A NotCo vendeu sua operação no Brasil ao grupo de investimentos Ferrara, em mais um movimento de redução da presença direta da foodtech chilena na América do Sul. O valor da transação não foi divulgado.
A transferência ocorre menos de dois meses depois de a companhia anunciar a venda de seus negócios na Argentina e no Uruguai à Molinos Río de la Plata, empresa argentina controlada pela família Pérez Companc. Com isso, três mercados sul-americanos deixaram de ser administrados diretamente pela NotCo em poucos meses.
Ferrara assume a operação brasileira
A Ferrara é um grupo brasileiro de investimentos com atuação na indústria de alimentos e portfólio de marcas naturais no Brasil e nos Estados Unidos. A nova estrutura deverá combinar a operação da NotCo com o conhecimento local e os demais negócios da compradora.
Segundo a empresa, a mudança pode ampliar a distribuição e a escala da marca no mercado brasileiro. A estratégia também transfere para um grupo local parte das atividades necessárias para comercializar os produtos no país.
A operação brasileira tinha peso relevante na expansão internacional da NotCo. A companhia chegou ao Brasil há cerca de sete anos e transformou o mercado nacional em um dos principais destinos de seu crescimento fora do Chile.
Brasil ganhou importância para a NotCo
A chegada ao país marcou uma etapa importante da expansão da empresa. Em uma publicação nas redes sociais reproduzida pelo jornal chileno La Tercera, o CEO e cofundador Matías Muchnick relembrou uma reunião em São Paulo que antecedeu a entrada dos produtos da companhia em diferentes regiões brasileiras.
O Brasil também se tornou relevante no segmento de bebidas vegetais. Segundo informações publicadas pelo portal Startup Researcher, o NotMilk alcançou a segunda posição entre as marcas nacionais da categoria, de acordo com a própria NotCo.
A companhia construiu no país um portfólio de alimentos plant-based, expressão usada para produtos feitos à base de plantas. Para desenvolver suas fórmulas, a empresa utilizou inteligência artificial como parte de sua proposta tecnológica.
Vendas aceleram o recuo internacional
A venda brasileira se soma a uma sequência de mudanças na presença internacional da NotCo. Em junho de 2026, a empresa anunciou a transferência das operações da Argentina e do Uruguai para a Molinos Río de la Plata.
Antes disso, em fevereiro de 2025, a companhia fechou seu escritório em Nova York e transferiu as operações dos Estados Unidos e do Canadá para a Kraft Heinz. O acordo permitiu que os produtos fossem comercializados nesses mercados com apoio da estrutura de distribuição da gigante de alimentos.
A NotCo também teria encerrado a operação no México, sem comprador. Publicações especializadas que citaram informações do Diario Financiero relacionaram a saída a resultados abaixo do esperado, mas essa versão não foi confirmada oficialmente pela empresa.
Chile concentra gestão direta
Com as transferências anunciadas, o Chile passa a ser o principal mercado de alimentos administrado diretamente pela NotCo. A companhia, no entanto, vem alterando o centro de sua estratégia empresarial.
O movimento reduz a estrutura própria da empresa em mercados importantes. Em vez de manter equipes e operações diretas em diferentes países, a NotCo passa a contar mais com parceiros locais para distribuição e comercialização.
Esse desenho permite que grupos com conhecimento de cada mercado assumam atividades operacionais. Ao mesmo tempo, a NotCo preserva a possibilidade de atuar por meio de seus produtos, marcas e tecnologias.
Empresa reposiciona negócio em tecnologia
A mudança não se limita à venda de operações nacionais. A NotCo tenta deixar de ser vista principalmente como uma fabricante de alimentos à base de plantas e busca se posicionar como uma empresa de tecnologia para a indústria de bens de consumo.
O principal recurso dessa estratégia é a plataforma de inteligência artificial Giuseppe. A ferramenta foi desenvolvida para apoiar empresas na criação e na reformulação de produtos, no desenvolvimento de fórmulas e na aceleração de processos de pesquisa e desenvolvimento.
Em seu próprio site, a companhia se apresenta como uma plataforma de IA para a indústria de bens de consumo. As ferramentas descritas abrangem etapas que vão da geração de ideias ao desenvolvimento e à validação de fórmulas.
Novo modelo reduz estruturas próprias
O reposicionamento altera a lógica econômica da NotCo. A empresa pode licenciar sua tecnologia e trabalhar com grandes fabricantes e distribuidores locais, em vez de sustentar estruturas próprias de produção, distribuição, marketing e vendas em vários países.
As transações no Brasil, na Argentina e no Uruguai refletem essa mudança de modelo. Nesses mercados, a operação dos produtos passa a ficar sob responsabilidade de grupos com atuação local ou regional.
A NotCo foi fundada em 2015 por Matías Muchnick, Karim Pichara e Pablo Zamora. A empresa ganhou notoriedade ao usar inteligência artificial para desenvolver alimentos vegetais com características semelhantes às de produtos de origem animal.
A companhia chegou a ser avaliada em mais de US$ 1,5 bilhão e se tornou um dos primeiros unicórnios do setor de alimentos na América Latina. Entre seus investidores esteve a Bezos Expeditions, empresa de investimentos de Jeff Bezos.


