O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, em sua residência, no Rio de Janeiro. A confirmação da morte foi feita pela Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição da qual o autor era membro desde 2015. Até o momento da publicação desta reportagem, a causa do falecimento não havia sido divulgada oficialmente.
Natural de Além Paraíba, em Minas Gerais, onde nasceu em 1931, Zuenir mudou-se ainda criança para Nova Friburgo e posteriormente para a capital fluminense. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, formou-se em Letras Neolatinas antes de iniciar sua trajetória profissional na imprensa brasileira durante a década de 1950.
Sua entrada no jornalismo ocorreu inicialmente como arquivista, função que exerceu antes de transicionar para a apuração e redação. Ao longo de sete décadas de carreira, ele passou por veículos de grande circulação nacional, incluindo Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Veja e IstoÉ, além de atuar como colunista de O Globo.
Trajetória marcou gerações na imprensa
A dedicação ao ensino superior e à formação de novos profissionais rendeu ao escritor o apelido carinhoso de Mestre Zu entre colegas e alunos. Sua atuação nas redações coincidiu com períodos turbulentos da história brasileira, tendo sido inclusive preso pela ditadura militar em 1968, junto com sua esposa, a também jornalista Mary Akiersztein.
O envolvimento com os acontecimentos daquele período histórico resultou na publicação de seu livro mais célebre, lançado no final dos anos 1980. A obra se tornou uma referência sobre a efervescência política e cultural da época, além de inspirar produções audiovisuais e acumular centenas de milhares de exemplares vendidos.
Outro marco importante de sua carreira foi a cobertura realizada em 1989 sobre o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, trabalho que lhe rendeu prêmios de grande relevância no jornalismo nacional. Anos mais tarde, ele voltou sua atenção para a desigualdade urbana ao acompanhar a rotina de comunidades cariocas para escrever obras premiadas.
Obras essenciais retrataram o país
O livro-reportagem focado na violência e na distância entre realidades do Rio de Janeiro consolidou ainda mais seu prestígio literário e jornalístico na década de 1990. Sua bibliografia também abrangeu ensaios e romances que discutiam comportamento, direitos humanos e crônicas do cotidiano brasileiro.
Tenho qualidades e defeitos, e uma coisa que hoje está fora de moda chamada otimismo. Espero que quando eu morrer o otimismo esteja na moda.”
Zuenir Ventura
Entre os reconhecimentos recebidos ao longo da vida, destacou-se a honraria concedida por sua contribuição histórica à defesa dos direitos humanos no país. Sua voz permaneceu ativa na análise dos rumos sociais e políticos do Brasil até o fim de sua vida produtiva.
A expressiva contribuição para a cultura nacional abriu portas para sua consagração na maior instituição literária do país, onde ocupou cadeira de destaque a partir de meados da década passada. A cerimônia de posse marcou formalmente sua inserção entre os grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.
Imortalidade na Academia Brasileira
A eleição para a Academia Brasileira de Letras ocorreu em outubro de 2014, sucedendo o escritor Ariano Suassuna na cadeira de número 32. A posse solene foi realizada no início de 2015, consolidando o reconhecimento de sua relevância tanto no jornalismo quanto na literatura de ficção e não-ficção.
Colegas de farda e admiradores frequentemente resgatavam sua postura marcada pelo otimismo e pelo bom humor diante dos desafios profissionais e pessoais. Em depoimentos concedidos a instituições de preservação da memória, ele próprio externou o desejo de ver o otimismo perpetuado após sua partida.
O legado do autor permanece vivo por meio de suas publicações, que continuam a ser adotadas em cursos universitários e consultadas por pesquisadores da história recente. Sua cobertura dos grandes impasses nacionais ajudou a moldar os padrões de rigor e apuração da imprensa brasileira.
Despedida e legado familiar
O falecimento do escritor repercutiu profundamente entre autoridades, intelectuais, jornalistas e leitores de diversas gerações que tiveram sua formação influenciada por seus textos. Mensagens de solidariedade foram direcionadas aos familiares do acadêmico nas redes sociais e em notas oficiais de pesar.
Zuenir Ventura deixa a esposa Mary Akiersztein, com quem foi casado por décadas, além de seus filhos Elisa e Mauro e seus netos Alice e Eric. Os desdobramentos sobre velório e sepulturas devem ser informados posteriormente por familiares e pela própria instituição literária.
A perda do intelectual encerra um ciclo fundamental da imprensa combativa e reflexiva no Brasil, deixando um vazio expressivo no cenário cultural do país. Seu nome permanece indissociável da história da resistência democrática e da crônica dos costumes nacionais.


