IAC interrompe dez programas de melhoramento genético por falta de pesquisadores

Levantamento da APqC aponta redução das equipes, ameaça a bancos de germoplasma e mantém sete linhas sob responsabilidade de apenas um cientista

Da
Redação
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O IAC mantém áreas experimentais e bancos de germoplasma usados no desenvolvimento de variedades agrícolas.
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O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) interrompeu, nas últimas décadas, dez programas de melhoramento genético de culturas agrícolas por falta de pesquisadores, segundo levantamento da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC). A redução das equipes atingiu linhas ligadas a arroz, algodão, soja, trigo e outras culturas.

O Centro de Grãos e Fibras do instituto, vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, conta atualmente com sete cientistas. Além disso, outras sete linhas de pesquisa são conduzidas por apenas um pesquisador, de acordo com a associação.

IAC perdeu dez linhas de pesquisa

Os programas interrompidos estavam relacionados ao desenvolvimento de novas cultivares, à conservação de linhagens e à multiplicação de variedades agrícolas. Esse trabalho também abastece e preserva os bancos de germoplasma mantidos pelo instituto.

O levantamento da APqC relaciona dez culturas cujas pesquisas de melhoramento foram interrompidas:

Programas de melhoramento interrompidos
Cultura Situação apontada
Arroz Programa interrompido
Crotalária Programa interrompido
Algodão Programa interrompido
Mamona Programa interrompido
Girassol Programa interrompido
Gergelim Programa interrompido
Aveia Programa interrompido
Trigo Programa interrompido
Triticale Programa interrompido
Soja Programa interrompido

Fonte: Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC)

Segundo a APqC, a redução do quadro ocorreu principalmente após aposentadorias e falecimentos de pesquisadores, sobretudo especialistas em melhoramento genético, sem reposição equivalente. Três profissionais também deixaram o IAC para trabalhar na Embrapa.

Pesquisadores acumulam sete programas

Além das dez linhas interrompidas, sete programas continuam em atividade com apenas um pesquisador responsável. A relação inclui adubos verdes, milho, milho-pipoca, grão-de-bico, sorgo, sorgo forrageiro e vassoura.

De acordo com a APqC, algumas dessas linhas são mantidas apenas para a produção de sementes. A entidade afirma, no entanto, que essa atividade não garante a continuidade da pesquisa de melhoramento sem um especialista dedicado.

A associação atribui parte da dificuldade de retenção à diferença de remuneração entre as carreiras de pesquisa. Também critica mudanças recentes na carreira dos pesquisadores científicos paulistas, estabelecidas pela Lei Complementar nº 1.435/2025.

A norma, em vigor desde dezembro de 2025, alterou a estrutura da carreira, extinguiu o Regime de Tempo Integral, modificou a remuneração e ampliou de seis para 18 os níveis de progressão funcional. Segundo a APqC, parte das mudanças ainda depende de regulamentação.

Bancos de germoplasma enfrentam riscos

Os bancos de germoplasma reúnem materiais genéticos que podem ser usados no desenvolvimento de variedades mais resistentes a doenças, pragas, seca e temperaturas elevadas. Algumas linhagens preservadas pelo IAC já não estão disponíveis comercialmente.

A conservação exige trabalho contínuo. As sementes precisam ser levadas periodicamente ao campo para multiplicação e renovação, porque a capacidade de germinação diminui com o tempo.

No milho, determinadas linhagens exigem isolamento de áreas e polinização manual para evitar cruzamentos indesejados. A APqC afirma que a falta de pesquisadores provocou a perda de germoplasma de girassol após a morte da cientista responsável pelo programa.

Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC, afirmou que os bancos não funcionam como depósitos estáticos. A manutenção dos acervos depende de pesquisadores e técnicos especializados para avaliar, renovar e preservar os materiais genéticos.

Alerta sobre equipes surgiu em 2009

A redução do quadro do IAC já havia sido apontada em um relatório técnico elaborado pela direção do instituto em agosto de 2009. O documento alertava para o risco de perda de capacidade científica caso as aposentadorias não fossem acompanhadas por novas contratações.

Naquele ano, o IAC tinha 197 pesquisadores. O relatório estimava uma redução de cerca de 39% em cinco anos e de 79% em dez anos, considerando as aposentadorias previstas.

O Centro de Grãos e Fibras aparecia entre as unidades em situação mais crítica. Em 2009, a unidade tinha 22 pesquisadores, depois da saída de 15 profissionais entre 2005 e 2008. Nove deles poderiam se aposentar ainda naquele ano.

O documento defendia a contratação de especialistas para áreas como arroz, trigo e outros cereais de inverno, soja, algodão, amendoim e melhoramento de grãos e fibras tolerantes a estresses climáticos. Dezessete anos depois, o centro conta com sete cientistas, segundo o levantamento da APqC.

Para a associação, a recomposição das equipes é necessária para manter programas construídos ao longo de décadas, além de preservar a capacidade de resposta da agricultura a mudanças climáticas, pragas e doenças.

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