Exames de sangue de rotina podem conter sinais associados ao câncer colorretal de início precoce, segundo uma análise da Epic Research divulgada na quarta-feira (9). O estudo relacionou níveis baixos das enzimas hepáticas AST e ALT a uma maior probabilidade de diagnóstico em adultos com menos de 45 anos.
A análise, feita com dados de mais de 11 mil pessoas nos Estados Unidos, identificou uma associação, mas não demonstrou que as enzimas causem câncer. Por isso, especialistas afirmam que o resultado não muda as recomendações de rastreamento nem indica colonoscopia antecipada apenas por causa de um resultado laboratorial baixo.
A análise associou enzimas ao diagnóstico precoce
Os pesquisadores avaliaram adultos de 18 a 44 anos que fizeram o primeiro exame de rastreamento para câncer colorretal entre 2017 e 2025. Todos também haviam realizado pelo menos um teste de AST ou ALT nos três anos anteriores.
Entre os participantes, os pesquisadores compararam aqueles diagnosticados com câncer colorretal no prazo de um ano após o rastreamento com pessoas que não receberam o diagnóstico. A pesquisa usou como referência níveis de AST e ALT entre 14 e 29 unidades por litro.
Pessoas com AST abaixo de 14 apresentaram probabilidade 65% maior de diagnóstico precoce em comparação com o grupo de referência. Para ALT abaixo de 14, a probabilidade foi 68% maior.
Em sentido oposto, níveis de AST a partir de 30 foram associados a uma probabilidade 22% menor de diagnóstico. Para ALT de 30 ou mais, a redução associada foi de 29%.
Os resultados não provam causa ou prevenção
A análise da Epic Research não foi publicada em periódico científico com revisão por pares, conforme o material divulgado. Além disso, o desenho do estudo não foi feito para explicar por que níveis baixos das enzimas apareceram associados ao diagnóstico.
AST e ALT costumam ser observadas porque níveis elevados podem sinalizar lesão, inflamação ou doença no fígado. O resultado descrito na pesquisa chamou atenção justamente por apontar uma relação estatística na direção oposta à preocupação clínica mais habitual.
Segundo Kersten Bartelt, clínico e pesquisador da Epic Research, níveis baixos podem refletir fatores como menor massa muscular, fragilidade ou aspectos nutricionais. Ainda assim, a análise não permite determinar qual desses fatores teria relação com os casos observados.
Os pesquisadores também avaliaram triglicerídeos, colesterol e potássio. Nenhum desses exames laboratoriais de rotina apresentou associação com o câncer colorretal de início precoce na análise.
Especialistas recomendam evitar conclusões individuais
O gastroenterologista Marc Fenster, do Episcopal Health Services, em Nova York, classificou o resultado como um sinal que pode gerar novas hipóteses. Para ele, porém, a pesquisa não estabelece AST ou ALT baixos como fatores de risco para a doença.
Fenster afirmou que o achado não deve mudar a avaliação de um paciente individual. A presença de um resultado baixo, isoladamente, não significa que a pessoa desenvolverá câncer colorretal ou precise alterar sua estratégia de rastreamento.
O especialista também citou fatores estudados no aumento dos casos entre adultos mais jovens, como histórico familiar, genética, obesidade, saúde metabólica, alimentação, sedentarismo, microbioma, exposição a antibióticos e demora no reconhecimento de sintomas.
No entanto, esses fatores não explicam completamente o crescimento dos diagnósticos, segundo Fenster. Por isso, a associação encontrada pode orientar novas pesquisas, mas ainda não serve como critério clínico independente.
O câncer colorretal cresce entre adultos jovens
O aumento dos casos em pessoas mais jovens tem sido uma questão recorrente na medicina. Nos Estados Unidos, o câncer colorretal ultrapassou outros tipos e se tornou a principal causa de mortes por câncer entre pessoas com menos de 50 anos, segundo o material divulgado.
Apesar dessa tendência, o rastreamento regular para pessoas de risco médio começa, nos Estados Unidos, aos 45 anos. Pessoas com sintomas, histórico familiar ou outros fatores de risco podem iniciar a investigação mais cedo.
A análise incluiu adultos abaixo dessa idade porque parte deles já havia feito colonoscopia ou outro teste de rastreamento. Os pesquisadores observaram, contudo, que não estava claro por que todos os participantes realizaram esses exames.
Uma possibilidade levantada por Bartelt é que alguns tenham procurado atendimento por sintomas ou por condições que os colocavam em um grupo de maior risco. Essa característica precisa ser considerada ao interpretar os resultados.
O rastreamento segue baseado em avaliação clínica
A American Cancer Society passou a incluir, em maio, testes de rastreamento baseados em sangue entre as opções recomendadas para adultos com 45 anos ou mais e risco médio que não fizeram ou recusaram exames visuais e de fezes.
O teste citado pela entidade é o Shield, que não corresponde aos exames de sangue de rotina analisados pela Epic Research. Portanto, a descoberta sobre AST e ALT não equivale a um novo teste de rastreamento disponível para a população.
A colonoscopia continua considerada o padrão-ouro para o rastreamento. Além disso, um resultado positivo no Shield não fecha o diagnóstico: o paciente precisa realizar uma colonoscopia de acompanhamento em tempo adequado.
Por isso, a escolha do exame depende da idade, dos sintomas, do histórico familiar e de outros fatores avaliados pelo profissional de saúde. Um resultado laboratorial isolado não deve determinar a conduta por conta própria.
Novas pesquisas devem investigar o sinal
Os autores esperam que o estudo estimule pesquisas sobre os motivos pelos quais AST e ALT baixos apareceram associados ao câncer colorretal de início precoce. A análise identificou uma relação, mas não examinou os mecanismos biológicos por trás dela.
As enzimas podem variar entre as pessoas e mudar ao longo do tempo conforme atividade física, massa muscular, doenças ou uso de medicamentos. Dessa forma, um único resultado pode não representar todo o estado de saúde de um paciente.
Os dados também não sustentam a ideia de elevar artificialmente AST ou ALT para reduzir o risco de câncer. Alterar um número do exame sem compreender sua causa pode desviar a atenção de medidas de saúde mais amplas.
Enquanto novas evidências não surgem, especialistas defendem que a avaliação continue baseada em sintomas, histórico familiar, fatores de risco e recomendações de rastreamento. A pesquisa acrescenta uma possibilidade para investigação, não uma mudança imediata na prática médica.


