Taraneh Rahimi, uma jovem iraniana que completou 21 anos na prisão, aguarda o julgamento de um recurso contra a sentença de morte imposta por um tribunal revolucionário de Isfahan depois de ter participado dos protestos antigoverno de janeiro de 2026. Ela foi condenada por “moharebeh”, expressão da legislação iraniana traduzida como “guerra contra Deus” ou “inimizade contra Deus”, uma acusação que pode levar à execução.
O caso ganhou repercussão internacional porque Taraneh foi presa com a irmã gêmea, Romina Rahimi, e porque parentes, advogados e organizações de direitos humanos afirmam que as duas sofreram tortura, ameaças e restrições ao direito de defesa. Essas denúncias não foram verificadas de forma independente dentro do sistema prisional iraniano, e as autoridades não divulgaram publicamente uma resposta detalhada a todas as acusações feitas pela família.
Prisão ocorreu após protestos
Taraneh e Romina participaram das manifestações realizadas em Isfahan nos dias 8 e 9 de janeiro. Naquele momento, as irmãs tinham 20 anos. Segundo relato da família à AFP, elas foram detidas cerca de uma semana depois, durante operações realizadas por forças de segurança.
As manifestações faziam parte de uma onda nacional iniciada no fim de dezembro de 2025, inicialmente impulsionada pela alta do custo de vida e depois ampliada para críticas políticas ao governo. Organizações de direitos humanos e investigadores das Nações Unidas relataram repressão severa, mortes e dezenas de milhares de detenções.
As irmãs passaram meses sem contato regular com os familiares. De acordo com o primo Masoud Nourmohammadi, que vive nos Estados Unidos, a mãe das jovens procurou informações em hospitais, tribunais e prisões até conseguir confirmar onde elas estavam detidas.
A sentença contra Taraneh ainda pode ser contestada, e os advogados trabalham em recurso contra a condenação.
Tribunal aplicou pena capital
Taraneh foi julgada juntamente com outros 15 acusados no chamado caso da Praça Shohada, em Isfahan. A Human Rights Watch e a Hengaw informam que dez réus receberam sentenças de morte. Os processos estão ligados a episódios ocorridos durante os protestos, incluindo a morte de um integrante da Guarda Revolucionária e de um homem em situação de rua.
Os réus foram acusados de delitos de segurança nacional, entre eles “guerra contra Deus”. A organização afirma que não houve acusação individual de homicídio contra todos os envolvidos e que a defesa contestou a ligação de parte dos réus com as mortes ocorridas durante os protestos.
Taraneh recebeu a pena de morte e penas adicionais de prisão. Romina também foi condenada a uma longa pena de reclusão. Há divergência entre relatos anteriores sobre a duração exata da pena da irmã: algumas fontes citaram 25 anos, enquanto reportagens mais recentes da AFP e da Hengaw apontam 36 anos. Essa diferença decorre da forma como penas simultâneas e cumulativas foram descritas pelas fontes.
Família denuncia tortura
Os parentes afirmam que Taraneh foi submetida a agressões físicas durante os interrogatórios e pressionada a assinar confissões. Segundo Masoud Nourmohammadi, investigadores teriam usado ameaças contra Romina para forçar a assinatura de documentos.
Não importa como você morra, você será enforcada de qualquer maneira.
Relato atribuído por Masoud Nourmohammadi a agentes penitenciários
A família também afirma que Taraneh tem problemas em um joelho que havia sido operado antes da prisão e que seu estado piorou durante a detenção. Um médico teria recomendado atendimento hospitalar fora da prisão, mas, de acordo com os parentes, a transferência não foi autorizada.
A Radio Free Europe/Radio Liberty relata que os advogados só obtiveram acesso mais amplo ao processo depois da condenação. A Human Rights Watch afirma que há alegações de confissões obtidas sob tortura em diversos processos relacionados aos protestos e contesta a garantia de julgamento justo nesses casos.
Não há confirmação independente de todas as circunstâncias descritas pelos parentes, em parte pela dificuldade de acesso de jornalistas e observadores internacionais ao sistema prisional iraniano.
Execuções aumentam após repressão
O caso ocorre em meio a um aumento das condenações à morte relacionadas aos protestos. Em levantamento divulgado em 14 de setembro, a organização Iran Human Rights afirmou ter identificado ao menos 100 manifestantes presos em janeiro que estavam condenados à morte ou sob risco de receber pena capital. A entidade inclui mulheres e pessoas que eram menores de idade no momento dos fatos investigados.
A Anistia Internacional também documentou dezenas de manifestantes e dissidentes sob risco de execução e afirma que julgamentos politicamente sensíveis no país apresentam problemas recorrentes, como acesso limitado a advogados e uso de confissões contestadas pelos réus.
As autoridades iranianas sustentam que parte dos acusados não foi processada apenas por participar de manifestações, mas por atos violentos, destruição de patrimônio, ataques contra agentes de segurança e outras condutas enquadradas como crimes graves. Organizações independentes contestam a proporcionalidade das penas e a qualidade das provas apresentadas em diferentes processos.
Enquanto o recurso não é julgado, Taraneh permanece no corredor da morte. O caso das gêmeas Rahimi tornou-se um dos exemplos mais visíveis da disputa entre a versão das autoridades iranianas, que tratam os processos como resposta a crimes praticados durante os protestos, e a de organizações de direitos humanos, que denunciam uso da pena capital como instrumento de repressão política.


