Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, revelam que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central, convidou o empresário para um encontro em sua residência. As conversas foram registradas entre novembro de 2023 e março de 2024, período em que a autoridade monetária mantinha sob sua supervisão as operações do sistema bancário nacional. A apuração detalha os bastidores das tratativas para a reunião no interior paulista.
Os registros indicam que o primeiro contato ocorreu em 21 de novembro de 2023, quando Vorcaro enviou uma mensagem a Campos Neto em tom formal. Na ocasião, o executivo solicitou uma agenda presencial e rápida para apresentar as frentes de trabalho e as perspectivas desenvolvidas pelo Banco Master. O chefe do Banco Central e sua assessoria responderam posteriormente para tentar conciliar datas na agenda oficial e particular.
As tratativas avançaram no mês seguinte, quando o chefe da autoridade monetária ofereceu alternativas de data para receber o empresário. O encontro chegou a ser marcado para dezembro de 2023 na Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, mas acabou cancelado devido a uma dedetização na residência. Posteriormente, o ex-dirigente sugeriu que o compromisso fosse transferido para a representação do Banco Central na Avenida Paulista.
Polícia Federal recupera conversas
O material recuperado pelos investigadores expõe a frequência dos contatos entre autoridades financeiras e executivos do setor bancário durante o período de supervisão das instituições. A apuração detalha que o intercâmbio de mensagens incluiu marcações de agendas particulares e tratativas diretas fora do expediente formal. Documentos anexados ao inquérito apontam que a aprovação do controle do Banco Master ocorreu anos antes, em outubro de 2019.
Naquela ocasião, a diretoria colegiada do Banco Central deu aval para Vorcaro assumir o controle do Banco Máxima, instituição que posteriormente adotou o nome Banco Master. Oito meses antes, sob a gestão anterior liderada por Ilan Goldfajn, a mesma operação havia sido rejeitada pela autarquia. Em ambas as oportunidades, as decisões administrativas foram tomadas por unanimidade pelo colegiado da instituição.
Investigações em curso também apuram a suspeita de que ex-dirigentes da área de fiscalização e ex-chefes de departamento tenham atuado em favor dos interesses do banqueiro. Os servidores investigados negam veementemente o recebimento de valores, propinas ou qualquer vantagem indevida em decorrência de suas funções no órgão regulador.
Defesa não comenta apuração
Procurada pela reportagem para esclarecer o teor das conversas recuperadas no inquérito, a defesa de Daniel Vorcaro optou por não se manifestar sobre os diálogos. A assessoria de imprensa de Roberto Campos Neto também foi acionada por mensagem para comentar o convite e o cancelamento do encontro na residência, mas não apresentou resposta até o fechamento desta reportagem.
O inquérito policial segue em andamento para aprofundar a análise de dados telefônicos e financeiros apreendidos durante as fases da operação. A autoridade policial busca esclarecer a extensão das relações institucionais e privadas mantidas por executivos do sistema financeiro com dirigentes de órgãos reguladores federais. As informações complementares devem compor os relatórios finais enviados ao Poder Judiciário.
O cruzamento de dados realizado pelos investigadores inclui análises de mensagens trocadas com outras figuras públicas e empresários de destaque nacional. Relatórios parciais indicam que o celular do executivo continha registros de conversas sobre diversos temas corporativos e de mídia, ampliando o escopo das apurações conduzidas pelas equipes policiais responsáveis pelo caso.
Prêmio internacional é citado
A troca de mensagens entre o ex-presidente do Banco Central e o empresário foi retomada em março de 2024, após meses sem registros significativos de conversas diretas. Naquela data, Campos Neto enviou uma imagem festejando uma premiação recebida pela instituição no exterior. Vorcaro respondeu imediatamente com saudações e parabéns pelo reconhecimento obtido pela autarquia no setor.
O registro faz referência ao reconhecimento internacional recebido pelo Banco Central no Central Banking Awards 2024, ocasião em que a entidade brasileira foi eleita a melhor do ano. O executivo do Banco Master enviou emojis de aplausos e classificou o prêmio como merecido, recebendo agradecimentos formais do então presidente da autoridade monetária logo em seguida.
O episódio ilustra a proximidade mantida em determinados momentos entre os interlocutores, mesmo após o cancelamento da reunião presencial que ocorreria no interior paulista. As autoridades continuam avaliando se os contatos mantidos extrapolaram os limites institucionais esperados para a relação entre regulados e reguladores do sistema financeiro nacional.
Investigações continuam em sigilo
As diligências conduzidas pela Polícia Federal mantêm o foco na coleta de provas documentais e digitais para esclarecer possíveis irregularidades na supervisão bancária. O material apreendido nos dispositivos móveis dos investigados passa por varreduras periciais completas para identificar novos elementos de prova. Novas fases da operação dependem da validação técnica dos dados recuperados pelos peritos criminais federais.
O andamento das investigações repercute nos bastidores do mercado financeiro e entre autoridades encarregadas da regulação das instituições de crédito no país. Analistas e órgãos de controle acompanham os desdobramentos jurídicos e administrativos decorrentes do inquérito policial. A expectativa é de que novas manifestações formais ocorram à medida que o material periciado seja integralmente incorporado ao processo judicial.
A supervisão das atividades bancárias e o cumprimento das normas do sistema financeiro seguem sob o escrutínio dos órgãos competentes do Estado brasileiro. O avanço das apurações jurídicas estabelece um novo patamar de rigor na análise de condutas de ex-dirigentes e empresários envolvidos com operações de crédito fiscalizadas pela autoridade monetária federal.


