Açúcar em excesso eleva em 41% o risco de miopia infantil

Pesquisa internacional aponta que o consumo abusivo de doces e carboidratos refinados enfraquece as estruturas oculares em fase de crescimento.

Da
Redação
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O consumo excessivo de ultraprocessados e o uso prolongado de telas estão entre os principais fatores de alerta para a saúde ocular infantil.
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Um estudo recente publicado no British Journal of Nutrition aponta que o consumo abusivo de doces e carboidratos eleva em 41% o risco de desenvolvimento de miopia em crianças e adolescentes. A pesquisa, realizada com 2.473 participantes entre 12 e 18 anos, acende um alerta sobre os impactos da alimentação na saúde ocular das novas gerações. No Brasil, o problema ganha contornos ainda mais preocupantes devido à alta incidência de sobrepeso e obesidade infantil.

De acordo com o relatório de 2026 da Federação Mundial de Obesidade, o excesso de peso atinge 40% das crianças e adolescentes de até 18 anos no país. A situação é especialmente frequente entre populações de baixa renda, que enfrentam maior consumo de alimentos ultraprocessados ricos em carboidratos refinados e gorduras, fatores diretamente associados ao enfraquecimento das estruturas oculares durante a fase de crescimento.

Impacto da alimentação ocular

O oftalmologista Leônci Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier e membro fundador da ABRACMO, explica que a esclera — a parte branca do olho — funciona como o arcabouço estrutural do globo ocular. Quando há excesso de açúcar, carboidratos e ultraprocessados na dieta, ocorre uma redução significativa no fluxo sanguíneo e na oxigenação de todo o olho, incluindo a coroide, estrutura responsável por nutrir a esclera.

Esse déficit circulatório provoca reações prejudiciais no tecido ocular, como a menor produção de colágeno, alterações metabólicas e o aumento de enzimas degradantes. Como consequência, a esclera perde rigidez, torna-se mais maleável e facilita o crescimento excessivo do eixo do globo ocular, que é a principal característica física da miopia estabelecida.

Especialistas ressaltam, contudo, que o levantamento é observacional. Isso significa que ele não comprova uma relação isolada de causa e efeito sem a interferência de outros hábitos, embora reforce que nutrientes específicos e uma dieta equilibrada funcionam como importantes coadjuvantes na proteção da visão.

Exposição solar previne complicações

Além dos cuidados com a mesa, passar de uma a duas horas por dia exposto à luz solar pode ajudar a prevenir a progressão para a alta miopia, classificada acima de 6 dioptrias. Essa condição mais grave está associada a riscos severos na idade adulta, como glaucoma, descolamento de retina, catarata precoce, retinopatia miótica e degeneração macular.

O sol atua promovendo um efeito natural de enrijecimento, conhecido como crosslinking, na esclera. Esse processo natural ajuda a conter o alongamento descontrolado do olho. A eficácia da medida é tamanha que países como o Japão adotaram recentemente incentivos para recreios ao ar livre nas escolas, registrando quedas graduais nos índices de miopia infantil.

Identificar os sinais precoces da condição é fundamental para evitar o agravamento. Crianças míopes frequentemente apertam os olhos para enxergar à distância, aproximam-se excessivamente de telas, apresentam quedas no rendimento escolar, evitam esportes em grupo, caem com frequência ou sofrem com dores de cabeça ao fim do dia.

Uso de telas e visão

O tempo prolongado diante de celulares, tablets e computadores representa outro fator determinante de risco, sobretudo para crianças de até 8 anos, período em que o desenvolvimento visual está em fase crítica. O esforço visual contínuo para focar em objetos próximos gera espasmos nos músculos ciliares, provocando a chamada miopia acomodativa.

Diferente da miopia estrutural, a variação acomodativa decorre do estresse muscular e pode ser revertida com ajustes na rotina digital. Para minimizar o problema, os oftalmologistas recomendam a adoção da regra 20/20/20, que consiste em fazer uma pausa a cada 20 minutos de uso de telas para olhar fixamente para um ponto situado a seis metros de distância durante 20 segundos.

Essa alternância periódica de foco relaxa os músculos ciliares e restaura a capacidade natural de adaptação visual da criança. O acompanhamento com um especialista permanece indispensável, já que enxergar mal pode comprometer drasticamente o aproveitamento escolar dos estudantes.

Novas tecnologias de controle

A expansão global da miopia impulsionou o desenvolvimento de abordagens terapêuticas modernas que vão muito além dos óculos tradicionais. Atualmente, o mercado conta com lentes oftálmicas especiais, lentes de contato específicas e lentes ortoceratológicas, que promovem o aplainamento temporário da córnea durante o sono.

Essas tecnologias buscam atuar diretamente na contenção da progressão do problema, fazendo com que os raios luminosos focalizem corretamente sobre a retina, em vez de se formarem à frente dela. Em alguns casos, os tratamentos podem ser associados ao uso de colírios diluídos de atropina para maior eficácia clínica.

A adesão rigorosa ao tratamento é apontada pelos médicos como o principal diferencial para o sucesso terapêutico. O uso regular das lentes prescritas, aliado a consultas oftalmológicas semestrais e à moderação no uso de dispositivos eletrônicos, protege a visão infantil e previne sequelas visuais irreversíveis na vida adulta.

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