Crise no Mar Negro encarece trigo global e pressiona inflação

Compradores globais de trigo enfrentam estoques em baixa, custos elevados e necessidade de buscar fornecedores alternativos diante do bloqueio de exportações na Rússia e na Ucrânia.

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Redação
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Lavoura de trigo global enfrenta forte volatilidade nos preços devido às restrições logísticas e ao conflito no Mar Negro., em 19 de novembro de 2025. REUTERS/Hollie Adams/Foto de arquivo
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Compradores globais de trigo que estão adiando a reposição de estoques cada vez menores enfrentarão custos significativamente mais altos quando voltarem ao mercado nas próximas semanas. A alta reflete o impacto direto da guerra entre Rússia e Ucrânia, que continua bloqueando rotas cruciais de exportação e provocando volatilidade acentuada nas principais bolsas de commodities agrícolas.

Os principais importadores da Ásia, do Oriente Médio e da África, que historicamente dependiam da região do Mar Negro para obter o cereal a preços competitivos, vêm encontrando barreiras severas para garantir suprimentos. Ataques a navios e à infraestrutura portuária levaram o transporte de cargas a praticamente parar desde julho, alterando de forma drástica o fluxo comercial internacional.

Diante desse cenário adverso, as restrições provocaram uma alta acentuada nos preços, com os contratos futuros de referência em Chicago subindo 40% desde as mínimas registradas em junho. O patamar atual é o maior em três anos e meio, acendendo o alerta para uma nova onda de inflação de alimentos no mercado internacional.

Impacto imediato na Ásia

A escassez de grãos afeta a Ásia de forma mais intensa no curto prazo, uma vez que o volume de embarques direcionados à região despencou drasticamente. A Indonésia, que figura como o segundo maior importador mundial do cereal, recebeu apenas cerca de 60 mil toneladas do Mar Negro no mês, contra meio milhão de toneladas no mesmo período do ano passado.

Para contornar o problema, moinhos locais passaram a recorrer a outros mercados fornecedores, incluindo a Argentina, e a aceitar pagar até 25% mais caro pelo trigo australiano. Analistas apontam que a competição pelas cargas deve se intensificar ainda mais até o final do ano, pressionando os custos operacionais da indústria.

Empresas de moagem do Sudeste Asiático relatam dificuldades para absorver integralmente o reajuste nos preços da matéria-prima sem repassá-lo aos compradores de farinha. O encarecimento do frete e das alternativas geográficas limita a margem de manobra do setor produtivo regional.

Estratégias de abastecimento

Especialistas em commodities reforçam que a dependência histórica da rota marítima restringe as opções imediatas dos compradores internacionais. A movimentação de navios permanece restrita, o que obriga governos e empresas privadas a recalcularem suas rotas logísticas e estoques de segurança.

O chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, Ole Hansen, avalia que a falta de escoamento na região forçará a busca por mercados externos, mantendo a trajetória de alta das cotações. Enquanto isso, parte dos importadores tenta gerenciar estoques remanescentes para adiar compras de maior volume.

Moinhos de diferentes portes adotam táticas mistas, combinando contratos de menor escala com cargas pontuais para atravessar o período de restrição. A incerteza geopolítica, contudo, desestimula grandes investimentos antecipados no suprimento físico.

Situação no Egito

No Egito, principal comprador mundial de trigo, o volume de importações sofreu forte retração na primeira metade de setembro na comparação anual. Os dados oficiais mostram que as compras externas caíram para 143.870 toneladas, bem abaixo das 876.139 toneladas registradas no mesmo período do ano anterior.

Apesar da queda acentuada nos embarques vindos da Europa Oriental, o país dispõe de algum fôlego temporário devido à chegada recente das colheitas locais. O governo egípcio tem buscado diversificar os parceiros comerciais, priorizando fornecedores europeus como a França para reduzir a vulnerabilidade externa.

Ainda assim, operadores locais indicam que parte dos moinhos opera com capacidade reduzida, operando em compasso de espera por uma possível retomada das negociações diplomáticas no Mar Negro.

Expectativa de mercado

A volatilidade nos preços reflete o temor generalizado de uma reviravolta repentina caso ocorra um acordo diplomático para liberar o tráfego marítimo. Analistas apontam que muitos agentes preferem manter posições cautelosas diante da possibilidade de forte oscilação para baixo caso as exportações sejam normalizadas.

As estimativas da Kpler indicam que tanto a Rússia quanto a Ucrânia devem embarcar volumes limitados de trigo, ficando distantes dos patamares observados em períodos de normalidade. Esse teto na oferta mantém o mercado sob forte pressão altista.

Compradores globais continuam monitorando os desdobramentos do conflito e os estoques remanescentes, sabendo que a margem para novos adiamentos de compras está próxima do limite estrutural.

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