O avanço dos Houthis no Iêmen, com a captura da cidade portuária de Mocha na quinta-feira (10) e da Ilha Perim na sexta-feira (11), elevou a pressão sobre a navegação no Mar Vermelho. As ações também abriram uma troca de acusações entre autoridades e fontes ligadas às forças iemenitas, à Arábia Saudita e aos Estados Unidos.
Os Houthis são apoiados pelo Irã, segundo o material. Com as duas conquistas na costa oeste iemenita, o grupo passa a ter novas posições para movimentar embarcações e lançar ataques perto do estreito de Bab el-Mandeb, passagem marítima que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e integra a rota do Canal de Suez.
Houthis tomam Mocha e Ilha Perim
Uma fonte iemenita sênior ligada às forças militares do país afirmou que os pedidos por cobertura aérea começaram na manhã de quinta-feira, durante o avanço houthi em direção a Mocha. Segundo essa fonte, o Comando Central dos Estados Unidos, o Centcom, informou que acompanhava a situação e que o apoio aéreo saudita chegaria.
A mesma fonte relatou, porém, que esse suporte não foi enviado e que Mocha caiu. Horas depois, na sexta-feira, os Houthis capturaram a Ilha Perim, ativo costeiro situado na entrada do Mar Vermelho.
A ilha divide o estreito de Bab el-Mandeb em dois canais. Por isso, sua captura ganhou peso estratégico na escalada regional, já que a passagem é usada pelo comércio global e pelo transporte de petróleo.
Controle amplia risco no estreito
O estreito de Bab el-Mandeb é menos importante para os mercados de energia do que o estreito de Ormuz, mas transporta mercadorias essenciais e milhões de barris de petróleo por dia. Além disso, a Arábia Saudita passou a direcionar parte de suas exportações por essa rota para contornar Ormuz, conforme o material.
Amr Al-Bidh, principal dirigente do Conselho de Transição do Sul do Iêmen, avaliou que os Houthis podem restringir a passagem sem recorrer necessariamente a armamentos sofisticados. O grupo que ele dirige já combateu tanto os Houthis quanto forças apoiadas por Riad e defende a criação de um Estado independente no sul iemenita.
Na avaliação de Al-Bidh, essa vantagem tende a permanecer com os Houthis. A nova posição costeira, portanto, cria condições para que o grupo amplie sua capacidade de operar no Mar Vermelho.
Aliados trocam acusações pela derrota
A queda rápida de Mocha provocou críticas entre parceiros dos Estados Unidos. Uma fonte regional atribuiu o revés a falhas de liderança política e a decisões tardias em Riad, além da ausência de ataques aéreos das forças apoiadas pela Arábia Saudita durante o avanço.
Por outro lado, Mohammed al-Basha, analista de risco que já assessorou o governo americano e o setor privado em temas ligados à Península Arábica, afirmou que as divisões entre lideranças iemenitas também enfraqueceram a defesa. Segundo ele, a coalizão anti-Houthi não tem coesão política nem uma estrutura unificada de comando e controle.
Al-Bidh também responsabilizou a estratégia saudita. Ele disse que a saída de forças dos Emirados Árabes Unidos do país, em janeiro, deixou uma lacuna que a Arábia Saudita não preencheu com novos contingentes.
Forças iemenitas relatam efetivo reduzido
Uma fonte ocidental com conhecimento das operações afirmou que combatentes houthis encontraram em Mocha batalhões iemenitas muito enfraquecidos. De acordo com esse relato, as listas de pessoal continham nomes de pessoas que recebiam salários, embora não integrassem efetivamente as unidades.
Essa fonte estimou que a força real disponível correspondia a cerca de 20% do efetivo registrado formalmente. O quadro teria reduzido a capacidade de resistência no momento da ofensiva.
O material também relata que os Emirados Árabes Unidos retiraram suas tropas remanescentes do Iêmen após um pedido saudita, em meio a uma disputa entre os dois países. Sem reposição desses postos e bases, as forças locais ficaram mais expostas, segundo as fontes ouvidas.
EUA priorizam navegação no Mar Vermelho
Uma fonte familiarizada com o assunto afirmou que o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman conversou duas vezes com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na quinta-feira e pediu ataques contra os Houthis. Segundo esse relato, Trump recusou a intervenção.
Em resposta sobre os contatos, a Casa Branca declarou que os Estados Unidos se concentram na proteção de interesses centrais de segurança nacional, incluindo a liberdade de navegação no Mar Vermelho. O governo americano também informou manter diálogo com a Arábia Saudita e o governo da República do Iêmen sobre estabilidade regional.
O Centcom recusou comentar questões operacionais. Duas fontes familiarizadas com o tema disseram que o chefe do comando, almirante Brad Cooper, estava na Arábia Saudita na quinta-feira para reuniões de coordenação.
Avanço pode deslocar combates para leste
Segundo o material, mais de 100 assessores militares americanos foram enviados à Arábia Saudita para apoiar o reino em atividades de inteligência e seleção de alvos. Um oficial americano ouvido estimou em aproximadamente 200 o total de militares dos EUA no país.
Esses profissionais atuariam em um comando conjunto criado nas últimas semanas, após sinais de maior apoio iraniano aos ataques houthis. Ao mesmo tempo, as conquistas de Mocha e Perim deram ao grupo novos pontos para lançar embarcações e ataques.
Al-Basha afirmou que imagens de satélite e fotografias de fontes abertas indicavam mobilização houthi e projetou um movimento para o leste. Já um assessor do líder supremo do Irã classificou, em publicação na rede X, o avanço na costa oeste do Iêmen como uma vitória clara.


