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A proposta do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) de levar ao Sistema Único de Saúde o padrão de atendimento do Hospital Israelita Albert Einstein passou a receber críticas de especialistas em saúde pública. Eles afirmam que a comparação ignora diferenças entre um hospital privado e uma rede nacional responsável por oferecer atenção integral à população.

Flávio apresentou a ideia durante o debate presidencial da Band, em 18 de outubro, mas não detalhou como seria financiada ou implantada. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), adversário no segundo turno, questionou se a proposta significaria privatizar o sistema.

Promessa gera contestação

A campanha do candidato foi procurada em três datas da semana, sem resposta até a publicação da reportagem nesta sexta-feira, 23. A falta de esclarecimento impede concluir que exista um projeto formal de privatização, embora críticos apontem sinais políticos de maior participação privada.

Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa, interpreta a declaração como possível estímulo a concessões e à participação de empresas na prestação de serviços. Já a professora Marilia Louvison, da Faculdade de Saúde Pública da USP, considera a promessa incompatível com restrições orçamentárias anunciadas pelo candidato.

Gestão defendida pela equipe

O médico Cláudio Lottenberg, citado como possível ministro da Saúde em eventual governo Flávio, argumenta que o candidato utiliza o Einstein como referência de qualidade e segurança assistencial, não como proposta de extinguir o caráter público do SUS.

Lottenberg sustentou que pretende aprimorar protocolos, indicadores de desempenho, acompanhamento de resultados e segurança dos pacientes. Também afirmou reconhecer a saúde como direito de todos e responsabilidade do Estado, com acesso universal preservado.

O médico havia aparecido em vídeo defendendo melhor aproveitamento dos recursos já existentes antes de novos aportes. Depois, disse que suas palavras circularam de forma fragmentada e que poderia ter sido mais preciso.

A defesa de gestão mais organizada não equivale, por si só, à adoção do modelo de financiamento de um hospital privado. Especialistas observam, entretanto, que o SUS já opera com protocolos clínicos, monitoramento epidemiológico e mecanismos de avaliação de tecnologias.

Estruturas são diferentes

O SUS precisa organizar desde vacinação e vigilância sanitária até atenção básica, consultas especializadas, urgências, cirurgias e atendimento em áreas remotas. Um hospital isolado, por mais reconhecido que seja, não desempenha sozinho todas essas atribuições.

Vecina ressalta que uma instituição privada pode definir perfil de pacientes e concentrar serviços, enquanto o sistema público tem obrigação de cobertura universal e de atuação territorial ampla. O contraste torna incompleta qualquer comparação baseada apenas na experiência hospitalar.

A parceria público-privada não é novidade no SUS. O próprio Einstein participa de iniciativas do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, o Proadi-SUS, que envolve hospitais de excelência e ações de qualificação do atendimento.

O papel dessa cooperação, porém, é diferente de substituir o conjunto da rede pública por uma única organização. A Constituição estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado, mesmo quando serviços complementares são prestados por organizações não estatais.

Diferenças entre SUS e hospital privado
Critério SUS Hospital Einstein
Natureza Sistema público de saúde Instituição hospitalar privada
Cobertura Atendimento universal garantido constitucionalmente Serviços hospitalares conforme modalidades de acesso
Atividades Atenção primária, prevenção, vigilância, urgência e tratamento Assistência hospitalar e outros serviços específicos
Financiamento Recursos públicos e participação complementar Receitas de serviços e outras fontes próprias

Lottenberg afirmou que a sua intenção é preservar “a saúde é um direito de todos e um dever do Estado”, ao defender melhorias organizacionais no SUS.

Financiamento segue central

Marilia Louvison sustenta que atingir padrões hospitalares de hotelaria, estrutura e assistência semelhantes aos de centros privados de elite exigiria investimentos superiores à capacidade atual de financiamento do sistema público.

A sanitarista relaciona essa dificuldade à promessa de redução bilionária de despesas feita pelo candidato. A tensão apontada por ela é entre aumentar simultaneamente a qualidade de infraestrutura em larga escala e reduzir despesas, sem uma estratégia financeira detalhada.

A avaliação especializada não significa que qualidade, segurança e resultados devam ser metas exclusivas dos hospitais privados. Significa que as medidas precisam ser traduzidas em políticas nacionais para diferentes níveis de atenção e realidades regionais.

Na ausência de proposta operacional detalhada, permanecem sem definição pública custos, prioridades, alcance da reorganização anunciada e modo de execução. O atendimento universal previsto constitucionalmente continua sendo o parâmetro jurídico para qualquer eventual mudança no sistema.

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