O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, acionou os presidentes da própria corte, Edson Fachin, e do Superior Tribunal de Justiça, Luis Felipe Salomão, para manifestar forte preocupação com o volume e a regularidade de ações judiciais movidas por hospitais. O decano apontou que as demandas que cobram a revisão de valores pagos pelo Sistema Único de Saúde podem gerar um impacto anual de cerca de R$ 24 bilhões aos cofres públicos federais.
A controvérsia jurídica gira em torno de contratos e convênios firmados por hospitais privados e entidades filantrópicas, como Santas Casas, que prestam serviços complementares à rede pública. Na Justiça, essas instituições argumentam que a tabela oficial do SUS está defasada e exigem remuneração com base na Tabela Única Nacional de Equivalência de Procedimentos, parâmetro normalmente utilizado pelo setor de planos de saúde.
A estimativa de impacto financeiro foi calculada a partir de relatórios da consultoria jurídica do Ministério da Saúde. Os dados oficiais mostram que o avanço dessas ações judiciais ameaça comprometer a capacidade de investimento da União e pode provocar desassistência à população, já que os recursos seriam desviados para cobrir condenações retroativas bilionárias.
Exigem rigor contra precatórios
Nos ofícios enviados aos tribunais superiores, o decano do STF destacou preocupações específicas sobre a expedição irregular de precatórios pelo Poder Judiciário. Segundo o magistrado, há registros de emissões de títulos de pagamento mesmo antes do trânsito em julgado das ações, o que acelera o fluxo de desembolsos bilionários pela União sem a devida consolidação definitiva dos processos.
Diante desse cenário, Gilmar Mendes pediu ao STF que examine novamente a matéria sob o rito da repercussão geral, permitindo que uma única orientação jurídica seja seguida de forma obrigatória por todas as instâncias da Justiça brasileira. Em decisões anteriores, a corte não havia atingido o quórum necessário para consolidar essa tese de alcance nacional.
Paralelamente, o ministro cobrou do Superior Tribunal de Justiça o julgamento célere de processos semelhantes que tramitam na corte e solicitou recentemente inspeções extraordinárias para rastrear eventuais irregularidades na expedição de precatórios em tribunais regionais federais de diferentes regiões do país.
Concentram créditos financeiros
Outro ponto sensível levantado pelo magistrado envolve a titularidade dos créditos judiciais gerados pelas condenações contra a saúde pública. Conforme apontado nos ofícios, uma parcela significativa dos precatórios expedidos em decorrência das ações movidas por hospitais já não pertence mais às entidades assistenciais originais.
Esses títulos de dívida acabaram sendo transferidos para fundos de investimento e outros agentes financeiros, que passam a utilizar os créditos para inflacionar balanços corporativos. A concentração desses ativos em poucos intermediários financeiros elevou o alerta de autoridades sobre a higidez do sistema de pagamentos de precatórios judiciais.
O tema dos precatórios ganhou ainda mais relevância no cenário nacional após discussões envolvendo créditos de diferentes setores econômicos e reuniões institucionais conduzidas no âmbito do Supremo Tribunal Federal para endurecer o monitoramento sobre a emissão e a circulação desses títulos.
Atingem orçamento público
O Ministério da Saúde alertou formalmente que um eventual reconhecimento generalizado da tabela Tunep para todos os prestadores do SUS poderia gerar despesas extras bilionárias. A pasta ressalta que os contratos originais de atendimento são firmados diretamente com estados e municípios, e não com o governo federal.
Especialistas da área econômica apontam que o desvio de verbas correntes para o pagamento de precatórios judiciais retroativos compromete a manutenção de hospitais, a compra de medicamentos essenciais e a oferta de exames de média e alta complexidade em todo o território nacional.
Como desdobramento das gestões e ofícios encaminhados por Gilmar Mendes, a presidência do Supremo Tribunal Federal determinou a adoção de novas medidas de aperto no controle, fiscalização e transparência na emissão de precatórios que devem ser cumpridas rigorosamente por todos os tribunais do país.
Cobram repercussão geral
A discussão sobre a adoção da repercussão geral busca unificar o entendimento nas instâncias inferiores e evitar decisões conflitantes que coloquem em risco o equilíbrio fiscal da União. O debate jurídico opõe entidades filantrópicas e prestadores privados de saúde aos interesses de preservação orçamentária do governo federal.
O avanço das cobranças judiciais também mobilizou órgãos de controle e equipes técnicas da Advocacia-Geral da União, que buscam alternativas legais para conter a escalada de execuções de sentenças bilionárias contra o erário. O monitoramento rigoroso passou a integrar a pauta prioritária de atuação conjunta entre tribunais superiores e o Poder Executivo.
Com os novos ofícios e as providências em curso nos tribunais superiores, o julgamento definitivo sobre a matéria deverá definir o teto de responsabilidade financeira da União e estabelecer parâmetros definitivos para a circulação e quitação de precatórios judiciais no país.


