Fontes ouvidas pela CNN afirmam que o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, tem prejudicado a modernização do Exército ao priorizar disputas culturais e afastar dirigentes ligados à transformação tecnológica da força. As críticas ganharam força após a renúncia de Dan Driscoll, secretário do Exército, anunciada para 2 de setembro.
Segundo pessoas familiarizadas com o caso, Driscoll teria manifestado preocupação com obstáculos à transformação e à prontidão do Exército, sobretudo depois da saída de generais envolvidos nesses projetos. O Pentágono rejeitou a versão e declarou que Hegseth conduz uma agenda de inovação para todo o departamento.
Driscoll deixa o cargo
Driscoll informou na noite de 1º de setembro, em publicação no X, que o dia seguinte seria seu último dia completo como secretário do Exército. Ele qualificou o período no governo de Donald Trump e sob Hegseth como uma honra e disse que o apoio do secretário de Defesa foi importante para os avanços alcançados pela força.
Ao mesmo tempo, uma fonte familiarizada com a saída relatou à CNN que Driscoll mencionou apreensão com a transformação e a prontidão do Exército. Na versão dessa fonte, Hegseth bloqueava parte desses esforços ao dispensar os generais que os conduziam.
Outra fonte disse que Driscoll e Hegseth já não conversavam havia algum tempo. De acordo com esse relato, Hegseth avaliava que Driscoll e o então vice-secretário Dave Fitzgerald, que também renunciou, não seguiam suas prioridades para o Exército e para as Forças Armadas.
A saída abre uma lacuna na cúpula civil da instituição. Segundo a reportagem, o Exército também ficaria sem um chefe de Estado-Maior confirmado, num momento em que enfrenta desafios de modernização e a guerra com o Irã continua.
Fontes apontam perda de impulso
As fontes consultadas pela CNN avaliam que a substituição ou o afastamento de dirigentes reduziu o ritmo da adaptação militar ao campo de batalha contemporâneo. Entre as prioridades citadas estão sistemas não tripulados e formas de incorporar tecnologia de menor custo às tropas.
Um ex-oficial sênior do Exército afirmou que a instituição precisa de líderes capazes de compreender tecnologia, dialogar com a indústria e traduzir esse conhecimento em treinamento. Para ele, retirar esses quadros por razões que classificou como arbitrárias cria confusão e um vazio de comando.
Um funcionário da área de defesa na Europa disse que Hegseth divulgou diretrizes sobre sistemas não tripulados, mas que a percepção prática é de uma liderança mais concentrada em temas culturais do que em modernização. Esse funcionário contrapôs o discurso de reforma tecnológica às manifestações públicas do secretário sobre aparência e questões sociais nas Forças Armadas.
Mike O’Hanlon, titular da Cátedra Philip H. Knight em Defesa e Estratégia da Brookings Institution, disse haver muitos profissionais qualificados no Exército e no Pentágono trabalhando pela atualização das Forças Armadas. Ainda assim, avaliou que Hegseth provoca interrupções e perde impulso ao afastar oficiais experientes.
Pentágono contesta as acusações
O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, classificou como invenção a afirmação de que Hegseth não esteja concentrado na modernização. Ele disse que todo o Departamento está unido em torno da visão do secretário.
Parnell sustentou que Hegseth atua como um líder transformador sob a orientação de Trump. Segundo o porta-voz, o governo fortaleceu o arsenal, reduziu burocracia, estimulou inovação e melhorou moral e recrutamento nos diferentes ramos das Forças Armadas.
Assim, a contestação oficial se opõe diretamente ao relato das fontes anônimas, de um oficial de defesa na Europa e de especialistas citados pela CNN. O material não apresenta uma confirmação pública de Driscoll para as alegações atribuídas a pessoas familiarizadas com sua decisão.
