O ex-chefe de supervisão do Banco Central Belline Santana disse, em depoimento à Polícia Federal, que idealizou o projeto social Jovens Potentes após enfrentar episódios de racismo dentro da instituição. A iniciativa e Santana aparecem em procedimentos ligados ao caso Master.
Segundo o relato à PF, o programa buscava preparar jovens de periferias para o mercado digital. Documentos tornados públicos no âmbito das investigações também registram pagamentos atribuídos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, enquanto a defesa de Santana nega irregularidades.
Belline relata episódios de racismo
Na oitiva, Santana afirmou que enfrentou dificuldades relacionadas à questão racial ao longo de sua trajetória profissional. Ele disse que os episódios ocorreram inclusive no Banco Central, onde declarou ter exercido a chefia de departamento até janeiro.
O ex-chefe de supervisão relatou à PF uma situação em que chegou a uma reunião e foi perguntado se era o motorista de sua própria equipe. Segundo ele, esse tipo de tratamento se relacionava a um racismo estrutural e à dúvida sobre sua competência para ocupar aquele espaço.
Santana também declarou que o tema era conhecido por pessoas de seu convívio. No depoimento, ele associou essas experiências à decisão de desenvolver uma iniciativa voltada a jovens periféricos.
Projeto prevê capacitação digital
De acordo com a explicação dada por Santana à Polícia Federal, o Jovens Potentes foi concebido para capacitar jovens de periferias para o mercado digital. A proposta social é um dos pontos citados nos documentos do caso Master.
Eu já tive situação de chegar na reunião, a pessoa perguntar se eu era o motorista da minha equipe.”
Belline Santana, em depoimento à Polícia Federal
O ex-dirigente afirmou que não conhecia Leonardo Augusto Furtado Palhares, responsável pela consultoria jurídica do projeto. Segundo Santana, Palhares o procurou por telefone entre agosto e setembro de 2023.
Naquele contato, conforme o relato do ex-chefe do Banco Central, Palhares teria informado que Daniel Vorcaro estava entre as pessoas que indicaram seu nome para a iniciativa. A declaração integra o material colhido pela corporação.
PF apura pagamentos vinculados ao caso
À PF, Palhares declarou que Santana recebeu R$ 3,8 milhões de Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e dezembro de 2025 por sua participação no projeto. A informação consta do depoimento citado nos procedimentos relacionados ao caso Master.
Além disso, a investigação da Polícia Federal aponta pagamentos de até R$ 760 mil por mês ao ex-chefe de supervisão do Banco Central. Um relatório da corporação registra que a relação entre Santana e Vorcaro remonta, ao menos, a outubro de 2023.
Segundo esse relatório, naquele mês o então funcionário do Banco Central entrou em contato com o ex-banqueiro. Os pagamentos e a relação entre os envolvidos são objeto da apuração policial.
Eu, no lado pessoal, sempre enfrentei questões que a maioria das pessoas que estão no nosso ambiente não enfrenta, que é a questão racial.”
Belline Santana, em depoimento à Polícia Federal
STF amplia acesso aos procedimentos
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou na noite de quinta-feira, 10, o sigilo de 15 procedimentos ligados ao caso Master. A decisão atendeu a um pedido do presidente da Corte, Edson Fachin.
No dia seguinte, Fachin acolheu pedido da Procuradoria-Geral da República e determinou prazo de 24 horas para Mendonça retirar o sigilo total das investigações relacionadas ao Banco Master. Os documentos divulgados mencionam o nome de Santana em diferentes passagens.
A abertura dos procedimentos trouxe a público elementos das oitivas e relatórios da PF. O caso envolve, entre outros pontos, a relação de Santana com Vorcaro e a atuação ligada ao Jovens Potentes.
Defesa nega prática irregular
Em nota, a defesa de Belline Santana afirmou que a divulgação parcial de elementos do caso Master desvia o foco de relações e responsabilidades em níveis superiores e em diferentes instâncias. Os advogados classificaram a exposição dos relatórios como seletiva e fragmentada.
A defesa sustentou ainda que outros inquéritos afastam indicativos de prática irregular ou ilícita por parte do ex-chefe do Banco Central. A manifestação também contestou acusações de que Santana teria recebido vantagens ilícitas por serviços de concierge a Vorcaro.
Segundo os advogados, o depoimento de Leonardo Giunchetti à PF, na condição de testemunha, esclareceu que esse serviço não ocorreu por indicação ou pagamento de Vorcaro. A defesa acrescentou que Santana atuou como servidor de carreira dentro de suas atribuições e pediu análise integral dos elementos liberados.


