A disputa pelo voto religioso nas redes sociais ganhou forte repercussão durante a corrida eleitoral, alterando a dinâmica estratégica dos principais candidatos ao Palácio do Planalto. Um relatório produzido pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque apontou que o campo progressista levou vantagem em uma intensa guerra de narrativas nas redes evangélicas. O conflito digital girou em torno de boatos envolvendo a figura de Nossa Senhora Aparecida e o candidato Flávio Bolsonaro, forçando a direita a adotar uma postura defensiva.
O levantamento intitulado Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral analisou postagens publicadas entre os dias 14 e 27 de setembro em um universo de 469 perfis digitais monitorados. Segundo a socióloga Andréa Laís, pesquisadora da Casa Galileia e doutora em ciências sociais, foi a primeira vez desde o início do acompanhamento, em junho, que a extrema-direita precisou responder a pautas impostas pela esquerda. A especialista destacou que lideranças políticas e religiosas bolsonaristas demonstraram forte preocupação com o impacto do episódio junto ao eleitorado.
O centro da polêmica envolveu a disseminação de uma notícia falsa de que Flávio Bolsonaro defenderia um projeto de lei para remover Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira nacional. Na realidade, a proposta original foi apresentada em 2007 pelo então deputado Victório Galli e acabou arquivada no ano seguinte, sem qualquer movimentação recente do candidato para reativá-la. A circulação do boato ganhou força após uma declaração dada por Flávio em agosto, quando afirmou que, se eleito, decretaria que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo.
Aliados reagem aos boatos
Diante da repercussão do boato entre eleitores católicos e evangélicos, aliados do candidato correram para desarmar a informação falsa nas redes sociais. Uma postagem em que Flávio nega a intenção de retirar o título da padroeira alcançou mais de 857 mil interações, contando com o apoio de parlamentares como o deputado Sóstenes Cavalcante. A defesa do grupo político também incluiu ataques à imprensa e denúncias sobre a existência de uma suposta guerra religiosa em curso na reta final da disputa.
Entre os episódios mais comentados pelos perfis conservadores esteve uma retratação veiculada pela GloboNews após um comentário sobre a preocupação de setores católicos com a mobilização evangélica em torno do antigo projeto de lei. Páginas de apoio a pautas conservadoras, como o perfil Assembleianos de Valor Oficial, interpretaram o episódio como uma manobra coordenada para afastar o eleitorado católico de Flávio Bolsonaro, realçando em contrapartida aparições públicas do candidato junto à imagem da santa.
A ofensiva digital gerou forte mobilização de lideranças religiosas de peso no país, que saíram em defesa da campanha e acusaram adversários de tentarem inflamar divisões sectárias. O Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil publicou uma carta aberta assinada por pastores conhecidos, incluindo Silas Malafaia, Cláudio Duarte, Teo Hayashi e Robson Rodovalho. O documento acusou apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva de espalhar informações falsas para atingir um oponente político e promover atritos entre católicos e evangélicos.
Esquerda explora o caso
Do outro lado do espectro político, perfis associados à esquerda, como a página Evangélicos com Lula, repudiaram o uso político da fé e defenderam a união entre os dois maiores segmentos cristãos do país. A estratégia buscou neutralizar o avanço da pauta conservadora e resgatar o histórico de diálogo entre líderes católicos e movimentos progressistas ao longo das últimas décadas.
O deputado federal André Janones também participou ativamente da disputa ao publicar vídeos nas redes sociais criticando a conduta da campanha adversária. Na gravação, o parlamentar relembrou episódios históricos envolvendo igrejas e citou declarações passadas de figuras ligadas ao conservadorismo para tentar enfraquecer o discurso de defesa dos valores cristãos empunhado pela direita.
A repercussão do caso evidenciou a sensibilidade do eleitorado religioso diante de temas simbólicos e culturais. Analistas apontam que a habilidade de controlar o fluxo de informações e desmentir boatos rapidamente tornou-se um diferencial decisivo para conter danos eleitorais em bases de apoio consideradas estratégicas para a disputa presidencial.
Monitoramento das redes sociais
O ecossistema digital analisado pelo relatório compreende centenas de contas influentes que moldam diariamente a opinião pública nos segmentos cristãos. O monitoramento quinzenal tem servido para mapear como temas morais, religiosos e ideológicos entram na pauta dos eleitores e influenciam o comportamento das bases partidárias.
A entrada de temas ligados à fé católica no debate evangélico demonstrou a volatilidade das alianças e o esforço contínuo das campanhas para evitar desgaste com eleitores moderados. A difusão rápida de boatos e a necessidade de respostas imediatas evidenciam a pressão enfrentada pelos candidatos em ambientes virtuais altamente polarizados.
As equipes de comunicação de ambas as frentes políticas intensificaram a vigilância sobre conteúdos virais, buscando antecipar-se a crises de imagem e proteger suas respectivas coalizões de ataques baseados em fatos distorcidos ou descontextualizados.
Avaliam impacto eleitoral
A eficácia real da manobra narrativa sobre o comportamento do eleitorado católico e evangélico nas urnas permanece sob análise e só poderá ser mensurada com precisão após a apuração oficial dos votos. Enquanto a esquerda buscou consolidar a imagem de desgaste do adversário entre católicos, a direita trabalhou intensamente para estancar a crise e reafirmar compromissos com a tradição religiosa nacional.
Especialistas em comunicação política ressaltam que episódios como o envolvendo a padroeira nacional refletem a centralidade dos valores religiosos na política brasileira contemporânea. A disputa pelas narrativas morais continua a pautar as agendas de campanha, exigindo das candidaturas um controle rígido sobre mensagens e posicionamentos públicos.
A polarização em torno de símbolos religiosos reforça o desafio das campanhas em transitar por múltiplos públicos sem perder o apoio de suas bases centrais, mantendo o ecossistema digital em constante estado de alerta até o encerramento do processo eleitoral.


