A compra de um SUV por R$ 102.190, paga integralmente em dinheiro por Karina Ferreira da Gama, levou a uma comunicação ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A informação consta na decisão do ministro Flávio Dino que autorizou buscas e apreensões em investigação sobre possíveis irregularidades no uso de emendas parlamentares.
A operação ocorreu em 13 de janeiro de 2025 e foi incluída no Relatório de Inteligência Financeira nº 146088, posteriormente analisado pela Polícia Federal. A comunicação, porém, decorre de uma exigência legal para vendas de veículos com valores em espécie acima de R$ 30 mil e, isoladamente, não estabelece crime ou irregularidade.
Compra de SUV gera comunicação ao Coaf
Segundo a decisão, Karina adquiriu o veículo por R$ 102.190, com o pagamento total feito em espécie. O valor ultrapassou o parâmetro que obriga revendedoras e concessionárias a informarem esse tipo de operação ao Coaf.
As comunicações buscam abastecer o sistema de prevenção à lavagem de dinheiro. Dessa forma, o órgão de inteligência financeira pode reunir dados sobre operações relevantes para eventual análise das autoridades.
A decisão registra que a obrigação de comunicar não equivale a uma conclusão sobre a origem do dinheiro nem sobre a ocorrência de ilícito. No curso do inquérito, a informação passou a compor o conjunto de elementos financeiros examinados pela PF.
Relatório reúne dados de investigados
O RIF nº 146088 concentrou informações sobre Karina Gama, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), a produtora Go Up Entertainment e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), além de outras pessoas e empresas sob investigação.
A Polícia Federal buscou no Coaf comunicações já existentes sobre os principais envolvidos. A finalidade era verificar se os dados financeiros corroboravam ou afastavam as hipóteses criminais analisadas no inquérito.
Ao todo, foram produzidos três relatórios de inteligência financeira. O primeiro tratou do núcleo envolvendo Karina, Mário Frias, a Go Up e o ICB; os demais incluíram empresas, fornecedores e outras pessoas citadas na apuração.
Os documentos permitiram aos investigadores observar repasses entre entidades e empresas, transferências a negócios relacionados, depósitos e saques em espécie. Ainda assim, os relatórios funcionam como apoio à investigação e devem ser confrontados com outras provas.
Produtora movimenta R$ 19 milhões
Além da aquisição do veículo, o relatório registrou movimentações da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse. Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, as contas da empresa movimentaram R$ 19.033.071.
Desse total, houve R$ 8,9 milhões em créditos e R$ 10 milhões em débitos em menos de dois meses, segundo a decisão. Entre as transações mencionadas está uma transferência única de R$ 750 mil feita pela NTT Brasil.
Esses dados integraram a análise da PF sobre as relações entre pessoas e empresas investigadas. A decisão não trata a movimentação financeira, por si só, como prova definitiva de irregularidade.
Os investigadores também identificaram Karina como proprietária de um BYD Song Plus híbrido, modelo 2025. A referência de preço usada na apuração, conforme a tabela Fipe citada pelos investigadores, era de R$ 184.858.
PF apura destino de emendas
A operação autorizada por Flávio Dino integra inquérito que apura possíveis irregularidades na destinação de recursos públicos originados de emendas parlamentares. Um dos focos é o repasse de R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil.
Segundo a investigação, o ICB aparece como o principal captador de recursos entre as entidades analisadas. A PF passou então a reconstruir o percurso dos valores recebidos pela instituição e as transferências para empresas recorrentes nas comunicações financeiras.
A apuração busca esclarecer se recursos públicos foram direcionados de forma irregular a empresas contratadas e se os serviços previstos nos contratos foram efetivamente prestados. Entre os crimes sob investigação estão peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e infrações ligadas a licitações.
As medidas autorizadas incluem buscas e apreensões contra diversos investigados. A decisão também permitiu a apreensão de dinheiro em espécie, veículos e outros bens de alto valor que eventualmente tenham relação com os fatos apurados.


