A tradicional celebração de São Cosme e Damião, comemorada anualmente em 27 de setembro, enfrenta desafios de adaptação para manter viva a entrega de doces às crianças nas grandes cidades. Misturando ritos católicos e cultos de matriz africana, a festividade lida com transformações no perfil religioso, barreiras urbanas e a maior seletividade do público infantil em relação às guloseimas.
Na Igreja Católica, a data é dedicada aos santos gêmeos mártires do século 3, enquanto figuras populares como Doum pertencem ao sincretismo com a umbanda. A linha entre as celebrações é tênue, exigindo acolhimento e diálogo entre diferentes crenças para preservar a essência da festividade popular.
Sincretismo e ritos tradicionais
A tradição cristã aponta que Cosme e Damião eram médicos que tratavam de doentes por caridade na região do mar Egeu, sendo martirizados durante perseguições romanas. No Brasil, o sincretismo uniu essas figuras aos ibejis do candomblé e aos erês da umbanda, espíritos infantis associados à alegria.
Nesse contexto cultural, consolidou-se na primeira metade do século XX o costume de distribuir saquinhos de doces para pagar promessas ou agradecer graças alcançadas. Enquanto templos de umbanda realizam giras festivas com distribuição de brinquedos, paróquias católicas incorporam elementos como festivais de pastel e participações de baterias de escolas de samba.
Devotos destacam que a união entre fé e manifestações culturais ajuda a alcançar diferentes públicos nas comunidades cariocas. A criatividade na programação litúrgica e festiva funciona como ferramenta para atrair novos fiéis e manter viva a memória dos santos gêmeos.
Novos doces e adaptação
A composição dos tradicionais saquinhos passou por transformações ao longo das décadas para agradar ao paladar infantil. A seleção atual busca equilibrar itens clássicos, como cocada, maria-mole, suspiro, paçoca e pé-de-moleque, com chocolates e guloseimas modernas.
Organizadores relatam que as crianças de hoje estão mais exigentes na escolha dos produtos recebidos. Por isso, a montagem dos pacotes exige planejamento financeiro e pesquisa de preços para garantir itens atrativos sem perder a identidade histórica da tradição.
Tento equilibrar doces tradicionais, como pé-de-moleque e paçoca, com doces modernos.”
Kelly Reis, babá e organizadora
A seleção dos saquinhos busca equilibrar doces tradicionais com guloseimas modernas para atrair o interesse infantil.
Além dos doces, muitos espaços aproveitam a data para realizar ações sociais complementares, como a entrega de enxovais para gestantes e brinquedos para centenas de visitantes que frequentam os terreiros e paróquias durante o dia de festa.
Violência e barreiras urbanas
A dinâmica de entrega dos saquinhos mudou consideravelmente devido ao crescimento das grandes cidades e a questões de segurança pública. Em bairros residenciais repletos de condomínios fechados, como na Barra da Tijuca, a distribuição passou a ser feita de carro nos canteiros centrais.
Enquanto no passado era comum receber dezenas de crianças na porta de casa, os devotos agora precisam adotar uma postura mais ativa na busca pelo público infantil. O crescimento da cultura evangélica em algumas regiões urbanas também reduziu a aceitação dos doces em certas comunidades.
Apesar das dificuldades logísticas e da diminuição na circulação livre de menores pelas ruas, os organizadores apontam que o volume de entregas tem se estabilizado ou crescido em alguns pontos graças ao esforço coletivo dos devotos.
Crescimento da resistência cultural
Lideranças religiosas e devotos reforçam que a persistência da festa comprova a força da devoção popular no país. O trabalho conjunto em templos e paróquias garante que a celebração continue alcançando centenas de famílias a cada edição.
A busca ativa pelos beneficiados substituiu a antiga facilidade de aguardar o público na calçada, exigindo maior organização dos voluntários. O compromisso com as promessas religiosas mantém viva uma das expressões culturais mais marcantes do calendário urbano.
As comemorações seguem mobilizando médiuns, padres, diáconos e simpatizantes dispostos a superar barreiras logísticas. A celebração reafirma o papel do sincretismo na preservação de identidades e na manutenção de laços comunitários.


