O avanço da inteligência artificial pode favorecer o crescimento da economia mundial, mas também aumentar a distância entre países ricos e pobres. O alerta foi feito nesta quinta-feira, 22 de outubro, por representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que defendem maior acesso à energia, à infraestrutura digital e à formação profissional.
A preocupação é que empresas grandes e economias com maior capacidade de investimento aproveitem a tecnologia primeiro, enquanto nações em desenvolvimento, pequenas empresas e trabalhadores jovens enfrentem dificuldades para incorporá-la. As projeções de ganhos econômicos ainda não significam que esses resultados já tenham sido alcançados.
Risco de divisão econômica
A diretora adjunta do Departamento de Assuntos Fiscais do FMI, Era Dabla-Norris, afirmou que o desafio central das economias em desenvolvimento é conseguir adotar e disseminar inteligência artificial em suas atividades produtivas.
A distribuição dos benefícios depende de fatores concretos: energia disponível, redes de comunicação, equipamentos, serviços digitais e trabalhadores preparados. Países que não conseguem expandir essas condições podem ficar atrás daqueles que já dispõem de ecossistemas tecnológicos completos.
O alerta surgiu durante o Fórum de Mercados Globais da Reuters. As declarações ocorreram em um período de grandes investimentos em processadores e centros de dados, acompanhados de dúvidas sobre o retorno financeiro dessas despesas.
O FMI também chama atenção para a diferença entre a possibilidade técnica de usar IA e sua incorporação produtiva efetiva, que exige reorganização de processos e capacitação dentro das organizações.
Quanto a IA pode acrescentar
O FMI estima que a adoção eficaz de inteligência artificial poderia acrescentar até 0,5 ponto percentual ao crescimento global anual no médio prazo. Trata-se de um potencial condicionado à difusão da tecnologia, e não de um aumento já observado nas estatísticas econômicas.
Pela avaliação da OCDE, a IA pode elevar o crescimento anual da produtividade de seus países-membros em uma faixa de 0,4% a 1,2%. O intervalo reflete hipóteses sobre adoção e benefícios em diferentes atividades.
O economista-chefe da OCDE, Stefano Scarpetta, destacou que o uso da tecnologia no ambiente de trabalho avança de forma mais lenta do que entre consumidores. Ele chamou atenção para a distância entre empregos expostos à IA e funções em que ela é empregada de maneira sistemática.
Emprego e jovens profissionais
O FMI calcula que aproximadamente 40% dos empregos no mundo estão potencialmente expostos à inteligência artificial. Exposição não é sinônimo de eliminação automática do posto: algumas tarefas podem ser substituídas, enquanto outras podem ser reorganizadas ou apoiadas pela ferramenta.
As ocupações de entrada merecem atenção especial porque atividades rotineiras costumam servir de etapa de aprendizado para trabalhadores que estão iniciando a carreira. Se parte dessas funções for automatizada, empresas precisarão encontrar novas formas de treinamento e progressão.
Executivos de diferentes companhias já vêm relacionando planos de eficiência ao uso de tecnologias digitais. O banco britânico Barclays anunciou a previsão de cerca de 5 mil cortes de postos de trabalho neste ano, enquanto outras empresas também comunicaram reduções de pessoal.
O desafio da adoção
A análise dos organismos internacionais coloca governos e empresas diante da tarefa de ampliar a capacidade de uso de novas ferramentas, sem concentrar ganhos nos mercados mais avançados.
Em setores de serviços, indústria e administração, a adoção depende de segurança dos dados, investimentos e treinamento específico. Para países com redes elétricas instáveis ou baixa conectividade, esses requisitos podem encarecer a transformação tecnológica.
A OCDE reúne sobretudo economias mais desenvolvidas, o que torna suas estimativas de produtividade diferentes de uma previsão uniforme para o conjunto dos países de baixa renda. É necessário evitar a aplicação automática da mesma taxa a contextos distintos.
As projeções divulgadas se referem ao médio prazo e permanecem condicionadas à velocidade de adoção da IA e à capacidade de cada economia de transformar ferramentas digitais em ganhos efetivos de produtividade.
