Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam que o advogado Walfrido Warde articulou canais de aproximação com o governo federal. Em janeiro de 2025, o defensor afirmou ao cliente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria agradecido por um uísque enviado como presente, segundo diálogos que vieram a público nesta semana.
As conversas, recuperadas de aplicativos de mensagens, mostram que a interlocução buscava estreitar laços entre o executivo e o comando do Banco Master. Warde relatou a Vorcaro que esteve com o presidente e transmitiu recados institucionais e pessoais, além de detalhar passos para formalizar pedidos de audiências e pautas de interesse corporativo do grupo financeiro junto à administração federal.
Mensagens revelam articulação de Warde
O material obtido pelos investigadores detalha a atuação de Walfrido Warde nos bastidores da defesa institucional e regulatória do ex-banqueiro. Em registros de janeiro de 2025, o advogado descreve um encontro com o chefe do Executivo e menciona o agrado enviado pelo cliente ao mandatário brasileiro.
De acordo com o extrato das conversas de WhatsApp, o defensor enviou uma mensagem a Vorcaro relatando a conversa com o chefe de Estado. O diálogo ocorreu cerca de sete semanas após a reunião oficial realizada no Palácio do Planalto em dezembro de 2024, que contou com a presença de autoridades econômicas.
A troca de mensagens reforça o esforço da defesa para consolidar canais diretos de comunicação com o Palácio do Planalto. Enquanto isso, o ex-banqueiro acumulava pressões regulatórias decorrentes das apurações conduzidas por órgãos de fiscalização do sistema financeiro nacional.
Defesa articulou pautas e e-mails
Registros anteriores de abril de 2024 também apontam que o advogado atuou para viabilizar encontros oficiais por meio do então chefe de gabinete da Presidência da República, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Em áudio enviado a Vorcaro, Warde cobrava o envio de demandas para formalizar os pedidos de audiência.
Na gravação, o defensor orienta o cliente a detalhar os assuntos de interesse do grupo empresarial para que a solicitação fosse encaminhada formalmente pelo próprio escritório. O objetivo era destravar a agenda de reuniões oficiais com o governo por meio de canais internos da assessoria presidencial.
Essas tratativas evidenciam a estratégia adotada pela frente jurídica do Banco Master para acessar instâncias superiores do governo federal durante o agravamento da crise institucional e regulatória enfrentada pela instituição financeira e por seus executivos.
Palácio do Planalto nega presente
Em nota oficial enviada à imprensa, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) desmentiu categoricamente a existência de qualquer articulação paralela e afirmou que o presidente Lula desconhece os relatos de Warde. O governo assegurou que o mandatário jamais recebeu presentes ou recados do ex-banqueiro.
O comunicado governamental reforça que o único contato oficial entre Lula e Vorcaro ocorreu em 4 de dezembro de 2024, em uma agenda que não estava previamente marcada. Naquela ocasião, o banqueiro compareceu à sede do governo acompanhado pelo ex-ministro Guido Mantega e tratou de supostas perseguições regulatórias.
A gestão federal pontuou ainda que o presidente orientou Vorcaro a buscar instâncias técnicas para resolver pendências regulatórias. Participaram também daquele encontro o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central e atual presidente da autarquia.
Banco Central decretou liquidação
O Palácio do Planalto destacou na mesma manifestação oficial que foi durante a atual gestão federal que o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A medida drástica representou um marco no cerco regulatório à instituição financeira comandada por Daniel Vorcaro.
Além da intervenção na estrutura do banco, o ex-banqueiro acabou sendo alvo de mandados de prisão cumpridos pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre irregularidades no sistema financeiro. O cerco policial e regulatório desmontou as operações do grupo e gerou repercussão em Brasília.
As investigações continuam desvendando conexões, tentativas de lobby e bastidores da crise que culminou na derrocada da instituição. A apuração segue analisando o conteúdo de dispositivos eletrônicos apreendidos com os investigados para mapear todas as frentes de atuação do banqueiro.


