Documentário com inteligência artificial estreia em Veneza e amplia debate sobre o cinema

“Be Brave”, sobre o fundador da Diesel, combina entrevistas reais, arquivos e cenas recriadas digitalmente

Da
Redação
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“Be Brave” usa inteligência artificial para recriar momentos da vida de Renzo Rosso, fundador da Diesel.Reuters
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Um documentário produzido com ajuda de inteligência artificial estreou na quinta-feira (10) no Festival de Cinema de Veneza, na Itália. “Be Brave” retrata a trajetória de Renzo Rosso, fundador da marca de moda Diesel, e combina entrevistas reais, imagens de arquivo e sequências geradas digitalmente.

Dirigido por Francesco Carrozzini, o filme está em exibição fora de competição. A produção se tornou uma das primeiras a testar o uso amplo de inteligência artificial dentro do cinema comercial, em um momento de debate sobre criatividade, empregos e limites éticos na indústria do entretenimento.

O filme reconstrói a infância de Rosso

“Be Brave” apresenta períodos da vida de Rosso para os quais não existem registros em vídeo. Entre eles estão cenas de sua infância, recriadas com ferramentas de inteligência artificial a partir das informações usadas na produção.

Rosso cresceu na zona rural do nordeste da Itália e transformou a Diesel, inicialmente uma pequena empresa de jeans, em uma marca de moda reconhecida internacionalmente. A trajetória é apresentada como a de um empresário ligado à inovação e à disposição para assumir riscos.

O fundador da Diesel disse que não pretendia fazer um filme centrado em sua própria imagem. No entanto, segundo ele, a possibilidade de utilizar inteligência artificial contribuiu para que aceitasse participar do projeto.

A inteligência artificial aparece em todo o documentário

Carrozzini afirmou que a tecnologia foi usada ao longo de todo o documentário. Isso inclui sequências nas quais Rosso, em idade avançada, parece estar presente diante da câmera.

O diretor também informou que nenhum quadro de Rosso foi gravado especificamente para o filme. A produção, portanto, recorreu à recriação digital para construir momentos que não poderiam ser registrados por meio de novas filmagens tradicionais.

Além das cenas sobre a infância, o documentário reúne entrevistas com figuras da moda, como Anna Wintour e John Galliano. Essas conversas foram gravadas de fato, mas aparecem diante de cenários estilizados ou modificados.

Ver a mim mesmo quando criança falando me tirou lágrimas dos olhos.”

Renzo Rosso

As imagens misturam registros reais e cenas digitais

A combinação de materiais reais e sintéticos é um dos pontos centrais de “Be Brave”. As imagens geradas por inteligência artificial foram feitas para se integrar às entrevistas e aos arquivos, o que pode dificultar a distinção entre uma sequência registrada e outra recriada.

Essa escolha amplia o alcance narrativo do documentário, especialmente ao abordar períodos sem fotografias ou vídeos disponíveis. Ao mesmo tempo, ela coloca em discussão como o público identifica a origem de uma imagem apresentada como parte de uma história real.

O uso da tecnologia não substitui as entrevistas presenciais que aparecem no filme. Elas continuam baseadas em conversas efetivamente gravadas, enquanto os recursos digitais atuam na reconstrução visual de passagens da biografia de Rosso.

O debate sobre empregos chega ao festival

O impacto da inteligência artificial sobre a criatividade e os empregos do entretenimento esteve entre os principais temas discutidos em Veneza. Cineastas e atores, incluindo George Clooney, alertaram para os riscos associados à rápida evolução da tecnologia.

Lorenzo Mieli, produtor de “Be Brave”, reconheceu as preocupações, mas defendeu que a indústria participe do debate e se envolva com as ferramentas digitais. Para ele, rejeitar a tecnologia de forma geral não seria o caminho adotado pelo setor.

O caso do documentário reúne, assim, duas posições presentes no festival: a busca por novas possibilidades de produção e o receio de que os recursos digitais afetem profissionais responsáveis por criar, interpretar e registrar imagens.

Rosso defende o papel dos artistas

Rosso se descreveu como entusiasta da tecnologia, mas rejeitou a ideia de que ela possa substituir estilistas e outros artistas. Sua avaliação mantém os seres humanos no centro do processo criativo, mesmo com o avanço das ferramentas digitais.

A relação pessoal com as cenas recriadas também aparece no depoimento do empresário. Ao ver uma representação de si mesmo quando criança, ele relatou ter se emocionado, porque não possuía imagens daquele período da vida.

“Be Brave” permanece em cartaz fora da competição do Festival de Cinema de Veneza, que termina no sábado (12). A exibição coloca o documentário no centro de uma discussão que envolve tanto a linguagem cinematográfica quanto o futuro do trabalho artístico.

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