Anistia aponta crimes contra a humanidade em repressão no Irã

Relatório elaborado ao longo de quatro anos pede a investigação criminal de 87 autoridades iranianas e a criação de mecanismo na ONU.

Da
Redação
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Protestos no Irã desencadearam forte repressão por parte das forças de segurança estatais.Dan Kitwood/Getty Images
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A Anistia Internacional afirmou nesta quarta-feira (16) que autoridades do Irã cometeram crimes contra a humanidade durante a repressão aos protestos desencadeados após a morte de Mahsa Amini. A jovem curda de 22 anos morreu há quatro anos, depois de ser detida pela polícia da moralidade do país sob a alegação de desrespeitar o código de vestimenta obrigatório.

O episódio resultou em meses de manifestações antigovernamentais que se tornaram a maior demonstração de oposição ao regime em anos. Diante da gravidade das acusações, a organização cobra a responsabilização direta de integrantes do governo iraniano.

Anistia identifica autoridades para investigação criminal

A organização mapeou o envolvimento direto de agentes estatais na condução da violência. Ao todo, a Anistia Internacional identificou 87 autoridades iranianas que devem ser investigadas criminalmente pela prática de crimes contra a humanidade.

As acusações documentadas incluem homicídio, tortura, desaparecimento forçado, estupro e perseguição por motivos políticos, de gênero, étnicos e religiosos. De acordo com a entidade, os abusos ocorreram de forma sistemática durante a contenção das rotas de protesto.

A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnes Callamard, destacou que as violações não consistem em condutas isoladas. A dirigente ressaltou que a estrutura de violência funcionou a partir de diretrizes superiores do Estado iraniano.

Relatório consolida pesquisa realizada ao longo de quatro anos

As conclusões apresentadas pela entidade são fruto de um trabalho de apuração extensivo. A pesquisa para a elaboração do relatório levou quatro anos para ser concluída pelos investigadores.

Durante o processo, foram realizadas entrevistas com 270 pessoas, incluindo manifestantes, familiares de vítimas fatais, testemunhas oculares, jornalistas e ex-detentos. O grupo de apuração colheu relatos sobre as condições de detenção e a atuação das forças de segurança.

Além dos depoimentos presenciais e à distância, a organização analisou milhares de vídeos gravados durante os atos, declarações oficiais do governo e documentos vazados que comprovaram a conduta repressiva.

Morte de Mahsa Amini desencadeou onda de manifestações

A crise política no Irã intensificou-se a partir da prisão de Mahsa Amini pela polícia da moralidade. A abordagem das forças estatais motivou reações imediatas em diversas regiões do país.

Os protestos rapidamente evoluíram para críticas diretas ao governo do clero xiita, no poder há mais de quatro décadas. Mulheres e jovens assumiram papéis de liderança na frente dos atos de rua, desafiando abertamente as imposições e regras estatais.

A resposta das forças de segurança resultou em um elevado saldo de vítimas civis. Grupos de direitos humanos contabilizam mais de 500 pessoas mortas nos protestos, incluindo 71 menores de idade, além de centenas de feridos e milhares de presos.

Organização cobra mecanismo internacional de justiça na ONU

Com a consolidação do relatório, a Anistia Internacional passou a pressionar a comunidade internacional por medidas concretas. A organização pede que a Assembleia Geral da ONU estabeleça um mecanismo internacional de justiça penal.

O objetivo da proposta é garantir o processamento e o julgamento dos responsáveis pelos abusos identificados no relatório. A entidade avalia que a jurisdição local é ineficaz para apurar condutas do próprio governo.

A criação do instrumento internacional é vista pela entidade como um passo indispensável para combater a impunidade das autoridades iranianas e assegurar a reparação às vítimas e a seus familiares.

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