O Discord divulgou nesta quinta-feira (17) seu primeiro relatório de transparência sob as regras do ECA Digital, abrangendo o período de janeiro a junho de 2026. A plataforma de comunicação avaliou como baixo o risco de suicídio e automutilação entre adolescentes, gerando forte contraste com as conclusões de órgãos reguladores brasileiros.
A publicação do documento ocorre cerca de um mês após a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinar a suspensão das transmissões ao vivo da ferramenta. A medida rigorosa foi adotada pelas autoridades após a morte de uma adolescente de 13 anos que teria sido coagida em ambiente virtual.
Empresa descarta nível alto
De acordo com o relatório apresentado, a classificação de risco considera o nível final após a aplicação de medidas de proteção que estariam em funcionamento. Nenhuma categoria recebeu avaliação de risco alto pela empresa.
Enquanto tópicos como segurança infantojuvenil, assédio e discurso de ódio foram classificados como risco moderado, temas sensíveis como suicídio, automutilação, violência e extremismo ficaram no nível baixo. O documento, no entanto, não detalha a quantidade de ocorrências específicas registradas para cada uma dessas violações.
A discrepância chamou a atenção porque a ANPD afirmou anteriormente possuir evidências robustas de falhas na proteção de menores. O próprio Discord admitiu que havia indícios de risco no caso da jovem falecida, embora seu alerta interno não tenha sido acionado a tempo.
Plataforma registra milhões de denúncias
No primeiro semestre, a plataforma registrou 2,55 milhões de denúncias de usuários no Brasil, sendo 1,43 milhão relacionadas a spam e 1,12 milhão a outros problemas. O sistema não separa as notificações por tipo de infração específica.
No campo da verificação etária, o Discord solicitou que 2,36 milhões de contas passassem por aferição de idade. Apenas 28,5% dos usuários concluíram o procedimento exigido, restando mais de 1,69 milhão de perfis sem finalização da checagem.
Dados da SaferNet citados pela ANPD indicam que as denúncias envolvendo a plataforma cresceram 54% em um ano. O volume passou de 264 casos entre janeiro e julho de 2025 para 406 ocorrências no mesmo intervalo de 2026.
Autoridades executam intervenções em contas
Diante das notificações recebidas, a empresa informou ter executado 417.210 intervenções e tomado medidas contra 301.187 contas de usuários. Os dados indicam ainda a desativação permanente de milhares de contas e a remoção de servidores.
Específicos para o público adolescente, os registros apontam milhares de exclusões de perfis e advertências ou restrições temporárias. Autoridades policiais continuam investigando grupos virtuais conhecidos como panelas, que atuam na coação de menores.
A fiscalização recente resultou na apreensão de seis adolescentes em uma nova fase da operação policial. As investigações apontam que esses coletivos migram frequentemente entre plataformas digitais para manter atividades ilícitas e dificultar o rastreio.
Empresa planeja próxima divulgação
O relatório do Discord também registrou o envio de milhares de comunicações ao centro norte-americano de combate à exploração infantil, envolvendo majoritariamente fotos ou vídeos, além de conteúdo escrito.
A companhia reconheceu, por outro lado, que o procedimento específico de notificação direta às autoridades brasileiras, exigido pela legislação do ECA Digital, ainda estava em processo de estruturação durante o período avaliado.
A próxima edição do relatório de transparência da plataforma foi agendada oficialmente para o dia 1º de fevereiro de 2027. Até lá, o escrutínio regulatório e as investigações sobre a segurança de menores permanecem em foco no país.


