As condições do gramado da Vila Belmiro superaram o limite de vida útil recomendado e expõem um problema estrutural que se arrasta nos bastidores do Santos. O piso de jogo do estádio alvinegro deveria ter sido trocado há pelo menos quatro anos, conforme apontamentos da empresa responsável pela manutenção do campo, a World Sports.
Reformado pela última vez em março de 2012, o gramado excede amplamente o tempo máximo que um piso natural de futebol suporta, estimado em até dez anos. Com o esgotamento desse prazo, a tendência é a formação excessiva de matéria orgânica no solo, o que prejudica severamente o funcionamento do sistema de drenagem e deixa o campo vulnerável a falhas e acúmulo de água.
Para tentar atenuar os problemas recorrentes, o clube tem adotado medidas paliativas como fertilização, aeração e descompactação do solo. Esta última técnica foi apontada publicamente por jogadores como possível causadora de lesões musculares durante partidas oficiais disputadas na Vila Belmiro ao longo da atual temporada esportiva.
Troca por grama híbrida
Diante do desgaste acumulado, a diretoria santista decidiu que o gramado da Vila Belmiro e outros dois campos utilizados pelos profissionais no CT Rei Pelé precisarão passar por uma substituição completa. A escolha técnica foi pelo modelo híbrido, o mesmo utilizado na Neo Química Arena, que combina 95% de grama natural com fibras artificiais.
O gasto inicial estimado para a instalação do novo piso é de R$ 11,4 milhões. A expectativa da cúpula alvinegra é que a reforma seja custeada com recursos provenientes de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios de até R$ 100 milhões, voltado para bancar as obras gerais de modernização e retrofit do estádio histórico.
Apesar da necessidade urgente de intervenção, o clube esbarra na falta de recursos imediatos para arcar com o investimento. Prestadores de serviço da área relatam dificuldades financeiras e atrasos em repasses decorrentes do momento delicado administrado pela diretoria santista nos bastidores da instituição.
Crise financeira e passivo
O cenário de instabilidade no gramado reflete um desequilíbrio mais amplo nas contas do Santos. Parecer do Conselho Fiscal apresentado aos conselheiros apontou que o clube fechou o segundo trimestre com deficit contábil superior ao orçado e novas dívidas que elevaram o passivo total da instituição para a marca de R$ 1,2 bilhão.
A equipe também sofreu impactos financeiros recentes após a eliminação na Copa Sul-Americana, o que reduziu as receitas previstas com premiações continentais. Pesa ainda sobre a gestão a manutenção de uma folha salarial elevada, inflada por contratações recentes realizadas na última janela de transferências do futebol brasileiro.
Para conseguir retornar ao mercado de transferências e registrar novos atletas superando punições administrativas, a diretoria precisou recorrer a apoios externos, incluindo o auxílio da empresa NR Sports para quitar pendências internacionais junto à Fifa e derrubar o bloqueio de inscrições.
Acordos e obrigações pendentes
Além dos custos operacionais correntes, o clube assumiu compromissos parcelados de rescisão com ex-jogadores, como o acordo firmado com o volante Zé Rafael, cujo montante total ultrapassa a casa dos dezessete milhões de reais divididos em dezenas de prestações mensais assumidas pela gestão.
A diretoria também confirmou atrasos pontuais no repasse de direitos de imagem devidos ao elenco profissional, valores que superam dezenas de milhões de reais no balancete financeiro. Para abater parte das pendências correntes, os dirigentes comprometeram-se a utilizar recursos obtidos por meio de negociações de atletas formados na base.
As obrigações fiscais e trabalhistas também enfrentam períodos de retenção, com atrasos recentes no recolhimento de encargos como o FGTS. Enquanto busca alternativas de crédito e novos patrocínios, o clube tenta equilibrar as exigências esportivas com a reestruturação administrativa necessária para estancar o deficit acumulado.
Especialista detalha desgaste
Especialistas no setor apontam que a falta de atualizações tecnológicas no sistema de drenagem a vácuo da Vila Belmiro agrava a situação nos períodos de chuva intensa. O clube tenta conciliar o planejamento de melhorias estruturais com a pressão do calendário de competições e as cobranças da torcida.
A gestão alvinegra reconhece que a modernização completa do complexo esportivo é um passo indispensável para valorizar a marca institucional e atrair novos parceiros comerciais de peso. No entanto, o equacionamento do passivo bilionário continua sendo o principal obstáculo para viabilizar os investimentos planejados para os próximos anos.
Enquanto os projetos de reforma não saem do papel, a equipe técnica e os atletas seguem lidando com as limitações físicas do piso atual durante os treinamentos e jogos oficiais. A expectativa é que o debate sobre a infraestrutura ganhe novos capítulos nas próximas reuniões do Conselho Deliberativo do clube.


