Bunker recebeu 15 minutos e meio de aplausos na estreia no Festival de Cinema de Veneza, nesta terça-feira (8), e provocou forte emoção em Penélope Cruz e Javier Bardem. O casal, que também é parceiro na vida real, acompanhou a reação do público durante a sessão do filme.
O longa dirigido por Florian Zeller ficou perto de alcançar uma das maiores ovações da história recente do festival. Em 2024, O Quarto ao Lado, de Pedro Almodóvar, recebeu 17 minutos de aplausos em Veneza.
Bunker emociona o público em Veneza
Durante a ovação, Cruz beijou Bardem e chorou diante da recepção ao filme. A produção estreou na mostra competitiva do festival italiano, que reúne obras em disputa pelo Leão de Ouro.
A reação colocou Bunker entre os filmes que mais mobilizaram o público em pé em uma edição recente do evento. A diferença para a marca alcançada por O Quarto ao Lado foi de um minuto e meio.
Além da recepção calorosa, a presença dos dois atores chamou atenção por reunir um casal conhecido do cinema internacional em uma história marcada por conflitos de poder, isolamento e relações familiares.
O filme mostra um abrigo de luxo
Bunker acompanha um arquiteto renomado contratado para projetar um abrigo de luxo no Havaí. O cliente é um bilionário do setor de tecnologia que acredita que a sociedade está próxima de um colapso.
O projeto, apresentado como um refúgio de sobrevivência, passa a influenciar o arquiteto. Enquanto ele se envolve cada vez mais com a construção, o casamento do personagem enfrenta tensões.
Ao mesmo tempo, uma disputa aparentemente pequena com um vizinho ganha contornos ameaçadores. A trama usa esse conflito para ampliar a discussão sobre segurança, privilégio e convivência social.
Florian Zeller critica o isolamento
Zeller afirmou que a ideia do filme surgiu depois de ler reportagens sobre um empresário que estaria construindo um refúgio secreto. O diretor francês transformou esse ponto de partida em uma reflexão sobre os efeitos do isolamento.
Pouquíssimas pessoas são donas de quase tudo. Elas são donas da nossa privacidade, dos nossos endereços de e-mail, das plataformas nas quais nos comunicamos.”
Florian Zeller, diretor de Bunker
Segundo ele, a contradição central está em um homem que construiu sua fortuna com a promessa de conectar pessoas e, ao mesmo tempo, planeja uma forma de se afastar do restante do mundo.
O cineasta também relacionou a história ao modo como as pessoas consomem serviços e mantêm relações por meio de telas. Para ele, essa dinâmica cria uma espécie de abrigo invisível, ainda que não se trate de um bunker físico.
A produção questiona a concentração de poder
O filme também apresenta uma crítica ao sistema econômico em que poucas pessoas concentram grande influência. A narrativa associa o abrigo privado à ideia de que uma minoria pode controlar recursos e decisões que afetam a sociedade.
Zeller citou, entre os temas envolvidos, o controle sobre a privacidade, os endereços de e-mail e as plataformas usadas para comunicação. Dessa forma, Bunker amplia o conflito individual e o conecta a uma discussão sobre poder tecnológico.
Penélope Cruz disse que essa dimensão política e social foi uma das razões que a aproximaram do projeto. Para a atriz, a velocidade dos acontecimentos atuais reduz o tempo disponível para reação e reflexão.
Cruz e Bardem exploram o casal central
A escalação de Cruz e Bardem acrescentou uma camada particular ao filme. Zeller avaliou que a presença de um casal real poderia criar uma fronteira menos definida entre a experiência dos intérpretes e a ficção.
Bardem, no entanto, afirmou que não levou elementos de seu próprio casamento para a composição do personagem. A produção procurou explorar a dinâmica dramática prevista pelo roteiro, sem transformar a relação dos atores em base declarada da história.
Cruz observou que o trabalho também permitiu aos dois falar em espanhol dentro do filme, como fazem na vida privada. Fora desse núcleo, os personagens alternam para o inglês ao se relacionar com o mundo exterior.
Bunker disputa o Leão de Ouro
Bunker integra a seleção de 21 filmes que concorrem ao Leão de Ouro do Festival de Veneza. O prêmio será entregue no sábado, ao fim da programação competitiva.
A estreia com 15 minutos e meio de aplausos fortaleceu a visibilidade do longa antes da decisão do júri. Ainda assim, a ovação representa a reação do público presente à sessão e não determina o resultado da premiação.
Zeller chega à competição depois de conquistar o Oscar de melhor roteiro adaptado por Meu Pai, em 2021. Em Bunker, ele volta a tratar de relações humanas, mas combina o drama familiar com uma crítica à concentração de riqueza e influência.