O senador republicano Thom Tillis, da Carolina do Norte, também criticou Hegseth em uma publicação no X após agradecer a Driscoll. Tillis pediu que Trump encontre outro líder para o Pentágono e acusou o secretário de preferir o fomento de guerras culturais ao trabalho ligado à defesa nacional.
Guerra cultural orienta discursos
A reportagem descreve o mandato de Hegseth como marcado por posições agressivas em disputas sociais. Entre suas primeiras iniciativas, estiveram a defesa da troca do nome do Departamento de Defesa para Departamento de Guerra e a alteração dos nomes de bases do Exército para designações associadas à era confederada, com homenagens a pessoas diferentes que tinham os mesmos nomes.
Em outubro, Hegseth reuniu oficiais-generais e lideranças graduadas para criticá-los por temas como padrões de aptidão física, barbas e o que chamou de politicamente correto. Ele mencionou, entre outros pontos, programas de diversidade, equidade e inclusão, conhecidos pela sigla DEI.
O secretário voltou ao tema em discursos posteriores. Em janeiro, durante visita ao Laboratório de Foguetes, na Califórnia, defendeu o fim de iniciativas de DEI e de engenharia social. Já em agosto, num evento no Panamá, criticou prioridades do governo Joe Biden relacionadas a gênero, clima, diversidade e segurança.
No mês passado, durante ato de campanha para o deputado Zach Nunn na Feira Estadual de Iowa, Hegseth declarou que o Pentágono buscava restaurar o espírito guerreiro. A ênfase pública nesses temas é o centro da crítica feita pelas fontes que enxergam desvio de atenção das prioridades estratégicas de longo prazo.
Saídas atingem projetos tecnológicos
As fontes destacaram como preocupantes as saídas do então chefe do Estado-Maior do Exército, Randy George; do general Christopher Donahue, que comandava o Exército dos EUA na Europa e África; e do general David Hodne, responsável pelo Comando de Transformação e Treinamento do Exército.
Na Europa, Donahue trabalhava para absorver lições ucranianas sobre guerra com drones. O objetivo, segundo a reportagem, incluía equipar tropas americanas com tecnologias baratas e letais diante de ataques semelhantes aos lançados pelo Irã no Oriente Médio nos meses anteriores.
Hodne liderava o comando sediado em Austin, no Texas. Em março, afirmou a lideranças da indústria e do Exército que a organização inovaria com urgência para responder a ameaças de China, Rússia e Irã. Ele foi dispensado em abril junto com George, sem explicação pública, segundo a CNN.
Donahue realizou sua cerimônia de aposentadoria na semana anterior à publicação, depois de deixar o comando europeu sem receber uma nova função. Um ex-oficial sênior resumiu a preocupação ao afirmar: “Vocês estão tirando três dos líderes de combate mais experientes de uma geração”.
LaNeve assume interinamente
O general Christopher LaNeve assumiu interinamente a chefia do Estado-Maior do Exército depois da saída de George. Antes disso, Hegseth havia removido o então vice-chefe, general James Mingus, e colocado LaNeve no posto, segundo o relato da CNN.
A nomeação de LaNeve para o comando permanente ainda não havia sido enviada ao Capitólio para confirmação. Fontes ouvidas pela emissora disseram acreditar que ele não possui os votos necessários para ser confirmado, mas a reportagem não atribui essa avaliação a parlamentares específicos.
LaNeve recusou comentar o conteúdo por meio de um porta-voz. O Exército direcionou os questionamentos ao plano estratégico que ele divulgou em agosto, no qual defendeu segurança das fronteiras, mentalidade de guerreiro e preparação para operações de combate em grande escala.
O general também afirmou que a força enfatiza fundamentos da vida militar, prontidão individual e habilidades táticas de pequenas unidades. Para o oficial de defesa na Europa ouvido pela CNN, porém, a proposta de “voltar ao básico” contrasta com a agenda de modernização defendida por Driscoll, Donahue, George e outros dirigentes.


