O ex-presidente da Argentina Alberto Fernández afirmou que o atual interesse do governo de Javier Milei pela disputa das Ilhas Malvinas é “absolutamente falso”. A declaração foi feita ao criticar a guinada recente do Executivo argentino, que nas últimas semanas elevou o tom sobre o arquipélago, anunciou sanções contra empresas ligadas à exploração de petróleo e enviou ao Congresso um novo projeto sobre defesa da soberania.
A avaliação de Fernández é uma crítica política e não uma constatação objetiva sobre a intenção de Milei. De forma documentada, o atual governo argentino adotou desde o início de setembro uma série de medidas formais relacionadas às ilhas, incluindo procedimentos sancionatórios, alterações administrativas e um projeto de lei apresentado ao Legislativo.
Fernández questiona mudança de Milei
Fernández sustenta que a ênfase recente de Milei no tema não corresponde a um compromisso consistente com a causa das Malvinas. O ex-presidente já havia classificado como oportunista o pronunciamento nacional feito pelo atual chefe de Estado no começo do mês e afirmou que a reivindicação argentina é uma política de Estado mantida por governos de diferentes orientações.
O interesse de Milei nas Malvinas é absolutamente falso”.
Alberto Fernández
Em declarações anteriores, Fernández também contestou a leitura feita por Milei sobre sinais políticos vindos dos Estados Unidos e criticou aspectos da política de Defesa, incluindo a compra de caças F-16. Essas observações expressam a posição do ex-presidente e são contestadas pelo governo atual.
Fernández governou a Argentina entre 2019 e 2023 e, durante seu mandato, manteve o reclamo diplomático de soberania sobre as ilhas em fóruns multilaterais. Ele também cita a construção de uma base naval na Terra do Fogo como iniciativa iniciada em sua administração.
A disputa sobre as Malvinas, chamadas Falkland Islands pelo Reino Unido, atravessa diferentes governos argentinos e permanece prevista na Constituição do país como uma reivindicação permanente, condicionada aos princípios do direito internacional.
Governo adota novas medidas
Em 3 de setembro, Milei fez um pronunciamento em cadeia nacional no qual reafirmou a reivindicação argentina e anunciou medidas em resposta ao avanço do projeto petrolífero Sea Lion. A Casa Rosada afirmou que pretendia usar instrumentos diplomáticos, econômicos, jurídicos e legais para defender a posição do país.
No dia seguinte, o governo abriu procedimentos para investigar 45 pessoas físicas e jurídicas que, segundo a administração argentina, estariam ligadas a atividades de exploração de hidrocarbonetos sem autorização de Buenos Aires. Em 8 de setembro, outros 15 alvos foram adicionados.
Em 17 de setembro, Milei enviou ao Congresso o Projeto de Lei de Defesa da Soberania Nacional. O texto pretende substituir o regime atual de sanções, ampliar punições a empresas e indivíduos e criar um sistema de segurança nacional para coordenar políticas diplomáticas, econômicas, jurídicas, de defesa e inteligência.
Londres rejeita sanções argentinas
O Reino Unido rejeita a reivindicação argentina e afirma não ter dúvidas sobre sua soberania sobre as ilhas e as áreas marítimas ao redor. O governo britânico sustenta que qualquer mudança de status deve respeitar a vontade dos habitantes do arquipélago.
Em comunicado de 18 de setembro, Londres criticou as ameaças de sanções a empresas e indivíduos que fazem negócios nas ilhas e afirmou que a exploração de recursos naturais faz parte do direito de autodeterminação dos moradores. O Reino Unido também disse que continuará apoiando as companhias que atuam legalmente sob as regras locais.
A Argentina rejeita a aplicação do princípio de autodeterminação ao caso e considera a população atual uma comunidade implantada em território ocupado. Essa diferença de interpretação está no centro do impasse diplomático entre os dois países.
Disputa segue no campo diplomático
Argentina e Reino Unido travaram uma guerra pelo arquipélago em 1982, encerrada com a derrota argentina. Desde então, Buenos Aires mantém o reclamo de soberania pela via diplomática, enquanto Londres administra as ilhas como território ultramarino britânico.
Em 2013, os moradores das ilhas aprovaram em referendo, por ampla maioria, a manutenção do status de território britânico. O governo argentino não reconhece essa consulta como elemento capaz de encerrar a disputa de soberania.
As medidas recentes de Milei mostram que o tema ocupa espaço concreto na agenda do governo, embora Fernández conteste as motivações políticas do presidente. Até agora, a controvérsia permanece centrada em instrumentos legais, sanções econômicas, posicionamentos diplomáticos e ações administrativas de ambos os lados.


