A Trivia Trens antecipou investimentos e ampliou a preparação para assumir as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM em São Paulo. A concessionária prevê a chamada “virada de chave” para o fim de outubro, depois de uma crise operacional que levou a estatal a retomar temporariamente os três ramais.
O contrato prevê investimentos de R$ 14,7 bilhões ao longo de 25 anos. No entanto, falhas registradas no terceiro dia de operações, em 23 de julho, provocaram incêndio em uma composição e levaram passageiros a caminhar pelos trilhos. O governador Tarcísio de Freitas classificou a situação como “inaceitável” e chegou a ameaçar decretar a caducidade da concessão.
Trivia reorganiza operação após crise
Cláudio Andrade assumiu a presidência da Trivia Trens na primeira semana de julho, depois de permanecer um ano e meio à frente do Metrô BH. Com a interrupção das operações, o executivo passou a conduzir uma revisão dos planos para a entrada definitiva da empresa nos três ramais.
A concessionária realizou novas rodadas de treinamento e capacitação. Segundo Andrade, metade dos 2,4 mil funcionários da empresa já teve contato direto com ele durante visitas a estações e centros operacionais.
O executivo descreveu o episódio como uma situação “anormal e absolutamente atípica”. Para ele, a resposta inclui ouvir as equipes, reorganizar procedimentos e melhorar a comunicação com os passageiros antes da retomada.
A fase pré-operacional foi ampliada em 90 dias, e a transição definitiva passou a ser prevista para o fim de outubro.
Empresa antecipa obras de energia
Entre as medidas antecipadas está a recuperação da subestação Engenheiro Sebastião Gualberto, localizada no trecho mais afetado pelas falhas de julho. A obra deve começar no início de 2027.
O equipamento funciona como retificador da tensão elétrica e foi construído na década de 1950. Pelo planejamento inicial, a intervenção ocorreria apenas no terceiro ano da concessão.
A empresa também decidiu acelerar a implantação do SFTV, sistema fechado com mais de 400 câmeras em estações, vias e pátios de manobras. Os equipamentos serão conectados ao centro de controle operacional.
Ninguém está aqui para dizer que uma crise é boa”
Cláudio Andrade, presidente da Trivia Trens
De acordo com a concessionária, a antecipação permitirá identificar preventivamente situações capazes de comprometer a circulação. O sistema poderá emitir alertas sobre vandalismo, roubos, comportamentos suspeitos e concentração elevada de passageiros em plataformas.
Investimentos alcançam R$ 6 bilhões
Dos R$ 14,7 bilhões previstos no contrato, R$ 6 bilhões já foram contratados, segundo o presidente da Trivia. O montante inclui diferentes frentes de modernização e expansão da rede.
Entre os projetos estão obras civis de novas estações, expansão de 22,6 quilômetros das linhas, reforma de estações existentes e modernização da rede aérea, da sinalização e dos sistemas de energia.
O plano também contempla revisões programadas dos trens herdados da CPTM. Além disso, a empresa encomendou mais de 160 equipamentos ferroviários de médio e grande porte.
Entre as aquisições está uma renovadora de via permanente importada da Áustria. O equipamento pode substituir dois quilômetros de trilhos e dormentes em períodos de 36 horas, além de limpar ou remover a brita sob a via.
Transição terá supervisão da CPTM
Depois da virada de chave, a Trivia deverá operar as três linhas em um regime assistido durante 12 meses. O período terá seis meses iniciais, com possibilidade de prorrogação por outros seis.
A CPTM continuará supervisionando a operação durante essa etapa. A transição ainda depende de aprovação da Artesp, agência reguladora dos transportes do Estado de São Paulo.
O modelo foi apresentado pela concessionária como uma transição mais longa e estruturada do que a adotada em contratos anteriores de mobilidade. A supervisão deverá acompanhar a adaptação da empresa aos ramais e aos equipamentos recebidos da estatal.
Assim, a passagem definitiva para a Trivia não ocorrerá imediatamente após a retomada. A empresa terá um período adicional para ajustar processos, treinar equipes e corrigir falhas antes de encerrar a participação operacional da CPTM.
Isso nos permitirá agir preventivamente quando enxergarmos situações que comprometam potencialmente a operação”
Cláudio Andrade, presidente da Trivia Trens
Grupo amplia presença na mobilidade
A concessão das três linhas representa o movimento mais ambicioso do grupo Comporte no setor metroferroviário. A holding é controlada pela família Constantino, também associada à companhia aérea Gol.
O grupo já opera o Metrô BH, privatizado em 2022. Também participa da construção do Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas, cujo contrato inclui a Linha 7-Rubi.
Com a incorporação dos três ramais da CPTM, a empresa pretende ampliar sua presença na mobilidade sobre trilhos. O projeto, porém, começou sob forte pressão após os problemas registrados no início da operação.
Por isso, a antecipação de obras e a ampliação da fase preparatória passaram a concentrar a estratégia da concessionária para recuperar a confiança e cumprir as etapas previstas no contrato.
Concessionária busca recuperar confiança
A empresa afirma que a crise provocou uma readequação geral dos planos. O foco passou a combinar investimentos físicos, capacitação de funcionários e uso de tecnologia para acompanhar a operação em tempo real.
Andrade também indicou que a retomada deverá ocorrer com maior comunicação aos usuários. A proposta é informar as mudanças e explicar de que forma a concessionária pretende melhorar gradualmente os serviços.
A operação assistida será a principal etapa para avaliar a preparação da Trivia antes da transferência integral das linhas. Nesse período, a supervisão da CPTM e a análise da Artesp continuarão relevantes para a conclusão da concessão.
O resultado dessa transição definirá se a empresa conseguirá deixar para trás o início turbulento e consolidar as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade em sua carteira de mobilidade.


