

TEDxAmazônia leva debate ao Equador

O TEDxAmazônia ocorreu na transição entre os Andes e a Amazônia, região descrita pelos organizadores como porta de entrada para a floresta. A coorganizadora Verônica Reed ressaltou que 40% do território amazônico está distribuído por oito países além do Brasil.

Reed vinculou os Andes à Amazônia ao destacar a origem dos rios nos glaciares andinos e a presença dos povos originários antes das fronteiras políticas atuais. Assim, o encontro apresentou a floresta como uma pauta que ultrapassa os limites nacionais.

O material fornecido traz uma divergência sobre a duração da programação: uma passagem aponta atividades entre 27 e 30 de agosto, enquanto outra informa realização de 27 a 31 de agosto. Ambas indicam cerca de 30 palestrantes indígenas e não indígenas ligados à conservação ou à pesquisa sobre a Amazônia.

O organizador Rodrigo Cunha afirmou que o evento pretende manter o revezamento entre países. Segundo ele, a próxima edição está prevista para Belém, no Pará, em junho do ano seguinte, e há expectativa de retorno ao Equador em 2028.

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