Uma nova espécie de felino foi descoberta na Bolívia e batizada cientificamente como Leopardus tilcayo. O animal, que possui traços que lembram um pequeno leopardo e o gato-do-mato, representa a primeira identificação oficial de um novo felino na região em mais de um século, marcando um avanço significativo para a zoologia sul-americana.
Morador encontra animal em estrada e o entrega para santuário
A trajetória que levou à identificação da nova espécie começou há mais de uma década, quando um morador local encontrou o animal junto a uma zona florestal denominada Yungas, situada entre a Cordilheira dos Andes e a região da Amazônia. O homem levou o exemplar para casa acreditando tratar-se de um gato comum e conviveu com ele durante um ano inteiro.
Ao perceber o comportamento claramente selvagem do bicho, o morador decidiu entregá-lo a um centro de atendimento animal em 2016. Foi nesse momento que a bióloga Paola Nogales Ascarrunz recebeu um chamado do santuário descrevendo o exemplar resgatado como um gato incomum e intrigante.
A especialista relatou ter tirado dezenas de fotografias do animal ao notar características físicas fora do comum, como o tamanho reduzido em comparação a felinos adultos, orelhas pequenas e um padrão de pelagem singular que chamou imediatamente a atenção da equipe técnica.
Tirei umas 100 fotografias dele”
Paola Nogales Ascarrunz, bióloga
Pesquisa internacional revela características únicas da espécie
Inicialmente, a investigadora acreditou que o espécime pertencia à espécie Leopardus tigrinus, já conhecida na América Central e do Sul. No entanto, análises comparativas realizadas anos depois revelaram divergências morfológicas claras em relação a espécimes catalogados em outros países, como o Brasil.
Tirei umas 100 fotografias dele.
Paola Nogales Ascarrunz, bióloga
O trabalho de investigação científica avançou ao longo dos anos com a formação de uma equipe internacional. O estudo detalhado sobre o achado foi publicado na revista científica Current Biology, reunindo pesquisadores de diferentes nacionalidades dedicados a desvendar a taxonomia do animal.
Entre os cientistas envolvidos na pesquisa está o brasileiro Eduardo Eizirik, vinculado à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ao lado do investigador belga Jonas Lescroart e da própria bióloga boliviana responsável pelo primeiro atendimento.
Origem do nome homenageia tradição da população local
O batismo oficial como Leopardus tilcayo surgiu diretamente da forma como os moradores da região chamavam o animal tradicionalmente. Durante as entrevistas de campo, os pesquisadores questionaram a origem do termo utilizado pelos habitantes das comunidades locais próximas à floresta.
A resposta recorrente entre os moradores mais antigos indicava que o termo era passado entre gerações sem um significado específico conhecido em espanhol ou no dialeto quíchua. A adoção do nome científico reconhece assim a relação histórica da comunidade com a fauna silvestre da área.
Há tantas coisas básicas que desconhecemos”
Paola Nogales Ascarrunz, bióloga
A descoberta representa um marco histórico por constituir a primeira identificação formal de uma nova espécie de felino na região em mais de cem anos, ampliando o conhecimento taxonômico e zoológico sobre a biodiversidade da América do Sul.
Cientistas iniciam monitoramento para proteger o novo habitat
Apesar da divulgação oficial da nova espécie, os pesquisadores destacam que há lacunas expressivas sobre o comportamento, a dieta, os predatores naturais e os métodos de reprodução desses felinos na natureza. O ecossistema onde vivem ainda guarda diversos mistérios biológicos.
Há tantas coisas básicas que desconhecemos.
Paola Nogales Ascarrunz, bióloga
Para preencher essas lacunas, a equipe liderada por Paola Nogales Ascarrunz iniciou a instalação de câmeras de monitoramento nas florestas de Yungas. O objetivo principal é registrar a distribuição geográfica exata e as necessidades de habitat da população recém-descoberta.
Os cientistas alertam que a região abriga ecossistemas vulneráveis e enfrenta ameaças crescentes associadas à desflorestação e às atividades de mineração, o que torna urgente a implementação de medidas de conservação voltadas especificamente para a proteção da espécie.


