A Polícia Federal apura suspeitas de tráfico de influência envolvendo o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) e processos em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação levou o ministro Flávio Dino a autorizar buscas contra o parlamentar na segunda-feira (14).
Segundo a decisão, mensagens reunidas pela PF indicam que Cezinha dizia ter contato direto com o ministro Kassio Nunes Marques e se comprometia a fazer pedidos relacionados a casos sob relatoria do magistrado. O deputado é investigado por suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
PF reúne mensagens atribuídas ao deputado
A decisão de Flávio Dino descreve conversas nas quais Cezinha afirmava que falaria com Kassio Nunes Marques por vídeo. Em um dos diálogos citados, ele informou que havia solicitado atendimento ao ministro e que a conversa ocorreria às 16h.
Na mesma troca de mensagens, Mariângela Fialek perguntou se o encontro trataria de um caso no Ceará. Cezinha respondeu que pretendia enviar material antes da conversa e afirmou que faria um pedido ao ministro.
Para Dino, o conteúdo indica que o deputado não atuaria somente no encaminhamento de documentos. A decisão registra a avaliação de que ele assumia o compromisso de formular um pedido pessoal e direto ao julgador.
A PF apontou indícios de que o parlamentar usava a função para criar em terceiros a percepção de influência sobre magistrados de tribunais superiores.
Decisão descreve suposto padrão de atuação
De acordo com a decisão, os investigadores identificaram um padrão nas comunicações analisadas. Cezinha dizia ter falado, despachado ou pedido providências, enquanto advogadas acompanhavam o andamento e os resultados dos processos.
A PF atribui a Mariângela Fialek a captação de causas e a produção de memoriais. Já Valéria Rodrigues Linhares, mulher de Cezinha, teria atuado na elaboração e na assinatura de contratos, segundo o relatório citado por Dino.
Na descrição da investigação, caberia ao deputado o suposto contato pessoal e direto com ministros de tribunais superiores. A PF avalia que as mensagens apontam uma parceria entre as duas advogadas para buscar decisões favoráveis no STF com auxílio de Cezinha.
As suspeitas, contudo, integram uma investigação em curso. A autorização das buscas não representa conclusão sobre a responsabilidade criminal dos envolvidos.
Contratos previam pagamentos por resultado
Dois processos mencionados na apuração envolviam contratos de honorários com pagamentos condicionados ao desfecho das causas. Somados, os valores previstos chegavam a R$ 3,5 milhões.
Um dos contratos estava ligado a Denis de Souza Macedo, ex-secretário de Educação de Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Ele foi preso em 2025 em uma operação da PF que apurou supostos desvios de R$ 112 milhões em recursos do Fundeb e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Foi até bom que ele vai ver se de fato eu preciso pedir expressamente”
Cezinha de Madureira, em mensagem citada na decisão de Flávio Dino
Nesse caso, o contrato previa R$ 1 milhão em honorários e mais R$ 2 milhões em caso de sucesso. O documento definia como êxito a concessão da liberdade de Macedo, inclusive se fossem impostas medidas cautelares.
O segundo processo envolvia Michele Cariello de Sá Queiroz Rocha, então prefeita de Beberibe, no Ceará. O contrato citado previa R$ 500 mil após o julgamento, no STF, de uma reclamação relacionada a uma investigação do Ministério Público do Ceará.
Conversas citam casos no Rio e Ceará
Em 5 de agosto de 2025, Cezinha enviou a Mariângela uma imagem de visualização única e escreveu que já havia falado. Ela respondeu mencionando também um caso no Rio de Janeiro.
Segundo a decisão de Dino, a referência provavelmente dizia respeito ao processo de Denis Macedo. A investigação relaciona essa conversa ao conjunto de mensagens que embasou a suspeita de intermediação junto ao STF.
No diálogo sobre o processo cearense, Mariângela mencionou a necessidade de um despacho e afirmou que havia sido preparado um memorial. Em seguida, Cezinha relatou que falaria por vídeo com Kassio Nunes Marques.
A decisão usa essas conversas como parte dos elementos que sustentaram a medida de busca. O material também relaciona a atuação atribuída ao deputado aos escritórios de Valéria Linhares e de Mariângela Fialek.
Dino autoriza buscas na investigação
Flávio Dino autorizou as buscas a pedido da investigação conduzida pela Polícia Federal. A decisão aponta indícios de que Cezinha teria usado a ascendência do mandato parlamentar para apresentar-se como alguém capaz de influenciar integrantes de tribunais superiores.
O ministro registrou que as mensagens analisadas iam além da simples entrega de petições ou memoriais. Para a PF, o suposto contato pessoal com magistrados seria um dos pontos centrais da dinâmica investigada.
As apurações reúnem suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A decisão relata os indícios levantados pela PF, sem antecipar eventual desfecho judicial do caso.
O gabinete de Kassio Nunes Marques foi procurado para se manifestar sobre os fatos descritos na investigação. Não há, no material disponível, resposta do ministro.
Deputado relata pedido ao ministro
Uma das mensagens atribuídas a Cezinha trata diretamente da conversa marcada com Kassio Nunes Marques. No diálogo, o deputado afirmou que enviaria material antes da reunião por vídeo.
A fala foi citada na decisão que autorizou as diligências e integra o material analisado pela Polícia Federal. Para os investigadores, ela reforça a hipótese de que o parlamentar se apresentava como interlocutor direto perante o STF.
A investigação também observa que as advogadas acompanhavam as consequências dos contatos mencionados por Cezinha. Esse encadeamento de mensagens é tratado como indício pela PF e pela decisão judicial.
O caso seguirá sob apuração, com análise do material recolhido nas buscas autorizadas pelo STF. As suspeitas relatadas pela PF ainda dependem do andamento da investigação e de eventual responsabilização judicial.


