Um dente fossilizado de capivara encontrado no norte do Chile está ajudando cientistas a reconstruir um Deserto do Atacama muito diferente do atual. O material foi datado em cerca de 8,8 milhões de anos e indica que a região, hoje marcada pela hiperacidez e pela escassez extrema de água, abrigava ambientes úmidos capazes de sustentar animais semiaquáticos.
O estudo foi publicado em 5 de setembro de 2026 na revista científica Scientific Reports. O fóssil corresponde a parte de um terceiro molar esquerdo atribuído ao gênero Cardiatherium, um parente extinto das capivaras atuais. A descoberta representa o registro mais antigo conhecido de capivara no Chile.
Dente surgiu em depósito marinho
O fóssil foi localizado no sítio El Morro, dentro da Formação Bahía Inglesa, uma área paleontológica conhecida no litoral do Atacama. O material apareceu em uma camada de sedimentos formada em ambiente marinho raso entre aproximadamente 10 milhões e 7 milhões de anos atrás.
A presença de um animal semiaquático nesse contexto chamou a atenção dos pesquisadores porque capivaras dependem de água permanente, vegetação e áreas úmidas para sobreviver. Atualmente, elas não vivem no Chile e estão associadas principalmente a ambientes de água doce a leste da Cordilheira dos Andes.
“Encontrar um dente de capivara em um depósito marinho numa das regiões mais secas da Terra atualmente é simplesmente extraordinário.”
Priscilla Martinez, pesquisadora da Universidade do Arizona
A descoberta não significa que a capivara vivia no mar. A interpretação é que rios, pântanos e outros ambientes de água doce existiam nas proximidades e permitiam a presença desses animais em uma região costeira que hoje é extremamente árida.
Vegetação reforça cenário mais úmido
O dente não é a única evidência de que o Atacama já teve condições muito diferentes. O estudo também reuniu dados paleobotânicos e análises isotópicas que apontam para vegetação dominada por plantas do tipo C3, típica de ambientes menos secos.
Fitólitos, estruturas microscópicas produzidas por plantas e preservadas nos sedimentos, indicaram a presença de palmeiras e plantas com flores. Esse tipo de vegetação exige disponibilidade de água e umidade muito superiores às registradas hoje na região.
A combinação entre o fóssil de capivara, os vestígios de palmeiras e evidências de fauna de água doce sustenta a hipótese de um Atacama com rios, áreas alagadas e vegetação ribeirinha no fim do Mioceno.
Os mesmos depósitos também contêm registros de peixes de água doce e gaviais, crocodilianos associados a ambientes aquáticos. Para os autores, o conjunto forma uma evidência ecológica mais robusta do que um fóssil isolado.
Achado desafia aridez contínua
O Atacama costuma ser descrito como uma das regiões secas mais antigas do planeta, com hipóteses que sugerem condições de aridez persistente há dezenas de milhões de anos. O novo estudo questiona a ideia de que essa secura extrema tenha ocorrido sem interrupções durante todo esse período.
Os pesquisadores não afirmam que o deserto inteiro tenha se tornado uma floresta ou uma grande zona úmida. A conclusão é mais específica: ao menos partes do sul e da faixa costeira do Atacama tinham redes de água doce e vegetação suficientes para manter grandes herbívoros semiaquáticos.
Essa diferença é importante porque a história climática de uma região pode variar muito no espaço e no tempo. Áreas hoje hiperáridas podem ter atravessado fases relativamente úmidas antes de assumir as condições atuais.
O trabalho também reforça a necessidade de revisar modelos geológicos e climáticos quando novas evidências fósseis entram em conflito com interpretações consolidadas.
Capivaras precisaram cruzar o continente
Outro problema investigado pelo estudo é como esses animais chegaram ao litoral do Pacífico. As capivaras e seus parentes evoluíram em áreas associadas a grandes bacias hidrográficas da América do Sul, principalmente a leste dos Andes.
Os autores apresentam duas possibilidades. Uma seria a travessia por um corredor transandino em um período em que algumas passagens montanhosas poderiam ter sido mais acessíveis do que atualmente.
A segunda hipótese envolve uma rota mais ao norte, conectando áreas da bacia amazônica ao Pacífico por sistemas de rios que drenavam para oeste. Nesse cenário, os animais teriam avançado gradualmente por ambientes favoráveis sem precisar superar de uma só vez uma grande barreira montanhosa.
As duas alternativas apontam para uma integração hidrológica muito maior entre diferentes partes do continente durante o Mioceno tardio.
Fóssil ajuda a reconstruir clima
Além de ampliar o conhecimento sobre a distribuição de capivaras fósseis, o achado oferece uma nova ferramenta para estudar a evolução do clima no oeste da América do Sul.
Desertos são ambientes especialmente sensíveis a mudanças na circulação atmosférica, na intensidade de monções, no relevo e na disponibilidade de água. Por isso, entender períodos antigos de maior umidade ajuda a identificar quais fatores naturais modificaram o Atacama antes da influência humana moderna.
“Encontrar essa capivara naquele local vai desafiar muitas das ideias sobre a história do Atacama.”
Mark Clementz, Universidade de Wyoming
Os pesquisadores destacam que reconstruções paleoclimáticas funcionam como uma linha de base para comparar mudanças provocadas apenas por processos naturais com transformações atuais que também envolvem a ação humana.
Estudo amplia registro no Chile
O exemplar descrito recebeu a identificação MPC 3000 e foi atribuído a Cardiatherium, gênero de roedores hidroqueríneos extintos. O registro é considerado o mais antigo de uma capivara no território chileno.
O trabalho reúne pesquisadores de instituições do Chile, dos Estados Unidos e do Brasil. Entre elas estão a Universidad Santo Tomás, a Universidade do Arizona, a Universidade de Wyoming, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade do Chile.
A descoberta também mostra o valor científico da Formação Bahía Inglesa, área já conhecida por abundante material fóssil marinho e por sítios como Cerro Ballena, famoso pela concentração de fósseis de baleias.
Com o novo registro, o Atacama ganha mais uma evidência de que sua paisagem nem sempre teve a aparência atual. Há cerca de 8,8 milhões de anos, ao menos parte da região tinha condições muito mais úmidas, vegetadas e conectadas a ecossistemas de água doce capazes de sustentar animais que hoje seriam impossíveis de encontrar no deserto.


