O dólar fechou em queda nesta terça-feira, recuando 0,49% e sendo cotado a R$ 4,977, ficando abaixo da marca de R$ 5 pela primeira vez desde o dia 18 de maio. O movimento de desvalorização da moeda americana ocorreu após a forte retração registrada na véspera, quando o primeiro pregão pós-eleições havia derrubado a cotação no maior recuo intradiário observado desde 2018.
A continuação do ajuste nos preços reflete a repercussão do resultado do primeiro turno da eleição presidencial. A disputa colocou o senador Flávio Bolsonaro (PL) na liderança, com 47,03% dos votos, seguido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que obteve 45,16%. Os dois candidatos avançaram para o segundo turno, marcado para o próximo dia 25 de outubro.
A perda de força do dólar também foi observada de maneira generalizada em relação a outras moedas globais. O índice DXY, que mede o desempenho americano ante uma cesta de moedas fortes, registrou recuo de 0,31% na mesma sessão, acompanhando o comportamento dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Investidores realizam lucros
O Ibovespa encerrou o dia em baixa de 0,54%, aos 205.783 pontos, em um movimento clássico de realização de lucros por parte dos investidores. A retração aconteceu após a expressiva valorização de 7,70% registrada na segunda-feira, quando o principal índice da bolsa brasileira alcançou 206.911 pontos, patamar histórico em termos reais e nominais.
Estrategistas do mercado financeiro apontam que a sessão foi marcada por uma correção natural de preços diante do otimismo exagerado da véspera. Enquanto os ativos locais digerem o cenário político, o desempenho anual da bolsa permanece positivo, acumulando alta de cerca de 28% no período, ao passo que a moeda norte-americana registra desvalorização acumulada de aproximadamente 9% no ano.
As negociações também foram influenciadas pelo comportamento dos juros futuros, que mantiveram a tendência de baixa iniciada após o pleito. No final da tarde, a taxa projetada para janeiro de 2028 estava em 12,590%, enquanto o contrato para janeiro de 2035 operava em 12,710%, demonstrando que os investidores continuam reprecificando o risco fiscal brasileiro.
Ações despencam forte
Entre os destaques negativos do pregão estiveram os papéis do Banco do Brasil, que fecharam em forte queda de 6,57%, cotados a R$ 24,60. A desvalorização expressiva ocorreu após o JPMorgan rebaixar a recomendação das ações da instituição financeira de neutro para abaixo da média, estabelecendo um preço-alvo de R$ 23 para o final de 2027.
O relatório do banco internacional apontou preocupações com a qualidade dos ativos e o aumento potencial da inadimplência no setor do agronegócio. Os analistas também destacaram que a queda na taxa de juros pode pressionar a margem financeira líquida da instituição, visto que o banco possui baixo custo de captação e excesso de liquidez que o favorecem em cenários de juros elevados.
Apesar da volatilidade em ativos específicos, a leitura geral dos analistas aponta para uma mudança estrutural na percepção do mercado em relação à economia brasileira. A expectativa de alternância de poder e de uma agenda fiscal mais rígida continua atraindo o interesse de investidores institucionais para o mercado de ações.
Exterior registra recordes
No exterior, os mercados acionários operaram com otimismo e os principais índices americanos renovaram recordes. O S&P 500 fechou em alta de 0,58%, aos 7.819 pontos, enquanto o índice tecnológico Nasdaq avançou 0,45%, atingindo 27.599 pontos, embalados pelo comportamento dos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano.
Os investidores internacionais também monitoraram de perto as cotações do petróleo, que oscilaram durante a sessão e registraram ganhos de 0,72%, cotados a US$ 101. A volatilidade da commodity esteve ligada a novos ataques do grupo iemenita houthi contra instalações aeroportuárias na Arábia Saudita, elevando temporariamente os temores de instabilidade na oferta global de energia.
As negociações geopolíticas seguiram no radar, com autoridades do Qatar informando que Estados Unidos e Irã mantêm conversas diplomáticas para tentar arrefecer os conflitos na região do Oriente Médio, enquanto o mercado de câmbio global refletia a fraqueza do índice DXY ante moedas fortes.
Eleições movimentam cenário
Na minha leitura, o ponto mais importante agora é que o mercado começa a sair da reação imediata ao resultado eleitoral e passa a tentar precificar o que pode vir depois.”
Leonardo Mendes, economista da Manchester Investimentos
A avaliação de analistas financeiros indica que o foco dos agentes econômicos agora se desloca para a formação de alianças partidárias, a articulação política para a composição do futuro Congresso Nacional e o detalhamento das propostas econômicas dos candidatos que disputam o comando do Palácio do Planalto.
Estrategistas ressaltam que a transição entre o resultado das urnas e a consolidação de uma agenda reformista exigirá monitoramento constante. Com o segundo turno marcado para o dia 25 de outubro, a volatilidade nos mercados brasileiros tende a ser ditada pelas novas pesquisas de intenção de voto e pelos debates políticos das próximas semanas.


