COP17 expõe desafios da América Latina contra a degradação do solo

Relatos da Amazônia peruana, do Corredor Seco e do Chaco argentino mostram como seca, enchentes e perda de solo atingem comunidades rurais.

Da
Redação
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COP17 e desertificação na América Latina estiveram no centro de relatos de comunidades que convivem com extremos climáticos e perda de solo. Durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação, realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, representantes da região defenderam que compromissos internacionais se transformem em apoio efetivo nos territórios.

As experiências apresentadas vieram da Amazônia peruana, do Corredor Seco Centro-Americano e do Chaco argentino. Embora os contextos sejam distintos, os participantes descreveram prejuízos à produção de alimentos, ao acesso à água, à criação de animais e aos modos de vida de comunidades indígenas e rurais.

COP17 reúne demandas dos territórios

A COP17 terminou com a criação de novos mecanismos de financiamento, discussões sobre uma arquitetura global de resiliência à seca e maior participação formal de povos indígenas e comunidades. Ainda assim, representantes latino-americanos apontaram uma distância entre as negociações internacionais e as necessidades cotidianas de quem depende diretamente da terra.

Segundo dados da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), cerca de 28% dos territórios da América Latina estão degradados. O percentual supera a média global, situada entre 15% e 16%, de acordo com a entidade.

Para os participantes, a dimensão regional do problema exige que iniciativas locais ganhem escala. Ao mesmo tempo, a conferência foi vista como espaço para ampliar a visibilidade de demandas comunitárias, formar redes e cobrar compromissos dos governos.

Corredor Seco enfrenta falta de chuva

Em Chalatenango, departamento de El Salvador, a líder juvenil Xenia López trabalha com 16 comunidades rurais e semiurbanas. A maior parte delas depende da agricultura e está inserida no Corredor Seco Centro-Americano, área que vai do sul do México ao oeste do Panamá e é vulnerável à irregularidade das chuvas.

López relatou a ocorrência de períodos prolongados de calor e de falta de chuva em momentos importantes para o abastecimento da agricultura. Além da redução da água disponível, ela citou o empobrecimento do solo associado ao uso intensivo de produtos químicos.

Nos últimos anos, as comunidades passaram a adotar práticas agroecológicas. Segundo a líder, a mudança ajuda a usar a água de forma mais eficiente e a proteger o solo. Porém, ela afirma que essas respostas locais precisam de apoio mais estruturado de autoridades e organismos internacionais.

A representante também disse que conferências internacionais podem abrir espaço para as reivindicações da América Central. Na COP17, ela relatou que o pavilhão brasileiro ajudou a dar visibilidade às histórias e lutas de seu território.

Não queremos ser vistos somente como comunidades vulneráveis.

Gilmer Yuimachi, indígena shipibo-konibo

Chaco alterna seca e inundação

No Rio Salado Norte, parte do Chaco Americano na Argentina, comunidades acostumadas à seca enfrentaram inundações neste ano. A professora e ativista Antonella Sleiman afirmou que o volume das enchentes não era observado havia cerca de 50 anos na região.

As famílias locais produzem milho, abóbora e outros alimentos para consumo próprio e comércio local. Elas também criam cabras, ovelhas, vacas e porcos. Com a inundação, houve perdas nas lavouras e na vegetação usada como alimento para os rebanhos.

Segundo Sleiman, algumas comunidades precisaram comprar alimentos para as famílias e para os animais em outras localidades. A necessidade marcou uma alteração nas condições de vida de grupos que haviam desenvolvido formas de lidar sobretudo com a escassez de água.

Sleiman é promotora territorial da Fundação para o Desenvolvimento em Justiça e Paz, a Fundapaz, e participa da Mesa de Tierra del Salado Norte. O espaço reúne representantes de oito organizações camponesas e indígenas em uma área de cerca de 80 quilômetros e debate mensalmente temas como terra, água, produção, agricultura e juventude.

Amazônia vê cultura sob risco

Na Amazônia peruana, o indígena shipibo-konibo Gilmer Yuimachi associou a seca e a degradação do solo a impactos que vão além da produção agrícola. Ele atua na Associação Intercultural Bari Wesna com comunidades de Ucayali e de outras regiões amazônicas.

Períodos prolongados de seca, segundo Yuimachi, diminuem os níveis de rios, lagos e igarapés usados para consumo, pesca, agricultura e criação de animais. Mudanças no regime de chuva também afetam cultivos como mandioca, milho, feijão e arroz.

O representante afirmou que a crise ameaça florestas, peixes, plantas medicinais, conhecimentos e cultura dos povos indígenas. Por isso, defendeu que as comunidades não sejam tratadas apenas como vulneráveis, mas reconhecidas pela contribuição de seus conhecimentos ancestrais para restaurar florestas, adaptar-se às mudanças climáticas e recuperar áreas degradadas.

Juventude cobra espaço nas decisões

A brasileira Thaiane Maciel, engenheira ambiental e fundadora do Instituto Ecocria, participou da COP17 por meio da coalizão de juventude da convenção. Ela também moderou debates e colaborou em uma iniciativa de comunicação voltada a divulgar a atuação de jovens nas negociações.

Para Maciel, as políticas relacionadas à terra precisam considerar suas conexões com água, sistemas alimentares e migrações climáticas. Nesse sentido, ela citou modelos sustentáveis de uso do solo, como a agrofloresta.

A engenheira criticou a percepção de que jovens estariam apenas em fase de aprendizado. Segundo ela, muitos já têm formação técnica e experiência concreta em seus territórios, o que os qualifica para formular e executar políticas.

Ao avaliar o fim da conferência, Maciel ressaltou que o documento final não basta para assegurar resultados. Na sua visão, o encontro também deve servir para expor compromissos dos países, cobrar soluções governamentais e construir parcerias e projetos voltados às necessidades urgentes dos territórios.

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