Os Houthis do Iêmen intensificaram a pressão sobre a navegação no estreito de Bab al-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, uma passagem relevante para o petróleo do Oriente Médio e para o comércio global. Segundo informações atribuídas a fontes do governo iemenita, o grupo capturou nas últimas 48 horas a cidade portuária de Mocha e a ilha de Perim, situada no centro do gargalo marítimo.
O risco ganhou peso porque o estreito passou a funcionar como rota alternativa para exportações sauditas depois do fechamento efetivo do vizinho estreito de Ormuz no conflito entre Estados Unidos e Irã. Com as duas passagens sob tensão, refinarias e transportadoras enfrentam atrasos, fretes mais altos e maior disputa por cargas de petróleo.
Bab al-Mandeb conecta o Mar Vermelho
Bab al-Mandeb fica entre o Iêmen e Djibuti, na entrada do Mar Vermelho. A estreita passagem dá acesso à rota que segue pelo Canal de Suez e conecta mercados da Europa, da Ásia e do Oriente Médio.
O estreito já era uma artéria do comércio mundial antes da crise atual. Contudo, sua importância aumentou após a interrupção da navegação pelo estreito de Ormuz, por onde transitavam cerca de 20 milhões de barris diários de petróleo antes da guerra.
Esse volume representava aproximadamente um quinto da oferta mundial, de acordo com os dados citados na análise. Por isso, a limitação simultânea das duas rotas reduz as opções logísticas dos exportadores da região.
Arábia Saudita redireciona exportações
Depois do fechamento de Ormuz, a Arábia Saudita passou a usar seu oleoduto de leste a oeste para levar petróleo bruto até Yanbu, porto saudita localizado no Mar Vermelho. A partir dali, os navios seguiam em direção a Bab al-Mandeb.
No pico desse redirecionamento, Yanbu exportava cerca de 4,5 milhões de barris por dia. Desse total, aproximadamente 3 milhões de barris diários deixavam a região pela passagem entre o Iêmen e Djibuti, segundo Richard Bronze, cofundador da consultoria Energy Aspects.
O Bab al-Mandeb era uma tábua de salvação. Perder essa tábua de salvação serviu como um alerta para o mercado de petróleo sobre como a situação atual é insustentável”
Richard Bronze, cofundador da Energy Aspects
Entretanto, Bronze afirmou que o fluxo saudita por Bab al-Mandeb caiu para cerca de 400 mil barris diários em agosto diante das ameaças dos Houthis. Após a escalada recente, ele disse que o volume ficou ainda menor.
Controle militar amplia riscos na passagem
Os Houthis, apoiados pelo Irã, ameaçam a navegação no estreito há semanas, conforme a análise. A movimentação abre uma nova frente no conflito entre Teerã e Washington, que entrava no sétimo mês no período relatado.
A captura de Mocha e de Perim, reportada por fontes do governo iemenita, elevou a preocupação sobre o controle de pontos estratégicos próximos à passagem marítima. A ilha de Perim fica no meio do estreito e, dessa forma, tem posição sensível para o tráfego naval.
Na quinta-feira, a notícia sobre a tomada de posições no Mar Vermelho contribuiu para uma forte reação do mercado de petróleo. O Brent e o WTI avançaram mais de 7%, para US$ 108 e US$ 103 por barril, respectivamente, os maiores níveis desde maio.
Navios buscam desvios mais longos
Para evitar Bab al-Mandeb, algumas cargas destinadas à Ásia precisam fazer um percurso bem mais extenso. A rota descrita passa pelo Canal de Suez, cruza o Mediterrâneo, desce pela costa oeste africana e contorna o sul do continente antes de atravessar o oceano Índico.
Esse desvio acrescenta cerca de um mês ao transporte, além de elevar as despesas com combustível, seguro e remuneração das tripulações. Portanto, o impacto não se limita ao petróleo: a navegação comercial também absorve custos e atrasos adicionais.
O setor já lidava com esse cenário desde o fim de 2023, quando os Houthis começaram a atacar embarcações comerciais na região em retaliação à guerra de Israel em Gaza. Desde então, empresas marítimas têm recorrido com mais frequência a rotas alternativas.
Cada navio que passa por lá… representa um alvo em potencial”
Peter Sand, analista-chefe da Xeneta
Travessias pelo estreito diminuem
Peter Sand, analista-chefe da empresa de dados de fretes Xeneta, estimou que o número de embarcações que cruzam Bab al-Mandeb caiu entre 60% e 70% desde o início dos ataques no fim de 2023.
Nos dois dias posteriores à intensificação dos combates, as travessias recuaram mais 46%, segundo Sand. Ainda assim, ele avaliou que o movimento não deve cair a zero, porque companhias de navegação têm experiência em operar em áreas de risco elevado.
A continuidade de alguns trajetos, porém, não elimina a exposição das embarcações. Para transportadoras, seguradoras e tripulações, cada passagem exige a ponderação entre o custo do desvio e a ameaça de navegar por uma zona sob pressão militar.
Alta do petróleo pressiona a inflação
Johannes Rauball, analista sênior de petróleo bruto da Kpler, atribuiu a escalada acima de US$ 100 por barril a uma combinação de interrupções no Mar Vermelho, cortes sauditas de produção e ataques ucranianos contra infraestrutura energética russa.
Segundo ele, a falta de uma solução rápida e a perspectiva de continuidade dos transtornos levam refinarias a disputar volumes adicionais de petróleo bruto. Essa procura maior ajuda a sustentar a alta das cotações internacionais.
O efeito alcança combustíveis como o diesel, usado por caminhões, tratores, trens de carga e outros veículos comerciais. Nos Estados Unidos, o preço do diesel subiu mais de 50% desde o começo da guerra e ultrapassou US$ 6 por galão na sexta-feira, segundo dados da AAA citados na análise.
Custos maiores de energia também alimentam a inflação nas principais economias. Ao mesmo tempo, a alta de preços aumenta o temor de novas elevações de juros, que podem encarecer empréstimos para consumidores.


