O governo de coalizão da Espanha aprovou no Conselho de Ministros um pacote abrangente de medidas habitacionais estruturado em dois decretos-lei. A decisão ocorre em um momento de forte pressão social, impulsionada por intensos protestos populares após o despejo de Maricarmen Abascal, uma idosa de 87 anos retirada de sua residência em Madri na semana passada. As propostas buscam conter a disparada nos preços dos aluguéis e responder à escassez de oferta no mercado imobiliário do país europeu.
Entre as principais iniciativas anunciadas pelo Executivo está a prorrogação da proteção contra despejos de inquilinos vulneráveis, que agora fica estendida até 2030. Além disso, o texto determina a proibição de novas aquisições de imóveis por fundos de investimento, conhecidos popularmente como fundos abutres, até 2028. As medidas também preveem a prorrogação por dois anos dos contratos de locação vigentes e a regulamentação específica para aluguéis de temporada e de quartos.
Centenas de manifestantes mantiveram acampamentos em praças centrais de Madri, como a Puerta del Sol, exigindo reformas legais profundas, congelamento de aluguéis e maior rigor contra a especulação imobiliária. A comoção em torno do caso da aposentada levou o governo a acelerar as negociações internas entre o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e a plataforma de esquerda Sumar, resultando na consolidação do novo conjunto de regras apresentado nesta semana.
Governo enfrenta parlamento fragmentado
Apesar do avanço no Conselho de Ministros, a aprovação definitiva das regras enfrenta um cenário político desafiador no Parlamento espanhol. Por se tratar de um governo minoritário, a coalizão precisa assegurar votos essenciais de legendas regionais e partidos aliados em uma sessão plenária extraordinária convocada pelo Executivo.
O ministro de Assuntos Sociais, Pablo Bustinduy, detalhou em entrevista coletiva que o principal ponto de divergência política, focado na renovação automática dos contratos de locação, foi concentrado no segundo decreto da proposta. A divisão em dois textos distintos foi uma estratégia governamental para tentar blindar as medidas com maior consenso e evitar o fracasso total das reformas no Congresso.
Forças políticas fundamentais para a base de apoio, como o partido catalão pró-independência Junts, manifestaram cautela e resistência a trechos específicos da proposta. A legenda argumenta que o texto atual pode deixar pequenos proprietários desprotegidos, exigindo uma diferenciação clara entre grandes corporações financeiras e cidadãos que investiram suas economias em imóveis.
Protestos e repercussão social
A onda de indignação popular ganhou tração nacional após a remoção forçada de Abascal, cuja cena em uma maca chocou a opinião pública e mobilizou entidades de defesa da moradia. Enquanto os atos continuavam nas ruas, a defesa da idosa informou que o fundo proprietário do apartamento apresentou uma proposta preliminar de acordo para viabilizar seu retorno ao imóvel.
O arranjo negociado prevê que a aposentadoria da idosa seja parcialmente comprometida ao longo dos próximos anos para equiparar o valor ao que era pago antes do despejo. O episódio tornou-se o símbolo central da urgência de reformas estruturais no setor imobiliário espanhol, combinando a pressão das ruas com a tramitação de novas diretrizes legislativas.
A ministra da Saúde, Monica Garcia, reforçou a necessidade de intervenção estatal no setor. Em publicação nas redes sociais, ela defendeu que o Estado precisa atuar de forma firme para frear a especulação desmedida e restabelecer o equilíbrio nas relações de locação urbana.
É hora de intervir no mercado imobiliário especulativo e começar a buscar um equilíbrio entre os cidadãos comuns e os fundos abutres.”
Monica Garcia, ministra da Saúde da Espanha
Regulamentação de aluguéis e fundos
O pacote habitacional estabelece barreiras rígidas contra a atuação de fundos de investimento especulativos no mercado residencial espanhol. A proibição dessas aquisições até 2028 pretende estancar a compra em massa de unidades habitacionais que posteriormente são convertidas em aluguéis de curta temporada ou mantidas vazias para valorização.
A proliferação de aluguéis voltados para o turismo tem sido apontada por especialistas e autoridades como um dos principais motores do déficit habitacional e do encarecimento drástico do custo de vida nas grandes cidades da Espanha. Com a nova regulamentação para o setor de temporada e de quartos, o governo busca frear a fuga de imóveis residenciais tradicionais para plataformas comerciais.
As autoridades esperam que a combinação entre moratória de despejos, congelamentos temporários e controle de fundos consiga aliviar a pressão sobre as famílias de baixa renda. A eficácia prática das medidas, no entanto, dependerá diretamente do desfecho das negociações políticas no Parlamento e da capacidade de aplicação das sanções previstas nos decretos.
Congresso vota decretos presidenciais
O calendário legislativo estabelecido pelo governo prevê a votação dos decretos em uma sessão plenária extraordinária do Parlamento. A expectativa do Executivo é que a urgência da crise habitacional pressione os parlamentares a viabilizarem pelo menos o primeiro decreto, considerado o pilar central da proteção social imediata.
Enquanto o debate político prossegue, movimentos de moradia e inquilinos mantêm o estado de alerta e prometem continuar acompanhando de perto os desdobramentos institucionais. A pressão popular consolidou o tema como uma das prioridades absolutas da agenda política espanhola para o restante do ano legislativo.
A evolução das negociações com partidos regionalistas definirá se o pacote integral será mantido ou se o governo precisará fazer concessões adicionais para evitar a rejeição das medidas mais polêmicas no plenário.


